Editorial

AS VERDADES DO CASO LUGO

AS VERDADES DO CASO LUGO

Várias verdades cercam o episódio do impeachment do presidente paraguaio, Fernando Lugo, deposto em rito sumário pelo Congresso nacional em pouco mais de 30 horas de julgamento parlamentar. Houve decerto um “golpe branco”, uma afronta à clássica ideia de representatividade democrática, a partir do afastamento de um presidente eleito pelo voto direto. Também é verdade que o ato não configurou qualquer ruptura legal, não feriu preceitos constitucionais nem desconsiderou a vontade popular – que nos últimos tempos via o mandatário como o maior responsável pelas mazelas econômicas e pelos problemas sociais internos. Tal circunstância estava prevista na Carta Magna e contou com tamanha unanimidade que mesmo a Suprema Corte paraguaia resolveu endossar a decisão congressual e, ato contínuo, o próprio Tribunal Eleitoral do país reconheceu seu sucessor, Federico Franco, como legítimo representante da nação. Posto isso, torna-se cristalina mais uma verdade: a de que as instituições paraguaias estão funcionando livremente, no pleno exercício de suas atribuições. Como contestar a soberania de um país nesses termos? Não cabem maniqueísmos na história. É possível condenar o tipo de democracia faceira praticada ali – que não exige sequer razões concretas nem provas cabais, para tomar posições extremas como essa –, mas jamais interferir. No caldeirão de antagonismos do episódio, exercer influência para a revisão do atual status quo, incluindo retaliações de qualquer natureza – como a exclusão do parceiro de reuniões do Mercosul –, configura uma intromissão indevida e desrespeito acintoso. Sem contar os perigos que essa política isolacionista pode gerar. No que diz respeito ao Brasil, as consequências negativas desse caminho são mais uma verdade absoluta. Lá estão a estratégica e bilionária usina de energia Itaipu Binacional que abastece de norte a sul o país; uma enorme comunidade de “brasiguaios” detentores de propriedades agrícolas que vivem em constante conflito com os sem-terra locais; e um lucrativo comércio de produtos “made in Brazil”. Caso o governo Dilma siga a onda bolivariana de ingerência além da conta, pode colocar em risco os interesses nacionais e comprometer seu papel de líder regional.