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Entrevista

Matt Damon

“O meu Oscar está no fundo do armário”

“O meu Oscar está no fundo do armário”

O ator americano diz que seus colegas de profissão se acham mais importantes do que são e que Hollywood pode esquecê-los da noite para o dia

por Elaine Guerini, de Veneza
Edição 19.10.2011 - nº 2188

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CONSAGRADO
Damon trabalha com os melhores diretores e tem um cachê de US$ 10 milhões

O ator americano Matt Damon, 40 anos, gosta de ser, na vida real, o mesmo homem comum que interpreta na maioria de seus filmes. Casado com a argentina Luciana Barroso, que conheceu quando era uma garçonete, ele é pai de quatro meninas e faz questão de pegá-las na escola e levá-las a pé ao parque perto de sua casa, em Nova York. E ninguém o incomoda no trajeto. Essa postura faz com que se sinta imune à vida louca das celebridades e também lhe confere tranquilidade para analisar friamente a postura de seus colegas de profissão. Segundo Damon, basta fazer sucesso para um jovem ator começar a trabalhar em “filmes bobos”. E se dar mais importância do que realmente possui. Poderia ter sido assim também com ele, premiado com um Oscar de melhor roteirista aos 28 anos. Dono de um cachê de US$ 10 milhões e após trabalhar com Steven Spielberg, Martin Scorsese e Clint Eastwood, Damon estreia, no dia 28, o suspense “Contágio”, dirigido por outro mestre, Steven Soderbergh. Na entrevista a seguir, feita no Festival de Veneza, ele afirma que Hollywood é cruel e pode esquecer de um astro de um dia para o outro: “Seu telefone simplesmente para de tocar”, afirma ele. Pelo menos nesse quesito sua vida é um inferno: a caixa postal de seu celular está sempre lotada de convites para trabalho.

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"Eu já trabalhei em um filme com Angelina Jolie e vi de perto o
que ela enfrenta. Brad Pitt e Angelina juntos são pura dinamite"

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"George Clooney me disse que quem consegue
uma carreira de dez anos nesse negócio já fez algo
grandioso. Daqui para a frente, o que vier é lucro"

ISTOÉ

O sr. é pai de quatro meninas. Rodar um filme sobre uma epidemia que abala a família o deixou paranoico? 

Matt Damon

Não muito, mas lavo as mãos mais agora do que antes (risos). O fato de morarmos em Nova York já nos deixa bastante disciplinados nesse sentido. Assim que as minhas filhas chegam em casa, vão direto para a pia lavar as mãos. Mas procuro não ser um pai neurótico. Os germes são nossos amigos, nós precisamos deles (risos).
 

ISTOÉ

Ter uma mulher argentina o tornou mais próximo da cultura sul-americana? Conhece o Brasil?
 

Matt Damon

Não visitamos a Argentina tanto quanto eu gostaria. Nossa ideia sempre foi tentar passar temporadas lá com a família da minha esposa, mas faz dois anos que não viajamos. Infelizmente, nunca esticamos até o Brasil. Quem sabe o façamos depois de uma próxima viagem à Argentina. 

ISTOÉ

Não ter se casado com uma atriz, como fez Brad Pitt, o livrou do apetite da mídia e dos paparazzi?
 

Matt Damon

Eu poderia ter me envolvido com uma colega de trabalho, que é a maneira mais comum de encontrar a outra metade. Muitas coisas boas da vida dependem das nossas escolhas, mas não posso dizer que foi esse o caso quando me apaixonei por minha mulher, que é uma cidadã comum no jargão dos atores. Simplesmente me apaixonei por ela assim que a conheci em Miami (onde ela trabalhava como garçonete). Isso nos garantiu uma vida mais normal. Ou, devo dizer, menos louca.
 

ISTOÉ

Brad Pitt já reclamou disso para o sr.?
 

Matt Damon

Brad ficou perplexo ao me ouvir falar do meu cotidiano. Eu disse que, após pegar as crianças na escola, fui a pé com elas ao parque. Ele olhou para mim desconcertado e perguntou: “Está brincando comigo? Como consegue fazer isso?’’ 

ISTOÉ

Mas Pitt não tem feito nada de escandaloso?
 

Matt Damon

Não mesmo. Ele é um pai tão sem graça quanto eu. Não tem nada a oferecer para as publicações que vivem de sexo e escândalo. Ainda assim, o cara é alvo do que existe de pior nesse negócio. É um evento toda vez que o coitado resolve sair de casa.
 

ISTOÉ

Esse não é o preço que se paga por ser famoso e casado com uma mulher igualmente famosa?
 

Matt Damon

Sim. Eu já trabalhei com Angelina e vi de perto o que ela enfrenta. Era fácil saber o dia em que ela estaria filmando porque, ao chegar às seis da manhã, cerca de 40 fotógrafos já estavam de plantão na entrada do set. Tudo isso só para tirar uma foto de Angelina chegando. Brad e Angelina juntos são pura dinamite.
 

ISTOÉ

Como é a sua relação com Ben Affleck? Depois do Oscar, a sua carreira decolou, mas a dele enfrenta altos e baixos.
 

Matt Damon

Ben e eu crescemos juntos e continuamos muito próximos. O que aconteceu com ele é muito comum. Em Hollywood, um dia se está no topo e, do dia para a noite, o seu telefone simplesmente para de tocar. A sorte de Ben é que, ao ser deixado de lado, ele conseguiu produzir o próprio material e se reinventar. Como não o chamavam para nada, ele escreveu e dirigiu “Medo da Verdade’’. Aí ele voltou à cena, mas nem assim conseguiu se manter, ficando sem trabalho de novo. O jeito foi criar novamente um emprego para si mesmo, escrevendo e dirigindo “Atração Perigosa’’, no qual também atuou.
 

