Comportamento

A onda colaborativa

Milhares de pessoas tocam, a distância e de maneira virtual, projetos artísticos e empresariais numa nova modalidade de trabalho chamada crowdsourcing

A onda colaborativa

JUNTO E SEPARADO

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JUNTO E SEPARADO
Leonardo Cinezi não tinha tempo para reunir a banda.
Resolveu o problema criando o Música à Distância

"Tocar com a turma é prazeroso, mas, sempre que tentava reuni-la, alguém não podia por falta de tempo", diz o diretor de marketing e guitarrista Leonardo Cinezi, 32 anos. Para resolver a questão, Cinezi criou uma forma de se encontrar virtualmente com sua banda. O projeto cresceu e o Música à Distância (MàD) já reuniu quase 100 músicos do País desde o fim do ano passado. São pessoas que não se conhecem, mas que resolvem gravar, na maioria das vezes com o celular, um vídeo tocando uma música pré-selecionada em algum instrumento. Daí enviam para a página oficial do projeto no Facebook (facebook.com/NewWayMusic). “Às vezes chegam dez vozes diferentes, é uma loucura”, diz Cinezi, que sincroniza os vídeos e os transforma em uma única música. O MàD é a manifestação de uma nova modalidade de trabalho, chamada crowdsourcing, que reúne pessoas que nunca se viram para realizar uma tarefa em qualquer área.
E não é só música que pode ser feita dessa forma. O site Custo de Vida, por exemplo, contou com a colaboração de mais de cinco mil pessoas para oferecer a comparação do custo médio de vida em mais de 400 cidades do Brasil. Outros sites, como o Kickstarter, permitem que projetos independentes consigam financiamento a partir de pequenas doações de vários usuários. Foi assim que o Pebble, relógio de pulso capaz de realizar funções de um iPhone, conseguiu mais de US$ 10 milhões para começar a ser desenvolvido. Foi o maior valor já arrecadado dessa forma e o relógio deverá estar pronto em setembro. Quem o financiou, ganhará seu exemplar. A forma que o trabalho colaborativo toma depende da intenção de quem o organiza. “No Brasil, ainda é mais comum identificar o crowdsourcing em concursos simples. A empresa faz uma pergunta, aguarda pelas respostas das pessoas que se relacionam com ela, como clientes e fornecedores, e escolhe a melhor”, explica Marina Miranda, diretora-geral da Mutopo Brasil, filial nacional de uma consultoria americana em crowdsourcing. “Mas é possível avançar muito mais nesse processo.”

Uma das maneiras de fazer isso é oferecer às pessoas uma plataforma para que elas discutam ideias com foco em um tema central. Foi a partir de uma plataforma colaborativa com esse perfil que a Tecnisa, empresa do ramo imobiliário, começou a projetar um condomínio com medidores individualizados de água, gás e energia elétrica. Um monitor digital permitirá ao morador conferir o consumo dos eletrodomésticos em tempo real e a expectativa da empresa é de que a economia alcance até 20% dos gastos mensais. “A ideia foi uma das quase duas mil que recebemos desde o lançamento do Tecnisa Ideias, há dois anos. Ao todo, 35 delas já foram aprovadas e estão em fase de implementação”, afirma Gustavo Zanotto, responsável pela plataforma.

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CRIAÇÃO
Fabio Seixas (atrás) e Vinicius Canvas, da Camiseteria, loja virtual de
camisetas que recebe e premia desenhos dos usuários cadastrados

Para Shaun Abrahamson, fundador da consultoria americana Mutopo, de todas as formas já testadas de crowdsourcing, a mais avançada é aquela que permite ao público não apenas dar ideias, mas também escolher as melhores. “É praticamente impossível que dez juízes avaliem cinco mil projetos. Assim as chances de boas ideias se perderem são grandes”, disse à ISTOÉ. A Camiseteria, loja virtual de camisetas, baseia seu negócio nesse tipo de trabalho colaborativo. Hoje, 300 mil usuários cadastrados ajudam na criação das estampas da loja. “Desses, cerca de 30 mil enviam desenhos. Os outros só votam e comentam as estampas”, diz Fabio Seixas, 37 anos, um dos fundadores da empresa. Cerca de quatro desenhos são aprovados semanalmente e produzidos pela marca. “O sistema praticamente elimina os riscos do negócio, já que sabemos que o cliente gostou antes de produzirmos a camiseta”, afirma Seixas.

As pessoas participam desse tipo de projeto pelos mais variados motivos. “Prêmio em dinheiro é apenas uma das motivações possíveis”, diz Marina Miranda, da Mutopo. A Camiseteria oferece aos criadores das estampas vencedoras R$ 800 em dinheiro e mais R$ 500 em produtos. Foi isso que fez Vinicius Carvas, 23 anos, enviar sua primeira estampa, ainda no início do projeto, em 2006. Dez estampas e um ano e meio depois, ele teve seu primeiro desenho transformado em camisa. E passou a ter outra motivação para enviar sugestões para o Camiseteria. “Quando comecei a participar, estava no ensino médio ainda e era grafiteiro. Colocava minhas estampas e lia os comentários de outras pessoas, algumas delas designers mais experientes. Acabou sendo uma escola também”, diz Carvas, que, depois de ter 12 estampas aprovadas e se formar em design, foi contratado para ser webdesigner da Camiseteria em fevereiro deste ano. Um negócio em que todos parecem sair ganhando.

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