Brasil

Dilma e as greves

Diante das paralisações e da pressão dos sindicatos por aumentos, a presidente diz não aos trabalhadores e escala ministros para negociar com cada categoria. A estratégia é dura, mas não compromete a relação entre o governo e as centrais

Dilma e as greves

chamada.jpg
RECRUDESCIMENTO
Nas negociações com os sindicalistas, iniciadas na última
semana, Dilma deixou claro que não pretende fazer concessões

Como ocorre em todo o primeiro ano de governo, o movimento sindical estica a corda nas negociações por aumentos salariais com o Palácio do Planalto no período de definição dos dissídios coletivos trabalhistas. Foi assim durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, e o cenário se repete agora. Escaldada, a presidente Dilma Rousseff montou previamente uma estratégia para lidar com as exigências das categorias profissionais. O plano foi colocado em prática na semana passada, quando a presidente estava na Bélgica, participando da 5ª cúpula Brasil-União Europeia. Dilma indicou auxiliares e integrantes de primeiro escalão para negociar com cada categoria específica e em pelo menos cinco telefonemas para os subordinados em Brasília a presidente deixou clara sua posição. “Avisem que a minha orientação é a de não fazer concessões”, determinou.

Dilma decidiu jogar duro com os sindicatos por dois motivos. O primeiro é a preocupação com os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira. Outro é a consciência de que está diante de um movimento sindical dócil, domesticado por Lula nos últimos oito anos. A maioria das categorias de servidores, por exemplo, teve generosos aumentos acima da inflação. Já a cúpula sindical foi amaciada ao sabor da liberação de verbas e acomodações em cargos públicos. Hoje, não seria leviano afirmar que os sindicalistas são tão ou mais governistas que o PMDB. “Os trabalhadores têm muita gordura para queimar”, repetiu Dilma nos últimos dias. “As coisas mudaram. No governo Lula, havia muito mais espaço para negociações”, reconhece José Rivaldo da Silva, presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores de Empresas de Correios. Nessa estratégia de recrudescer o diálogo, a presidente defendeu o corte do ponto dos grevistas e o fim do diálogo com os líderes sindicais até o pronunciamento da Justiça do Trabalho. Ao pesar a mão, ela quer desencorajar demandas de outras categorias, como os petroleiros, que já aprovaram indicativo de greve para a terça-feira 18. Há grande receio com o efeito cascata que seria provocado por aumentos excessivos e seu impacto sobre a inflação.

img.jpg
NÃO LEVARAM
Grevistas dos Correios haviam pedido aumento
superior a 14%, mas só receberam um reajuste de 6,87%

As preocupações não devem se restringir apenas à economia, ensina a retrospectiva histórica. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando endureceu o discurso, pagou uma conta pesada. Em maio de 1995, os petroleiros iniciaram uma greve histórica. Mais de 90% da categoria parou por 32 dias contra a privatização da Petrobras. Após uma semana, o TST considerou a greve abusiva, mas os petroleiros não cederam. A greve foi marcada por demissões, punições e a presença de tanques do Exército nas refinarias da Petrobras. Com isso, Fernando Henrique sofreu enorme desgaste e viu chegar ao fim a lua de mel com os trabalhadores. Diferentemente de FHC, a presidente Dilma Rousseff não quer deixar que a situação chegue a esse ponto. Apesar de enfrentar um sindicalismo de espírito “paz e amor”, ela fez questão de se cercar de cuidados para que nenhum sobressalto político – ou econômico – possa vir a afetar sua popularidade. Se de um lado ela congelou no Congresso o reajuste de 57% do Judiciário e impediu os aumentos da Polícia Federal, de outro escalou quatro ministros para sentar à mesa com os grandes sindicatos.

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, ficou responsável pela greve dos Correios. Por decisão dele, os contracheques dos grevistas com os dias descontados foram divulgados na intranet da empresa. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, recebeu a incumbência de acompanhar a greve dos bancários e vetou o aumento real de 5%. A tarefa da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, é manter o cofre fechado. Ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, cabe seguir de perto os desdobramentos das negociações com os sindicatos. Mas ele não está sozinho nessa missão: é assessorado pelo experiente sindicalista José Lopez Feijóo, que trocou a vice-presidência da CUT pelo Planalto em abril. O deputado estadual Carlos Alberto Grana (PT-SP), que acumula 32 anos de sindicalismo no ABC paulista, também ajuda nos bastidores. Assim, sindicalistas e governo seguem falando a mesma língua. Um dos argumentos dos ministros à frente das negociações foi apelar à razão dos trabalhadores argumentando que uma crise econômica, caso o País não cuide de suas contas públicas, poderá ser ruim para todo mundo. “Há uma tempestade se formando no céu, não podemos sair de bermuda e camiseta. Temos que ter um guarda-chuva”, justifica o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, titular do Planejamento do governo Lula.

img1.jpg
ARTICULADOR
Ministro Gilberto Carvalho acompanha de perto negociações do governo com sindicatos

O guarda-chuva significa negociar, mas ao mesmo tempo não dar muita guarida aos grevistas na esfera pública. Tanto assim que a greve dos Correios, depois de 28 dias, foi parar no Tribunal Superior do Trabalho. O movimento esticou além da conta e, ao fim da paralisação, os carteiros ficaram felizes porque o TST descontou dos salários apenas sete dias. Os outros 21 serão pagos em horas extras. A empresa sofreu um prejuízo de R$ 200 milhões e os grevistas, que haviam pedido aumento superior a 14%, só receberam 6,87%, além de aumento geral de R$ 80. “O que nós queríamos não conseguimos. Mas demos sorte, porque o TST não aplicou a súmula vinculante. Se tivesse, teríamos perdido muito”, diz o sindicalista José Rivaldo.

Com os limites de negociação estreitos, os sindicalistas se movem como podem. Na semana passada, quando os bancários entravam na terceira semana de greve sem que a Federação Nacional dos Bancos se manifestasse sobre um acordo, o presidente da CUT, Artur Henrique, passou dois dias tentando convencer o ministro Guido Mantega a pressionar os bancos públicos a abrir o diálogo com os trabalhadores. O meio de campo foi feito. Na véspera de embarcar para a reunião do G-20 em Paris, na terça-feira 11, Mantega entrou em contato com o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine. Pediu que os grevistas fossem ouvidos, mas alertou que o reajuste de 12,8% não seria compatível com o momento econômico. Apesar do jogo duro, Dilma Rousseff tem a seu favor a simpatia irrestrita das centrais sindicais e das lideranças dos servidores públicos. Todos participaram ativamente de sua campanha e ainda estão longe de lhe retirar o voto de confiança. “O primeiro ano do governo Dilma exigiu o endurecimento, mas o ano que vem pode ser de benesses”, diz José Almiran Rodrigues, coordenador jurídico da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas. 

img2.jpg