Brasil

O espiritismo cinco anos depois da morte de CHICO XAVIER

DIVISOR DE ÁGUAS O mineiro Chico Xavier foi fundamental para a difusão do espiritismo pela via literária - foram 418 obras psicografadas - e pelo atendimento mediúnico

Faz cinco anos que Chico Xavier morreu. Estava com 92 anos e faleceu em um domingo, horas depois de o Brasil ter conquistado a Copa do Mundo do Japão. Em meio à festa pelo título, o País rendeu tributo ao seu mais famoso médium. Entre as 100 mil pessoas que compareceram ao velório, estavam personalidades da tevê, da música e da política. Até hoje nenhum nome do espiritismo alcançou o mesmo status do atingido por Francisco Cândido Xavier. Nem poderia. Os líderes da religião são unânimes em afirmar: ele é insubstituível. Apesar disso, um médium de Brasília, Ariston Teles, diz incorporá- lo, algo contestado por um grupo de pessoas próximas a Chico Xavier, entre elas seu filho adotivo, Eurípedes dos Reis. Alegam não ter encontrado em Teles o conjunto de sinais secretos que o médium mineiro teria transmitido para que um dia pudesse ser reconhecido no pós-morte.

A polêmica não causa arranhões à doutrina. O que se poderia imaginar é que a religião sofreria um baque sem a presença de seu maior ícone. Mas não é isso que se vê. O espiritismo está ganhando seguidores. A Federação Espírita Brasileira (FEB) lembra que o último censo do IBGE, de 2000, apontava 2,3 milhões de seguidores da religião. Para a entidade, atualmente o grupo ultrapassa os três milhões. Isso entre os que se declaram espíritas. Quando se trata de simpatizantes, o número é dez vezes maior. São 30 milhões de homens e mulheres que buscam os centros espíritas. “Muitas pessoas vão atrás de cartas espirituais, mesmo sem se converter. E procuram as casas mais de uma vez, criando um sistema de comunicação regular”, conta a antropóloga Sandra Stoll, professora da Universidade Federal do Paraná e autora do livro Espiritismo à brasileira.

De acordo com Sandra, Chico Xavier foi fundamental para a difusão do espiritismo pela via literária – foram 418 obras psicografadas – e pelo atendimento mediúnico, que foi mostrado pela tevê nos anos 70, transformando-o em um fenômeno de popularidade. Além disso, ele conquistou o respeito de praticantes de outras religiões, como os católicos. Ter atingido tal patamar de aceitação contribuiu para chamar a atenção para as manifestações espirituais e para os princípios da doutrina. Esse poder permanece vivo. “Possuímos os direitos de publicação dos clássicos de Chico Xavier. Tem surgido um grande interesse por esses livros”, diz César Perri, diretor da FEB.

Antes esses livros estavam restritos às livrarias espíritas, porém não é mais assim. Eles estão disponíveis em balcões comuns, com acesso a todos que queiram saber mais sobre o médium ou sobre a religião. E nessa área, a literária, a doutrina vai muito bem. “De cinco anos para cá houve um crescimento grande de publicações espíritas. Diferentemente do mercado tradicional, que lança livros com tiragem inicial de três mil exemplares, os espíritas já saem com no mínimo cinco mil”, afirma Júlio César da Cruz, diretor da distribuidora Catavento. Nesse setor, Chico Xavier é hors concours, mas pode ser considerado pop em outros campos. No ano passado, saíram em DVD suas famosas entrevistas ao programa Pinga-fogo, da extinta Tupi. As cenas já invadiram o YouTube. Recentemente, a atriz Glória Pires declarou ser simpatizante do espiritismo – além de devota de Nossa Senhora –, revelando que tem mensagens do médium em seu iPod. E, em 2008, a vida de Chico Xavier será retratada em filme dirigido por Daniel Filho.

NOVOS LÍDERES
Tudo isso mostra que Chico Xavier ainda é um forte referencial no espiritismo. Os dirigentes espíritas chegam a qualificá-lo como um divisor de águas. “Não é sem razão que afirmamos existir um movimento espírita antes e depois dele”, salienta Marlene Nobre, presidente da Associação Médica Espírita, uma das lideranças da doutrina no Brasil. A entidade defende que a medicina deve cuidar também do espírito. Por sinal, o que se nota no processo de expansão da doutrina é que as pessoas têm procurado os centros pela cura espiritual ou porque desejam respostas para os conflitos dos dias atuais. Isso não quer dizer que a mediunidade tenha perdido seu atrativo – ainda há intensa procura pelo contato com o além. Mas as necessidades cotidianas, segundo os espíritas, levam muita gente a se aprofundar em seus preceitos. “Ante a situação atual, o povo procura mais a espiritualidade. Há muita insegurança, morte e frustração e as pessoas precisam de respaldo”, diz o médium Raul Teixeira, do Rio de Janeiro. Com 40 anos de pregação, Teixeira é hoje um dos nomes mais respeitados no espiritismo. Ele percorreu mais de 40 países fazendo conferências com ensinamentos da religião. “Prego quase todos os dias. Quando não viajo, tenho atividades na Sociedade Espírita Fraternidade e no Remanso Fraterno, obra social que atende 300 crianças”, explica.

As conferências se tornaram uma importante ferramenta da expansão espírita. O médium baiano Divaldo Franco, 80 anos, cerca de 200 livros publicados, é o mais notório representante vivo da religião no mundo. De janeiro a agosto, ele esteve em 128 palestras, sem contar Salvador, onde vive. Já foi à Índia, China e Turquia. “Em um ano, fico fora cerca de 220 dias.” Apenas uma vez fez sua apresentação em inglês, idioma que não domina. Franco tem auxílio espiritual nas palestras. Suas palavras oferecem conforto e explicações para o caos do mundo. “Estamos em um momento no qual espíritos muito primitivos estão reencarnando”, diz. Essas presenças, marcadas pela violência, nos chocam, mas, segundo ele, esta é a chance para que eles possam evoluir. Para ajudar este período a passar, é preciso recorrer ao caminho da educação e ao combate à miséria. “Mas esta fase de primarismo é transitória”, avisa. É o que desejam todos, espíritas ou não.