Edição nº2484 21.07 Ver edições anteriores

5 Stelle

“Quando vemos o nascimento de partidos extremistas na Alemanha, na França e na Grécia, 5 Stelle chama a atenção pelo seu apelo democrático”

Ele é comediante, tem 64 anos, e está deixando os tradicionais políticos italianos de cabelo em pé. Seu nome é Beppe Grillo, e ele é o fundador do 5 Stelle, movimento que, tendo gasto apenas seis mil euros durante a campanha eleitoral de Parma, conseguiu eleger para prefeito o candidato Federico Pizzaroti, com 60% dos votos. Mas isso não foi tudo. Os candidatos da nova sigla de Beppe Grillo, criada em 2009, com um discurso violento contra a corrupção e promessas de idoneidade e transparência, também arrebataram as prefeituras de Mira, Comacchio e Sarego.

Segundo pesquisas, se as eleições legislativas ocorressem agora, 5 Stelle teria 18% dos votos, ocupando o segundo lugar no ranking dos partidos mais votados.

Não é difícil entender o sucesso e a façanha política de Beppe Grillo quando se analisa sua trajetória. Com grande experiência no teatro, cinema e televisão, sempre engajado politicamente, Grillo, um adepto ferrenho das redes sociais, criou em 2000 o seu próprio blog e começou, com seu estilo implacável e divertido, a denunciar a corrupção e a criticar os privilégios da classe política de forma sistemática. Berlusconi pode tranquilamente debitar parte do seu fracasso na conta de Grillo. Não há como não soltar boas risadas com suas sacadas bem-humoradas. Mario Monti, o atual mão de ferro da política italiana, é “Rigor Montis”, e o presidente Giorgio Napolitano, com seus bem vividos 87 anos, é o “cadáver”.

5 Stelle é uma cria do blog de Grillo que, num curto período de existência, já era um sucesso na Itália e hoje, segundo a revista “Forbes”, é o sétimo mais influente do mundo. A maioria de seus simpatizantes é jovem, e muitos dos profissionais liberais autônomos que se engajaram no movimento 5 Stelle participam ativamente dos debates do blog e dos duzentos grupos de encontro criados para pensar em propostas de governo. Ninguém tem experiência política, e qualquer um que se comprometa com a plataforma do partido que só permite uma reeleição pode se candidatar.

As conquistas objetivas por enquanto são poucas, mas uma delas – a revogação da lei Lodo Alfano, que previa a imunidade parlamentar para as quatro maiores autoridades políticas e italianas – ajudou a enterrar Berlusconi. Outra vitória – a que acabou com o obstáculo para o desenvolvimento da rede Wi-Fi na Itália – promete mais poder de fogo para 5 Stelle, que tem na internet uma poderosa ferramenta.

Grillo gosta de polêmicas. Defende uma democracia “horizontal” e autorreguladora, e está fortemente engajado numa cruzada contra a ditadura do mercado bancário. Propõe a criação de uma zona euro mais fraca, num consórcio que reuniria Espanha, Grécia e Portugal. A oposição assiste ao seu crescimento atônita, e só consegue chamá-lo de “palhaço”, o que, para um comediante profissional e respeitado, não é um insulto. “Eles ainda não perceberam que se trata de uma revolução cultural e não política”, rebate Grillo.

Num momento em que vemos com apreensão o nascimento de partidos extremistas na Alemanha, França e Grécia, 5 Stelle chama a atenção exatamente pelo seu apelo democrático. É cedo para dizer no que isso pode resultar. Uma coisa é certa: Beppe Grillo já está pensando no Parlamento em 2013. E aos que o chamam de palhaço ele manda seu recado: “Os políticos não podem ir de férias para as ilhas Seicheles e depois mandar fotos em que brindam numa festa. Antes de irem, devem devolver o dinheiro que roubaram, pagar alguns juros e ser julgados por um júri popular composto por cidadãos escolhidos ao acaso, sem cadastro, que decidirão que tipo de trabalho comunitário os políticos devem fazer.” A ideia é realmente muito boa. Bem que o Brasil podia adotá-la imediatamente. Isso, por ora, lavaria nossa alma. 


Mais posts

Ver mais

Copyright © 2017 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.