Artes Visuais

Pintor de retículas

Masp expõe obra gráfica completa do alemão Sigmar Polke, artista que foi ao mesmo tempo crítico do socialismo e do capitalismo

Pintor de retículas

Sigmar Polke – Realismo Capitalista e Outras Histórias Ilustradas/ Museu de Arte de São Paulo (Masp), SP/ até 29/1/12

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CONTEMPLAÇÃO
O capitalismo está nas entrelinhas da gravura “Comparação de preço”

Em 1963, auge da Guerra Fria, o jovem estudante da Academia de Artes de Düsseldorf Sigmar Polke organiza, juntamente com os colegas de classe Gerhard Richter e Konrad Fischer, uma performance intitulada “Realismo Capitalista”. Algumas décadas depois, Fischer seria considerado um dos mais inovadores e influentes marchands de sua geração, e Richter e Polke seriam dois dos mais importantes nomes da arte alemã. Até sua morte, em 2006, Polke desdobraria e renovaria os sentidos da performance realizada aos 20 anos. “Sigmar Polke – Realismo Capitalista e Outra Histórias Ilustradas”, no Masp, mostra os frutos que essa ideia rendeu em 35 anos de obras gráficas.

Polke nasceu em 1941 em Oels, na Silésia, região incorporada à Alemanha Oriental em 1949, e aos 12 anos mudou-se com a família para a então Alemanha Ocidental. Sua vivência dos dois regimes lhe deu autoridade para inventar o realismo capitalista, em sátira ao realismo socialista (doutrina estética oficial da antiga União Soviética) e como crítica a uma arte ocidental marcada pela adesão aos valores do mercado. Isto é, em sua produção artística, Polke conseguiu ser simultaneamente crítico ao socialismo e ao capitalismo.

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EXCESSOS
Em gravura de Polke, sobreposição de camadas de tinta é metáfora para capitalismo

O artista é reconhecido por sua atuação na pintura – em 1975, inclusive, ganhou o prêmio de pintura na 13ª Bienal de São Paulo. Mas a presente exposição, com curadoria de Tereza Arruda, brasileira residente em Berlim, vem argumentar que sua obra gráfica é tão forte e representativa de seu estilo quanto a obra pictórica. Polke foi sempre um adepto das misturas de técnicas e descobriu na gravura um meio favorável ao encontro entre o desenho, a fotografia, a pintura e até mesmo o grafite. Ao sobrepor técnicas e temáticas em várias camadas de tinta, não estaria ele, afinal, se referindo aos excessos do capitalismo?

A exposição traz ao Brasil cerca de 220 obras em diversas técnicas gráficas – off-set, silk-screen, litografia, impressão digital –, além da série original e inédita de desenhos e colagens “Day by Day”, seu diário durante a estadia em São Paulo, durante a 13ª Bienal.

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