Brasil

CPI paralela

Diante do desinteresse da CPI do Cachoeira em ir além do que a PF já apurou, parlamentares criam uma comissão alternativa. O primeiro passo é ouvir o ex-diretor do Dnit Luiz Antônio Pagot

CPI paralela

AGORA VAI? Os senadores Pedro Taques, Pedro Simon e o deputado Miro Teixeira (da esq. para a dir.) são os idealizadores da CPI paralela (Adriano Machado/Ag. istoé)

chamada.jpg
AGORA VAI?
Os senadores Pedro Taques, Pedro Simon e o deputado
Miro Teixeira (da esq. para a dir.) são os idealizadores da CPI paralela

Na tarde de quarta-feira 20, no canto esquerdo do plenário do Senado, três parlamentares discutiam a realização de um trabalho paralelo à CPI do Cachoeira, que não se mostra disposta a desvendar o submundo das relações de políticos e empresários com o contraventor Carlinhos Cachoeira. O grupo era formado pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) e pelos senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Pedro Taques (PDT-MS). Depois de quase meia hora de conversa, o acordo foi selado. A fim de driblar os conchavos de bastidores feitos pelos partidos para que não se descubra nada além do que já consta nos inquéritos policiais, o trio resolveu colher depoimentos de personagens considerados fundamentais para a investigação, mas que estavam sendo barrados pela CPI oficial. Outra decisão dos parlamentares, idealizadores da CPI alternativa, foi a de facilitar o acesso dos parlamentares a documentos relativos ao inquérito. Graças a esse discurso, a CPI paralela conquistou adeptos nos últimos dias. Nas contas de Miro, Simon e Taques, cerca de 30 parlamentares, dentro e fora da CPI do Cachoeira, já apoiam as ações do grupo e planejam se juntar a ele.

A primeira tarefa da recém-batizada CPI paralela será ouvir nos próximos dias o homem-bomba do Dnit, Luiz Antônio Pagot, que revelou à ISTOÉ, no mês passado, como o departamento foi pressionado, tanto por PT como PSDB, para arrecadar dinheiro para campanhas eleitorais. Em conversa com o senador Pedro Simon na quinta-feira 21, Pagot disse que não pretende dar um depoimento a uma comissão informal porque pareceria uma afronta aos parlamentares que compõem a CPI em funcionamento. A alternativa apresentada por Simon e aceita por ele foi a convocação de uma entrevista coletiva a ser marcada para esta semana. Seria uma tentativa de jogar luz nas negociatas dos partidos com a empreiteira Delta, forçando reações da própria comissão e dos órgãos de fiscalização. “Achamos que essa é uma saída interessante. Pagot não gostou da ideia de CPI paralela, mas aceita falar o que sabe em uma coletiva. É nisso que vamos focar. Se os fatos forem divulgados, não haverá como ignorá-los. Creio que ninguém vai querer correr o risco de sofrer um desgaste ainda maior com a opinião pública”, conta Simon.

01.jpg
Ex-diretor do Dnit, Luiz Antônio Pagot topou falar o que
sabe em uma coletiva organizada pela CPI paralela

O grupo de parlamentares que quer contornar a inércia da CPI incorporou também a missão de facilitar o acesso a documentos que chegaram ao Congresso. Dados sobre quebras de sigilos e detalhes de inquéritos estão em programas considerados indecifráveis até por técnicos legislativos. Enquanto o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), ainda não moveu um dedo para possibilitar o acesso a essas informações, integrantes da CPI paralela tentam driblar os obstáculos. Miro Teixeira telefonou na última quarta-feira para o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e relatou a situação. Pediu dois especialistas da Polícia Federal nos sistemas I2 e DW (Data Wearhouse), usados para fornecer as informações. Os servidores teriam a função de cruzar dados e divulgá-los de forma compreensível aos políticos interessados nas investigações. Cardozo respondeu que pode emprestar os técnicos, desde que o pedido seja feito oficialmente pela CPI comandada por Vital do Rêgo, já que o grupo autônomo não teria prerrogativas para requisitar auxiliares. “Vamos pedir ao presidente que peça ajuda oficialmente. Estamos tentando fazer nosso trabalho. Integrei muitas CPIs e em quase todas foi necessário romper barreiras para investigar”, diz Teixeira. “Estamos trabalhando de forma independente e conversando sobre o que encontramos. O que não podemos é parar de investigar e ceder às blindagens”, completa Pedro Taques.

 

O grupo de parlamentares que quer driblar a inércia daCPI também vai facilitar
o acesso a documentos considerados indecifráveis até por técnicos legislativos

A tentativa de furar os acordos pessoais e partidários que esvaziaram os trabalhos da CPI do Cachoeira não é inédita na história recente do Congresso. No governo de Fernando Collor, foi graças ao trabalho paralelo de políticos combativos que se conseguiu avançar nas investigações sobre a rede de corrupção montada por PC Farias. Naquele tempo, o destaque foi a atuação do ex-senador Mario Covas e do próprio Pedro Simon, que agora tenta repetir o enredo de sucesso. “Já fizemos isso antes e deu certo. Quando a gente via que ninguém estava interessado em avançar, trabalhávamos por conta própria”, conta Simon.

Na memória dos capitães da CPI paralela também está a apuração feita longe das sessões oficiais da CPI do Orçamento, que em 1993 apurou o esquema de desvio de dinheiro público por meio de emendas parlamentares. Na época, diante da resistência de políticos às investigações, Miro Teixeira, o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) e o ex-deputado tucano Sigmaringa Seixas, roubaram a cena e interferiram diretamente no desfecho do inquérito. É essa cena que se repete agora, quando experientes furadores de blindagens, Miro e Simon à frente, se juntam a novatos, como é o caso dos senadores Pedro Taques e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), para tentar salvar a reputação de uma CPI que tem perdido a credibilidade. Com a iniciativa, eles mostram que nem tudo no Legislativo se esconde na sombra.

02.jpg