Comportamento

São Paulo ocupada

Repórter fica 24 horas com manifestantes, que passam o dia entre reuniões, rodas de violão e confecções de cartazes

São Paulo ocupada

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RESISTÊNCIA
Há um mês estudantes de classe média dividem espaço com moradores de rua no Vale do Anhangabaú

À primeira impressão, parece que há algo deslocado. Quando a vista cruza o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em vez do corre-corre usual de pedestres apressados, há uma centena de barracas espalhadas sob o Viaduto do Chá. Umas são de grife; outras, improvisadas com lonas e pedaços de pau. No centro da formação, engradados de madeira servem de estante para utensílios de cozinha e fazem companhia a um velho fogão industrial. Ali pode ser vista uma movimentação constante de pessoas cortando e cozinhando alimentos para garantir as três refeições diárias dos acampados. Para ter comida, é preciso contar com a boa vontade de um feirante ou outro doador qualquer. Banheiro disponível só há um, construído sobre uma boca de lobo protegida por alguns tapumes. Chuveiro não tem.
Se de longe é possível perceber a precariedade, de perto causa espanto observar quem são os habitantes de camping tão inusitado. Debaixo do viaduto há um mês, convivem universitários que frequentaram as melhores escolas particulares de São Paulo e moradores de rua que nem sequer completaram o ensino fundamental. Eles almoçam juntos, ouvem a mesma música – tocada nas caixas de som instaladas no centro da ocupação –, dividem o microfone nas assembleias e se revezam à noite para garantir a segurança do espaço, no movimento batizado Ocupa São Paulo.

“Por que você está aqui?”, pergunto a Mariana, 30 anos, estudante de biologia, moradora da Vila Madalena, bairro de classe média, epicentro do que há de mais moderno em São Paulo. “Porque acredito que este é um momento importante de mudança”, responde, pedindo para não divulgar o sobrenome. Para estar ali, ela trancou o curso universitário e largou o emprego de professora na rede pública. “Como está se mantendo?”, questiono. “Não tenho pago nem o ônibus que pego quando vou visitar minha mãe”, diz. A gratuidade é obtida por meio do diálogo com os motoristas. “Vários entendem e apoiam”, garante.

Como tantos outros acampados, muitos deles universitários de classe média como ela, Mariana está experimentando uma vida bem diferente daquela à qual está acostumada. Uma realidade quase franciscana. Os recursos para manter o acampamento são poucos, vêm dos próprios ou de doações – não há financiamento por parte de nenhuma organização. “Até quando isso vai durar?”, questiono. Mariana sorri, balança os ombros e responde: “Olha, eu consigo imaginar a gente plantando alimentos aqui nos canteiros do Anhangabaú.”

Os paulistanos não estão sozinhos. O gatilho para esse movimento foi 15 de maio, quando os jovens espanhóis ocuparam a Puerta del Sol, praça central de Madri. Depois veio Wall Street, em Nova York, centro financeiro americano, em 17 de setembro. E, finalmente, no dia 15 de outubro, uma convocação internacional feita por meio de redes sociais espalhou o vírus dos acampamentos pelo globo. Eles estão por todas as partes: em Londres (ING), Paris (FRA), Boston e Chicago (EUA), em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Campinas, em Salvador.

“Vim para cá porque vi na internet que tinha um movimento igual ao de Wall Street no centro de São Paulo”, justifica um garoto pequeno, de voz baixa, chamado William. Ele mora no Campo Limpo, subúrbio paulistano, e mente ser maior de idade para não ter de voltar para a casa. Se comparados o tamanho e a repercussão das ocupações do Anhangabaú e de Nova York, a versão brasileira tem metade do número de barracas da irmã americana. E não consegue reunir tanta gente em suas convocações. É, porém, bem mais recente e possui a desvantagem de ter de angariar adeptos em um país onde a população ainda se sente confortável diante da crise mundial. Tornar-se tão grande quanto as ocupações de Wall Street e de Madri, entretanto, é um sonho comum entre os acampados. “Um dia esse vale vai estar repleto de barracas”, sonha Mariana.

A efervescência mundial lembra 1968, quando vários movimentos sociais de contestação política aconteceram, paralelamente, em diversos países. E algumas cenas também parecem remeter a 40 anos atrás. Basta se voltar para o Vale do Anhangabaú durante a tarde ensolarada de primavera para perceber a profusão de casais deitados na grama e as animadas rodas de violão tocando Raul Seixas. Em diversas partes do acampamento, há a produção ininterrupta de cartazes de protesto. Tudo isso pode passar a impressão de que eles ainda “são os mesmos e vivem como seus pais”. É diferente, porém, ocupar a rua em pleno século XXI. Em especial porque, cada vez mais, a praça pública representa insegurança e violência, sobretudo nos grandes centros urbanos.

Quando se dorme e se acorda nas barracas, fica evidente essa fragilidade. O acampamento demora a dormir. O sopão noturno só fica pronto para ser servido às duas da manhã e a movimentação vai até a alta madrugada. Quando o burburinho dos acampados cessa, sobressaem os conflitos da rua. Quase seis da manhã e dois bêbados começam a discutir bem próximo aos abrigos. Alguém pede silêncio. Não adianta. Outro grita, de dentro da tenda de lona, para todos calarem a boca. Mais um se incomoda, grita também. Logo há um bate-boca sem rosto comandado de dentro das barracas. Quando a confusão para, vem o barulho dos carros, dos ônibus, da polícia e o sol, que invade os abrigos com claridade e calor.

“Dormir aqui é impossível”, fala Duda Lang, 23 anos. O período mais tenso, conta, foi a primeira semana, quando, impedidos pela polícia de levantar abrigo, os manifestantes dormiram na rua, uns sobre os outros, em sacos de dormir. Quando puderam armar o camping, foram descobrindo que os problemas de se estar ao relento vão muito além da repressão policial. “Sempre tem algumas crianças cheirando cola por aqui”, diz Duda, que não tem frequentado o curso de publicidade para colaborar com a ocupação. Ao se deparar com esses obstáculos, os acampados têm pela frente o desafio de resolvê-los. No caso das crianças de rua, foi chamada uma ONG para orientar sobre como lidar com os meninos, em especial quando eles estiverem drogados. As crianças ainda passam o dia a rondar o camping e não largaram o vício, mas já aparecem, vez ou outra, brincado com pincéis e ajudando a fazer cartazes. Não é a revolução, mas é um bom começo.

O acampamento demora a dormir. O sopão só é servido às duas da manhã
e as conversas dos manifestantes se misturam com as brigas de rua

Leia na íntegra a entrevista com Vanessa Zetler, brasileira que vive nos Estados Unidos e se tornou uma das vozes públicas dos manifestantes acampados em Wall Street desde 17 de setembro