Economia & Negócios

Candidatos a Zuckerberg

Investidores americanos comparam polo de tecnologia de Campinas ao Vale do Silício e fazem aportes milionários em empresas brasileiras marcadas pela inovação

Candidatos a Zuckerberg

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Não é de hoje que o Brasil chama a atenção pela solidez econômica e por possuir um ambiente de negócios que estimula o empreendedorismo. A boa notícia é que cada vez mais esse olhar se volta também para a inovação. Investidores estrangeiros acostumados a descobrir talentos no Vale do Silício, polo que concentra empresas da área de tecnologia na Califórnia, nos Estados Unidos, descobriam que os brasileiros podem ser uma fonte de projetos criativos e comercialmente viáveis. Eles estão de olho nas chamadas start-ups, nome que caracteriza companhias com forte base tecnológica e que são capazes de desenvolver produtos inovadores. O americano Kevin Efrusy, que se tornou conhecido por ser um dos primeiros a colocar dinheiro no Facebook, desembolsou recentemente mais de US$ 3 milhões no site brasileiro Kekanto, guia online de recomendações de restaurantes, hotéis e baladas. Mais interessante ainda: antes disso, Efrusy já tinha realizado aporte nos sites Shoes4you e Elo7, ambos também 100% nacionais. Em um artigo publicado no jornal “The Washington Post”, o especialista em tecnologia Vivek Wadhwa fez afirmações surpreendentes, como a de que o próximo Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, poderia ser brasileiro. “A qualidade das start-ups que eu visitei é nitidamente melhor do que as que já conheci no Vale no Silício”, escreveu.

O que mais impressionou Wadhwa foi o espírito colaborativo entre as empresas formadoras da Associação Campinas Startups. O grupo surgiu com o apoio da Unicamp, universidade paulista marcada por estimular projetos inovadores. “Eu e minha sócia achávamos que o mais importante era ter dinheiro, mas descobrimos que é o conhecimento”, diz a bióloga Taíla Lemos, fundadora da Gentros, empresa de biotecnologia que desenvolve produtos para a saúde animal, como vários tipos de vacina até então inexistentes no mercado. Taíla montou um conselho formado por um time amplo de pesquisadores (um deles ligado ao laboratório Pfizer), que podem inclusive atuar em outras empresas. Esse sistema de trabalho, conhecido como “open innovation”, valoriza a intensa colaboração de terceiros – exatamente o que acontece com as startups ligadas à Unicamp. De acordo com esse conceito, as companhias se tornam mais competitivas justamente por escancarar suas portas para as ideias vindas de fora. “Ainda estamos na primeira geração de empreendedores”, afirma César Gon, diretor-executivo da Ci&T, empresa de desenvolvimento de softwares que nasceu em uma garagem, em 1995, e fechou 2011 com um faturamento de R$ 135 milhões. Gon cria programas de gestão para gigantes como Coca-Cola, Nestlé e Embraer e também se destaca em Campinas por desenvolver aplicativos para smartphones e tablets.

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DE PONTA
Com o apoio da universidade, Gon e Taíla criaram projetos inovadores
que ajudaram a desenvolver o polo de tecnologia de Campinas

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Há uma forte relação entre o mundo acadêmico e o surgimento de empresas inovadoras. Basta lembrar que o Facebook nasceu em um dormitório da Universidade de Harvard pelo então aluno Zuckerberg. Obviamente, o sucesso planetário do Facebook é exceção, mas também é inegável que o ambiente universitário estimula a criação. Esse foi um dos fatores que tornou Campinas um polo tecnológico: o estabelecimento de uma universidade forte. No mês passado, a Unicamp foi apontada como a terceira melhor da América Latina pelo grupo britânico Quacquarelli Symonds. Desde a fundação da Unicamp, em 1966, a cidade começou a atrair laboratórios e companhias de tecnologia, que viram vantagem em ser vizinhas de uma fonte de mão de obra qualificada. “A Unicamp ajudou a trazer para a região empresas de diversos setores”, diz Roberto Lotufo, diretor executivo da Inova Unicamp, agência de inovação que engloba uma incubadora e que promove um desafio anual para startups. Essa relação entre academia e empresas fomentou o clima de empreendedorismo, que por sua vez contamina as salas de aula. “Temos que quebrar o paradigma de que o aluno deve sair da universidade para necessariamente ir trabalhar em uma empresa, em vez de abrir o próprio negócio”, diz Patrícia de Toledo, diretora de propriedade intelectual e transferência de tecnologia da Inova.

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Fotos: Murillo Constantino e Kelsen Fernandes/AG. ISTOÉ