Cultura

Retratos para a eternidade

Pela primeira vez no Brasil, a exposição de fotos do estúdio francês Harcourt mostra por que ele é o preferido de dez entre dez estrelas

Retratos para a eternidade

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LUZ PERFEITA
elo estúdio Harcourt passaram Brigitte Bardot (acima), Salvador Dalí (abaixo)
e a brasileira Gloria Pires: portraits com marca registrada

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"Não apenas uma foto, uma experiência". Por oito décadas esse slogan identifica um dos mais célebres estúdios de fotografia do mundo, o Studio Harcourt, situado em um casarão na avenida Montaigne, em Paris, endereço nobre da capital francesa. Sua especialidade: retratos. Ou melhor: portraits. O auxílio do termo pictórico aqui é mais que pertinente. As imagens com a marca Harcourt são verdadeiras pinturas feitas com a luz. Por isso, ele sempre foi o preferido das estrelas, a ponto de o filósofo Roland Barthes, um apaixonado pela arte fotográfica, ter afirmado que na França um ator só ganha a fama depois de posar para as câmeras do estúdio. Sob a luz de seus potentes holofotes, não passaram apenas atores, mas músicos, pintores, bailarinos, estilistas, políticos e celebridades em geral. Gente como Edith Piaf, Brigitte Bardot, Salvador Dalí, Alain Delon, em poses perfeitas, irretocáveis, feitas para durar – e hipnotizar. Todos eles estão na exposição “Harcourt, Escultor da Luz”, em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, até o dia 12 de agosto. Entre as 99 fotos aparecem também artistas e personalidades brasileiras, a exemplo da atriz Gloria Pires, do escritor Paulo Coelho, do tenista Gustavo Kuerten e do cacique Raoni.

A arte do retrato é uma tradição francesa: foi justamente em Paris que Nadar, um dos pioneiros da fotografia, deu nobreza a essa atividade. As imagens desse mestre, contudo, eram mais tradicionais e sisudas. A assinatura do Harcourt é outra. Inspirado na estética da época de ouro de Hollywood, o estúdio prefere o retrato minimalista: fundo neutro, geralmente feito de papel, e luz. O efeito é o do cristal. Como a personalidade do modelo se revela nesses instantes congelados reside a sua mágica. Tome, por exemplo, a imagem da cantora Edith Piaf, com os braços cruzados sobre o seu habitual vestido negro. Quantas fotos ela não deve ter feito dessa maneira? Poucas, no entanto, revelam a doçura por trás de seu canto desesperado.

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INTIMIDADE
Retratos da cantora Edith Piaf (acima), do tenista brasileiro Gustavo Kuerten
e da atriz Marlene Dietrich (última): personalidade revelada

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Considerado um patrimônio da França (atualmente é propriedade do Estado, que o adquiriu em 1986), o Harcourt foi criado em 1934 por Cosette Harcourt, os irmãos Lacroix e Robert Ricci, filho da estilista Nina Ricci. Com suas atividades de início especialmente ligadas ao cinema, suas imagens costumavam decorar as salas de exibição da época, tornando ainda mais elegantes os seus corredores aveludados. Essa estética, intimamente ligada ao “star system” hollywoodiano, ganha ressonância, por exemplo, na foto mais recente do astro francês Jean Dujardin. Ganhador do Oscar de melhor ator este ano pelo filme “O Artista”: seu retrato em preto e branco poderia bem ter saído do longa metragem, que simula o cinema mudo. Como curiosidade, a mostra traz inclusive dois portraits da boneca Barbie. Sob a luz mágica dos fotógrafos do Harcourt, até um brinquedo ganha vida.