Comportamento

Arte chinesa nas alturas

Enriquecidos pelo capitalismo, os chineses gastam como nunca com seus conterrâneos e preços rivalizam com mestres americanos e europeus

Arte chinesa nas alturas

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CIFRÕES
Leilão no mês passado na Sotheby’s: vendas de arte chinesa batem recordes

Foi um dia histórico para a casa de leilões inglesa Sotheby’s, uma das mais tradicionais do mundo. Até 3 de abril deste ano, nenhuma coleção de arte contemporânea chinesa havia arrecadado tanto. Dos 105 lotes em exposição naquele dia, os leiloeiros esperavam levantar, no máximo, US$ 16,7 milhões. Eles conseguiram US$ 54,7 milhões. No mês passado, em leilão de arte tradicional chinesa, o fenômeno se repetiu. Um vaso de porcelana da dinastia Ming (1368 d.C.-1644 d.C.) estimado em US$ 10,3 milhões foi arrematado pelo dobro, US$ 21,6 milhões. Em ambos os casos, os maiores compradores foram os próprios chineses. Isso não só na Sotheby’s. Um levantamento da Christie’s, outra renomada casa de leilões inglesa, registrou aumento de 250% na participação dos chineses nas compras entre 2005 e 2010. “Eles já inflacionaram o mercado de vinhos e de joias finas”, explica Thiago Gomide, diretor e avaliador da Bolsa de Arte em São Paulo. “Agora, com o interesse pela arte do próprio país renovado, eles inflacionam a produção contemporânea e antiga.”

A voracidade dos chineses pelas obras parece não ter limite. Colecionadores europeus e americanos que juntaram telas, porcelanas, esculturas e mobiliário chinês, principalmente nos anos 1980, perceberam o movimento e têm derramado peças no mercado. Mas nada dá conta da demanda, impelida tanto pelo dinheiro que inunda a China quanto por uma crescente necessidade dos chineses de celebrar a história milenar do país e o sucesso atual da excêntrica mistura de capitalismo e socialismo. Nos leilões, um padrão vem sendo percebido. Os colecionadores mais novos preferem a arte contemporânea, recheada de referências à nova China e que retrata a realidade que eles vivem diariamente. “A arte que marca um momento importante na história, como este que a China vive hoje, atrai os colecionadores”, explica Katia Mindlin Leite Barbosa, representante da Sotheby’s no Brasil. Os mais velhos até se aventuram com uma ou outra peça contemporânea, mas, de maneira geral, preferem a arte mais tradicional, como a rica produção de porcelanas das inúmeras dinastias chinesas, além de peças de bronze e jade, uma pedra ornamental. Em síntese, todo mundo compra. E compra muito. Como resultado, a arrecadação com os leilões regionais bate recorde após recorde.

Não é à toa que a Art Basel, uma das mais importantes feiras de artes do mundo, fundada na Suíça e até recentemente com apenas uma filial, em Miami, fincou bandeira em Hong Kong em maio deste ano e planeja uma exposição local para 2012. “Enquanto a economia deles estiver bombando, a demanda continuará firme”, garante Gomide, que descarta a possibilidade de uma bolha especulativa. Até porque a produção artística do país, principalmente a contemporânea, tem repercutido bem ao passar por nobres espaços de exposição como o Centre Pompidou, na França, a Tate Modern, na Inglaterra, e o Museum of Modern Art, nos Estados Unidos. Para os especialistas, não demorará para que produções como as de Ai Weiwei, eleito esta semana o artista mais poderoso de 2011 pela revista inglesa “ArtReview”, e outros protagonistas contemporâneos da arte chinesa como Zhang Xiaogang rivalizem, pelo menos em preço, com mestres da arrecadação, como Pablo Picasso e Vincent Van Gogh.

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