Cultura

Dona Ruth de A a Z

Livro reúne textos inéditos e raros de Ruth Cardoso e mostra minuciosamente como ela ajudou a criar a antropologia urbana no Brasil

Dona Ruth de A a Z

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OBRA REUNIDA
Artigos perdidos e anotações de aula: material inédito

É impossível pensar o estudo das ciências sociais sem lembrar da antropóloga Ruth Cardoso, falecida em 2008 aos 77 anos. Sua extensa produção intelectual foi marcada por uma atitude sempre crítica: a ex-primeira-dama do Brasil nunca aceitou nenhum fato sem antes questioná-lo. Como poucos, se dedicou com afinco ao detalhamento e aprofundamento do que, para muitos, seria tomado como fato dado. O pensamento de Ruth, definitivamente, não era o pensamento da maioria.

Apesar da dedicação aos estudos antropológicos, muitos de seus artigos e anotações estavam perdidos, seja em ensaios publicados em edições de revistas antigas, como as revistas “Opinião” e “Argumento”, famosas pelo pensamento politizado nos anos 70, seja em antigos cadernos de quando lecionava ciências sociais na Universidade de São Paulo. Durante todo esse tempo, o material permaneceu inédito. Pensando nisso, a professora da cadeira de city and regional planning da Universidade da Califórnia, Berkeley, Teresa Pires do Rio Caldeira dedicou os últimos dois anos preparando a compilação “Ruth Cardoso: Obra Reunida” (Mameluco), que acaba de chegar ao Brasil. Considerando que a professora teve acesso irrestrito ao acervo pessoal de Ruth, acredita-se que ali estejam todos os textos acadêmicos escritos por ela ao longo de sua carreira.

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“Várias pessoas que trabalharam com a Ruth tinham a mesma sensação de que a sua contribuição acadêmica estava sendo eclipsada por toda atenção que os outros aspectos de sua vida estavam recebendo”, diz Teresa, que considera Ruth a fundadora da antropologia urbana no Brasil ao lado da colega Eunice Durham – coautora de alguns textos presentes no livro, como “Elaboração Cultural e Participação Social nas Populações de Baixa Renda”, escrito em 1977.

A questão da urbanização e a incorporação desigual de grupos sociais na cidade foram assuntos aos quais Ruth Cardoso dedicou boa parte de seus estudos, tanto quanto a democratização e os direitos das mulheres. “Ela ficou interessada nos movimentos sociais desde quando começaram a aparecer, em 1968. Ela estava acompanhando esses movimentos serem articulados em outros lugares e se mantinha superantenada para quando eles começassem a aparecer no Brasil”, analisa Teresa. “Ruth estava indo atrás de novas formas de organização e apostando que dali viria a nova forma de democratização. A atuação dela era para a política das mulheres, através do feminismo. Ela criava espaços para as mulheres, como o Conselho Estadual da Condição Feminina”, diz.

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Amostra valiosa desses estudos, o quinto capítulo da obra, denominado Movimentos Sociais, Estado e Democracia, mostra que, já no início dos anos 80, Ruth tinha clara articulação ao demonstrar que os movimentos sociais urbanos mudavam não apenas o caráter da sociedade civil, mas existiam em relação a um Estado que também se transformava para incorporar a participação desses movimentos e dos representantes da sociedade civil como parte de sua rotina.

“O volume revela o trabalho intelectual de Ruth Cardoso para criar no Brasil uma antropologia não apenas em total sintonia com tudo que se produzia internacionalmente, mas também capaz de investigar e explicar os processos de transformação por que passava a sociedade brasileira na segunda metade do século XX”, diz Teresa, amiga pessoal e que trabalhou diretamente com ela por 20 anos.

 

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Os cadernos de anotação usados em aula por Ruth, até então inéditos, agregam ainda mais valor ao livro. “Ela era uma fantástica professora e preparava seus cursos meticulosamente. Para cada aula tinha notas detalhadas”, diz a autora. Entre os cursos há um sobre seu colega de profissão Claude Lévi-Strauss. “Para cada classe ela tinha novas anotações, algumas vezes retomando as antigas, outras vezes explorando um novo texto.  Essas eram notas para guiar suas aulas, nas quais ela partia das notas e seguia os caminhos da argumentação oral e do diálogo com os alunos.” Interessante perceber a complexidade de suas anotações, já que Ruth era conhecida por ser uma talentosa improvisadora. “Ela argumentava brilhantemente”, diz Teresa, que destaca também as anotações sobre livros que ela estava lendo e observações sobre o andamento de suas pesquisas.

Ao compilar décadas de estudo e dedicação, “Obra Reunida” revela ao leitor as transformações no pensamento de Ruth Cardoso ao longo dos anos e permite que se veja como o pensamento dela vai se moldando, que direções foram escolhidas pela autora em seus estudos. “Quando você lê tudo, alguns fatores ficam bem claros: a atitude moderna, o jeito de ser crítico e tomar tudo como objeto de pensamento e reflexão. Ruth não conseguia ser dogmática com teorias. Se pegava uma coisa para ler, imediatamente criava uma distância, uma crítica, colocava em comparação com algo. Seu pensamento estava sempre em movimento”, conclui Teresa.