Comportamento

O desafio da Rocinha

Por que ocupar a maior e mais rica favela do Rio, no coração da zona sul, é um divisor de águas para o governo fluminense

O desafio da Rocinha

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PRISÃO
O traficante Nem, bandido mais procurado do Rio, é levado
pela polícia: caminho aberto para a ocupação da Rocinha

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Nenhuma favela simboliza tão bem o drama que o Rio de Janeiro viveu nas últimas décadas como a Rocinha. Com casas e casebres esparramados por morros encostados em bairros chiques, como São Conrado e Gávea, era o local onde traficantes hiperarmados se acostumaram a oprimir a comunidade enquanto arrecadavam milhões com a venda varejista de drogas para a elite carioca instalada em luxuosos prédios à beira-mar, com atendimento delivery também para os consumidores endinheirados dos vizinhos bairros do Leblon, Ipanema e Barra da Tijuca. O faturamento do tráfico atingia estratosféricos R$ 100 milhões anuais. Apontada como a maior favela do Rio (leia quadro), é tida como o principal feudo do tráfico no Estado.  É justamente esse importante território que agora o governo fluminense tenta reintegrar ao mapa da legalidade. Bastou a Secretaria de Segurança anunciar que a ocupação da favela para instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ocorreria em breve e empreender as primeiras operações policiais para que os chefões do tráfico tentassem fugir. Alguns conseguiram, mas o líder, Antonio Bonfim Lopes, o Nem, foi preso, na noite da quarta-feira 9, assim como seus principais comparsas. Era o prenúncio de que a ocupação da comunidade pelas autoridades, prevista para ocorrer a partir do sábado, seria menos problemática do que se esperava. Estava aberto o caminho para a instalação da 19ª UPP, que engloba também a favela do Vidigal, praticamente uma extensão da Rocinha.

Os especialistas concordam que a ocupação da Rocinha tem uma grande simbologia. “É um marco importante”, avalia o cientista social Paulo Storani, ex-oficial do Batalhão de Operações da PM do Rio, o Bope. Ele acha necessário, porém, algo além da ação policial. “A ocupação reprime a criminalidade, mas não detém a motivação dos crimes, que é a desigualdade. Temos de ter uma ocupação social também.” Coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, a cientista social Silvia Ramos considera fundamental essa retomada. “A Rocinha  abastece com cocaína a classe média carioca desde a década de 1980. É a favela mais rica do Rio e onde era mais visível a convivência entre a elite carioca e os favelados, muitos deles garotos com fuzil”, diz ela.

Às vésperas da ocupação que fincará os pilares da UPP, a reportagem de ISTOÉ esteve na Rocinha e constatou que os moradores aparentavam tranquilidade. O comércio funcionava normalmente, crianças brincavam nas poucas pracinhas que existem no local e foi mantido o tradicional futebol de fim de tarde na quadra do Largo do Boiadeiro, o point mais famoso da favela. Não fossem as duas escolas e a creche municipal fechadas por determinação da Secretaria Municipal de Educação desde a quinta-feira 10, a rotina do lugar não teria sido alterada. O clima era de otimismo. “Acho que não vai ter confronto, os bandidos foram embora e está cheio de polícia aqui dentro”, contou um comerciante que vive na comunidade há 25 anos e, a exemplo de todos, não quer ser identificado. O temor dos moradores é apenas um: o comportamento da polícia após a ocupação. “A gente viu como eles (policiais) invadiram casas e maltrataram moradores de outras comunidades que ganharam a UPP”, disse uma diarista que mora há 35 anos na localidade, referindo-se a episódios ocorridos em outras favelas ocupadas. Já os moradores dos bairros nobres colados à Rocinha estavam muito preocupados e planejando viajar no fim de semana da ocupação.  “Vou ficar em Petrópolis, espero que, quando eu voltar, tudo esteja mais tranquilo”, disse a designer Maria das Graças Vieira, que mora na Gávea.

Quando Nem, o bandido mais procurado do Estado, entrou, enfim, num camburão, caiu com ele o último reduto do tráfico de drogas da zona sul carioca. Ao ser capturado, Nem teria repassado a ordem para que seu bando não enfrentasse a polícia. O bandido foi flagrado pela PM no porta-malas de um carro e reagiu com sua mais poderosa arma, o dinheiro. Soldados da PM disseram ter recebido proposta de suborno de R$ 1 milhão.  Eles não aceitaram. Infelizmente, a captura de outros cinco bandidos do bando de Nem revelou o outro lado da corporação. Eles tentavam fugir escoltados por policiais, que, agora, também estão atrás das grades. Esses agentes mantinham uma antiga parceria com os traficantes da Rocinha. Em depoimento prestado no dia seguinte à prisão, Nem confessou que metade de seu faturamento era repassado a policiais que o extorquiam  para mantê-lo em liberdade . De Berlim, na Alemanha, onde estava em viagem, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que confia em seus subordinados. “Os bons policiais são a maioria, deixam o sangue na farda e agora estão muito felizes”, destacou.

O homem, que por seis anos dominou o comércio de drogas na Rocinha e impôs o terror sobre a população local, vivia num luxuoso casarão de três andares, oposto à pobreza dos casebres locais. Divertia-se em passeios de iate, de helicóptero e nos ensaios da escola de samba Acadêmicos da Rocinha. Naquela quadra, na noite do domingo 6, Nem fez sua festa de despedida. Bebeu e usou tantas drogas que teve de ser atendido no posto de saúde local. Ao sair, o traficante imaginava que iria manter sua mordomia em algum esconderijo. O desfecho da história foi bem diferente do que ele planejou.

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