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A volta dos faraós

Enquanto não sai o resultado da eleição, militares egípcios dissolvem o Parlamento e lançam medidas duras para combater os protestos

A volta dos faraós

PROTESTOS Manifestantes saem às ruas e exigem que a vitória de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, seja reconhecida (MARWAN NAAMANI/AFP PHOTO)

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PROTESTOS
Manifestantes saem às ruas e exigem que a vitória de Mohamed Morsi,
da Irmandade Muçulmana, seja reconhecida 

Se os resultados das eleições aumentaram as incertezas a respeito do futuro político do Egito, os acontecimentos dos últimos dias não deixam dúvidas sobre quem realmente manda no país. Os manifestos pró-democratização que, desde março do ano passado, levaram milhares de pessoas às ruas, não foram capazes de produzir uma liderança de consenso. Resultado: o poder está cada vez mais concentrado nas mãos dos militares. As Forças Armadas governam o Egito, supostamente de forma interina, desde a queda do ditador Hosni Mubarak, mas parecem cada vez menos dispostas a abdicar de sua influência. Na semana passada, uma junta de generais anunciou uma série de medidas que, entre outras arbitrariedades, prevê a dissolução do Parlamento (eleito em janeiro e até então dominado por partidos islâmicos), a implementação de uma nova constituição e o controle total do orçamento da nação. São ações tão duras que podem enterrar de vez os sonhos de transformação da Primavera Árabe.

Até a sexta-feira 22, ninguém era capaz de apontar um vitorioso nas eleições de uma semana atrás. Enquanto os assessores de Ahmed Shafiq, candidato da Junta Militar e último primeiro-ministro do regime Mubarak, declararam vitória no pleito com 51,5% dos votos, a Irmandade Muçulmana afirmou que o vencedor havia sido o seu candidato, Mohamed Morsi, com 52%, o equivalente a um milhão de votos a mais do que seu oponente. Por ser o rival do candidato militar, Morsi teoricamente representa a esperança de uma ruptura com o regime que domina o país desde 1952. Mas isso está muito longe de ser a realidade. Segundo observadores internacionais, Morsi não é um defensor convicto de ideais democráticos e nem está disposto a enfrentar um desgastante – e perigoso – embate com as forças militares. Se for mesmo eleito, há quem desconfie de sua disposição para lutar contra o avanço do poder do Exército. No caso da eleição de Shafiq, não restará dúvida de que a luta pela democracia foi mais uma vez derrotada.

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VIOLÊNCIA
Desenho em muro da Praça Tahrir faz referência à repressão:
militares impõem medidas duras contra a população

Além das incertezas da eleição, as notícias sobre o agravamento do estado de saúde de Mubarak, que teria sido declarado clinicamente morto após um enfarte seguido de derrame cerebral, serviram de combustível para os militares. Na lógica dos generais, a morte de Mubarak poderia desencadear uma onda de comemoração nas ruas e despertar, especialmente nos jovens, novos anseios por mudanças. No Egito, a força do Exército transcende o aspecto meramente bélico. Seu poderio econômico é impressionante. De uma economia de US$ 180 bilhões, atualmente 20% está nas mãos das Forças Armadas, que detêm o controle de companhias estatais, indústrias de diversas áreas (armamentos, alimentos, veículos), empreiteiras responsáveis pelas obras públicas e estações de petróleo que interessam diretamente aos Estados Unidos. Isso explica, por exemplo, por que o governo americano financia mais de US$ 1 bilhão por ano para que os egípcios possam aparelhar o Exército do país. “É preciso ficar de olho na relação entre Egito e Estados Unidos para descobrir quais são os reais interesses dos americanos nesse conflito”, diz Denise Barros, antropóloga e professora da PUC-SP.

Denise afirma que, enquanto os Estados Unidos apoiam as eleições e a instauração da democracia, também financiam os militares que se insurgem contra as manifestantes nas ruas. Se os confrontos entre população e autoridades já eram violentos, agora a repressão tende a ser maior. No pacote de surpresas militares veio também o direito dado à polícia de prender suspeitos sem acusações, assim como acontecia no estado de emergência imposto por Mubarak em seu governo. Descontente com as medidas tomadas pela Junta Militar, a população saiu novamente às ruas e, como já é de costume, lotou a Praça Tahrir em apoio à Irmandade Muçulmana. Muitos levavam cartazes com o retrato de Morsi e se indagavam até onde os generais iriam para impedir a conquista da democracia. Na quinta-feira 21, data em que o resultado da eleição deveria ter sido anunciado oficialmente, os muçulmanos afirmaram que o protesto na praça no centro de Cairo perdurará até que Morsi seja reconhecido o vencedor.

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