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Leveza

Carinhosamente apelidado de “kung fu pança”, não só é uma das maiores feras do mundo das artes marciais mistas, mas um expert em se relacionar com a vida com muita simpatia

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O lutador
profissional Roy Nelson, ex-babá e futuro pai, exercita seu kung fu em LasVegas

Talvez você não acredite, mas o cabeludo barrigudo da foto fazendo pose de gafanhoto fora do peso é hoje um dos mais respeitados nomes do mundo do MMA, esporte que a essa altura já começa a dispensar a tradução/sobrenome que costumava vir a reboque da sigla em reportagens e citações (ok, vá lá…trata-se da abreviatura de Mixed Martial Arts ou artes marciais mistas, em português).

Filho de um bombeiro, nascido e criado em Las Vegas, Roy Nelson, acreditem, foi durante dez anos babá de crianças numa espécie de creche pública antes de começar a lutar mais seriamente. Além de sua imagem corporal bem diferente da esmagadora maioria de bombados e sarados colegas de profissão, Nelson também chama a atenção por outro aspecto de sua biografia. É um dos únicos lutadores do UFC que têm no kung fu sua arte marcial base. Apesar de ter desenvolvido boa técnica de jiu jitsu Gracie, foi na arte que se inspira nos movimentos dos animais que este homem com mais de 120 quilos e 35 anos de vida ancorou seu inegável talento para o controvertido mas inegavelmente bem-sucedido (ao menos e termos de audiência e de negócios gerados) mundo das lutas profissionais no octógono. No UFC, Roy tem um cartel de seis lutas, sendo três vitórias por nocaute e três derrotas por decisão dos juízes. Nunca foi à lona. Sua primeira derrota foi para o atual campeão mundial dos pesados, o brasileiro Junior Cigano.

“Foi o combate mais difícil da minha carreira”, lembra Cigano. “Antes da luta, o entrevistador do evento me falou: ‘Você vem ganhando de grandes nomes, já pensou perder pro gordinho agora?’ Aquilo não saiu da minha cabeça, foi frustrante. Durante os rounds, a pergunta do entrevistador veio várias vezes à minha memória. Eu já estava cansado de bater e ele não sentia!” Na época, Roy pesava 119 quilos. Tomou exatos 130 golpes do brasileiro. E não caiu. Depois da luta, os dois se tornaram amigos próximos. “Ele é um cara engraçado, muito coerente e simpático. É meio tímido, mas se você brincar, ele vai brincar. É uma pessoa boa de ter por perto”, define Cigano. Roy, por sua vez, diz que só lutaria de novo contra o brasileiro se fosse pelo cinturão. Caso contrário, não gostaria de enfrentar um amigo.

O relato é do repórter Caio Ferreti, que passou alguns dias ao lado de Nelson em Las Vegas para produzir um perfil do lutador para a edição de julho da “Trip” que tratará das lições que a natureza pode nos ensinar. Caseiro, um pouco tímido e, como se diz por aqui, “muito gente boa”, Roy é casado com Jessica, que espera para os próximos meses a chegada do primeiro filho do casal. Além de tudo o que absorveu com as técnicas de kung fu que emulam os movimentos e comportamentos de tigre, garça, cobra, dragão e leopardo, o que todos dizem no mundo das lutas, e que Caio confirma com todas as cores, é que Roy aprendeu, não se sabe com que animal, racional ou não, algumas das mais raras e sofisticadas artes da vida: elegância, leveza de alma e gentileza, mesmo a bordo de uma carcaça mais parecida com a de um rinoceronte blindado.


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