ISTOÉ

Por que o seu telefone nunca parou de tocar?
 

Matt Damon

Por sorte. Sempre tive ofertas e isso me possibilitou trabalhar de uma forma mais consistente. Para não parecer que não fiz nada para merecer a carreira que tenho, sempre soube que o mais importante na vida de um ator é escolher os projetos a partir do nome do diretor. Eu me cerquei de profissionais como Steven Soder­bergh, Clint Eastwood, Martin Scorsese, os irmãos Coen e Paul Greengrass, entre outros. Muitas vezes basta um ator virar um astro para ele começar a fazer filmes bobos.
 

ISTOÉ

Por que acha que isso acontece?
 

Matt Damon

Porque eles passam a se dar mais importância do que realmente têm. Se o diretor for realmente bom, há uma grande chance de o filme funcionar. Isso não quer dizer que o trabalho do ator não é importante para o resultado final. Mas a verdade é que o ator não consegue fazer milagre se o filme não tiver um bom diretor no comando. Um cineasta medíocre é capaz de arruinar uma grande performance.
 

ISTOÉ

É verdade que sua mãe percebeu que o sr. seria ator nos seus primeiros anos de vida?
 

Matt Damon

Sim. Minha mãe diz que percebeu a minha vocação desde os meus dois anos. Ela nunca me disse nada para não me influenciar. Mas não se preocupava quando as minhas professoras comentavam que eu só queria saber de brincar com os figurinos na área de teatro da escola. Minha mãe, que também era professora no jardim de infância, usava outras regras para mim.
 

ISTOÉ

Como assim?
 

Matt Damon

Ela fazia algumas das minhas lições de casa. Se ela achava que aquilo não seria útil para mim no futuro, me mandava brincar e cuidava de tudo sozinha. Tentava até imitar a minha caligrafia. Eu tive de mudar de escola algumas vezes quando ela não concordava com o sistema de ensino.
 

ISTOÉ

O que sente quando revê hoje imagens que mostram o sr. e Ben Affleck, tão jovens e vibrantes, recebendo o Oscar? 

Matt Damon

Às vezes parece que foi ontem. Outras vezes parece que tudo aconteceu há milhões de anos. Principalmente quando olhamos para as nossas vidas hoje, como nós estamos diferentes, casados e com filhos (­Affleck é casado com Jennifer Garner, com quem tem duas filhas). O que me deixa mais feliz é saber que eu continuo na ativa. Eu e George Clooney brincamos que nós dois já estamos na fase do bônus. 

ISTOÉ

Por quê?
 

Matt Damon

Quando George e eu trabalhamos juntos em “Onze Homens e um Segredo’’, tínhamos o hábito de conversar muito depois da filmagem. Uma noite, ele me disse: “Quem consegue uma carreira de dez anos nesse negócio já terá feito algo grandioso.” E é verdade. A indústria do cinema é muito competitiva. Mal pude acreditar quando nós completamos uma década, alguns anos atrás. Foi incrível poder telefonar para George e dizer: “E aí, cara? Nós conseguimos, não?’’ Daqui para a frente, o que vier é lucro.
 

ISTOÉ

O sr. pretende passar para a direção de filmes, como fez George Clooney?
 

Matt Damon

Sim. No momento eu estou finalizando um roteiro com John Krasinski (mais conhecido como ator da série “The Office’’). É uma história que devo dirigir e protagonizar no ano que vem. Embora não tenha escrito nada oficialmente desde “Gênio Indomável”, o meu lado mais criativo continua sendo alimentado a cada novo filme. E agora já me sinto preparado para estrear na direção. Até porque aprendi muito com todos os cineastas incríveis com quem trabalhei. Nunca perdi tempo (risos). Sempre colei nos caras e absorvi o máximo que pude. 

ISTOÉ

O que aprendeu com Steven Soderbergh durante a filmagem de “Contágio”?
 

Matt Damon

Trabalhar com Soderbergh é um eterno processo de criação. Até pouco antes de rodar a cena em que meu personagem é informado da morte da esposa, nós não sabíamos direito como fazê-la. Nas telas, já vimos de tudo quando uma pessoa recebe esse tipo de notícia. Geralmente a pessoa desmorona, o que eu não queria fazer. Até porque a morte acontece logo no início do filme e não dá para saber que tipo de relação ele tinha com a esposa. Foi aí que Steven e eu sentamos para conversar com o médico que ele havia contratado para a cena. E descobrimos que, muitas vezes, a primeira reação é a negação. O médico diz que a mulher morreu e a pessoa pergunta: Posso falar com ela?
 

ISTOÉ

O que pode adiantar sobre o seu filme?
 

Matt Damon

Quase nada. É um filme pequeno, de apenas US$ 12 milhões, ambientado em Nova York. Prefiro guardar segredo sobre a trama. 

ISTOÉ

Mais um Oscar à vista? 

Matt Damon

De jeito nenhum. Já tive sorte demais (risos). 

ISTOÉ

Onde o sr. guarda a estatueta? Tem uma sala de troféus?
 

Matt Damon

Não (risos). O meu Oscar está no fundo do armário. Como no momento estamos numa casa alugada em Nova York, não tenho onde colocá-lo. Outro dia eu o vi no meio dos sapatos (risos). 

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