Brasil

Obras do mestre seguem em UBERABA

Na cidade onde o médium viveu, amigos mantêm as obras sociais, mas políticos e celebridades desapareceram

Faltam cinco minutos para as 18h quando os 15 voluntários ocupam, um a um, os bancos paralelos à extensa mesa azul. Voz baixa e semblante franzido, Eurípedes Higino dos Reis, filho adotivo de Francisco Cândido Xavier, puxa o Pai nosso – é seguido em coro por aqueles que ajudam a preparar e servir o jantar. Do lado de fora do refeitório, 300 pessoas aguardam o momento em que serão autorizadas a entrar e ocupar seus lugares. A algazarra das crianças, um terço dos presentes e com prioridade na entrada (80 pessoas são servidas por vez), contrasta com o olhar faminto dos mais velhos. Os primeiros chegaram pouco antes das 14h e formaram a fila debaixo de sol e temperatura próxima dos 30 graus. Às 19h30, quando os portões forem fechados, os termômetros marcarão dez graus a menos e quase 500 pratos terão sido distribuídos. “Chico Xavier foi a própria personificação da fome zero, não por questões políticas ou para angariar votos, mas pelo coração”, diz Eurípedes, 57 anos. “Como ser humano, Chico estava muito além do médium.”

Cinco anos depois da morte do maior líder espírita do País, os trabalhos sociais iniciados por ele são levados adiante em Uberaba (MG) pelos amigos e seguidores mais próximos em vida. Como no título de uma de suas mais famosas obras infantis, O espetáculo continua. “Antes de partir, ele pediu para que não deixássemos as obras pararem”, conta Kátia Maria, 43 anos, criada por Chico e nos braços de quem o médium faleceu no início da noite de 30 de junho de 2002. A refeição semanal, que começou com uma modesta e disputada sopa e há 13 anos virou um verdadeiro jantar, no qual são consumidos 50 quilos de arroz, é oferecida todas as quintas-feiras no novo refeitório, ampliado e reinaugurado há dois anos. Os adultos ainda levam para casa dois litros de leite e um sanduíche de presunto; as crianças ganham doces e um pão de rosca. A cada 15 dias, aos sábados, uma média de 500 cestas básicas, que incluem um frango e leite, são distribuídas. Grávidas no final da gestação recebem enxoval gratuitamente. Há também assistência médica e odontológica em consultórios montados dentro do centro.

Responsável pelo Grupo Espírita da Prece de Chico Xavier, Eurípedes diz que todo o trabalho é financiado por doações, a grande maioria delas feita pelo grupo gaúcho Vipal. O presidente das empresas, Arlindo Paludo, decidiu começar com as colaborações regulares dois meses após a morte do médium. “Arlindo disse que Chico pediu a ajuda dele em um sonho.” Os principais beneficiados são os moradores dos bairros mais pobres da região. Voluntário desde a primeira sopa servida por Chico Xavier, Pedro Garcia afirma que “90% das pessoas que aparecem para jantar são sempre as mesmas, todas as quintas-feiras”. Gente como a dona-de-casa Rita de Cássia Rodrigues de Paula, 37 anos, freqüentadora do refeitório há 18. Levada pela primeira vez por uma irmã mais velha, ela agora tem como companhia os filhos Meire, 17, Marília, 13, e Mairon, 3. Os três vão aos jantares desde que eram bebês de colo. “Na época da sopa vinha até mais gente, mas agora tem mais comida”, diz Rita, ao saber – e aprovar – o cardápio do dia: arroz, feijão, salada de repolho com cenoura e tomate e mandioca com carne.

Ao contrário dos fiéis carentes, as celebridades sumiram de Uberaba. Se no auge da popularidade de Chico Xavier a cidade recebia regularmente artistas como os cantores Roberto Carlos e Fabio Jr. e o apresentador Gugu Liberato – até o ex-presidente Fernando Collor de Mello fez duas visitas, acompanhado de sua então esposa, Rosane –, desde a morte do médium nenhum deles aparece por lá. A antiga residência, onde funciona também uma livraria espírita, foi transformada em museu, que guarda relíquias como a coleção de boinas, acessório indispensável para Chico. Aos sábados, na sede do Grupo Espírita da Prece, acontecem os trabalhos de passe, oração e estudos da doutrina. Não há mais sessões de psicografia, e o movimento de pessoas vindas de outros Estados e países diminuiu consideravelmente. O médium atendia 1.500 pessoas por final de semana; hoje, no máximo, 500 fiéis freqüentam o centro. Para os moradores da cidade, porém, a imagem de seu mais ilustre morador continua forte como nunca. Como define a melhor amiga, Kátia Maria: “Para a gente daqui, Chico é um pai. Uma fé. Um amor.”

HOMENAGEM A CHICO XAVIER
Está prevista para começar até o final deste ano a construção do Memorial Chico Xavier, em Uberaba. O projeto tem como principais objetivos reunir todo o acervo literário e fotográfico do médium e dar um novo impulso ao turismo religioso na cidade, que já foi considerada a capital do espiritismo. “Uberaba voltará a ter um intenso intercâmbio com o movimento espírita tão logo o memorial fique pronto”, diz Mário Raton, assessor da prefeitura. Orçado em R$ 5 milhões, o espaço reunirá biblioteca, auditório e uma galeria de exposição permanente.