Tecnologia & Meio ambiente

Os novos mascotes

Ibama estuda a liberação da venda de jibóias, jabutis e lagartos como animais de estimação

Foi-se o tempo em que cachorros, gatos e peixinhos eram os únicos animais que as crianças pediam aos pais como bichos de estimação. A regulamentação da venda de espécies bem mais incomuns, como jibóias e iguanas, está sendo avaliada pelo Ibama, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Se tudo sair como o planejado, a medida pode ser colocada em prática ainda no primeiro semestre deste ano.

A novela do comércio desses animais vem desde 1997. Sua venda chegou a ser permitida em caráter provisório, para depois ser proibida. Agora, ela deve voltar a entrar em vigor, desta vez de forma definitiva. A decisão foi aprovada pela Câmara Técnica Federal de Fauna, órgão consultivo do Ibama, e em março o governo deve fazer uma nova rodada de discussões sobre a sua liberação. Uma das maiores dúvidas em relação à medida diz respeito à fiscalização: como o próprio instituto admite, seria muito difícil fazer o controle desses animais por todo o País.

As discussões podem ser difíceis, já que a controvérsia sobre a venda de animais silvestres se complicou no final do ano passado, quando uma liminar do Ministério Público Estadual suspendeu o que seria o primeiro leilão de animais exóticos da América Latina. O evento estava marcado para o dia 23 de novembro na Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Na ocasião, seriam vendidos 143 animais, como pavões, cervos e impalas. Além do dinheiro – previa-se uma arrecadação mínima de R$ 250 mil –, o zôo alegava que estava sofrendo com a superpopulação das espécies.

O leilão, no entanto, não vingou. Ele foi suspenso sob a alegação de que qualquer pessoa física ou jurídica poderia participar e, assim, seria muito mais difícil ao governo fiscalizar esses animais. “O controle domiciliar rotineiro é impossível. O Ibama não tem estrutura para isso”, afirma Nilde Lago Pinheiro, consultora ambiental e ex-presidente do instituto.

Wilson Lima, gerente executivo do Ibama de São Paulo, admite
a falha. “O nosso controle é efetuado pelo relatório de venda das
lojas e pelos nossos cadastros. Mas temos pouca gente. São 30
fiscais para o Estado de São Paulo inteiro”, diz. “A verdade é que trabalhamos de acordo com as denúncias de maus-tratos.”
Segundo Lima, uma centena delas é feita mensalmente.

A maior crítica contra a venda de animais silvestres diz respeito à saúde da espécie. “Ao ser privados de seu hábitat natural, e por seus hábitos alimentares incomuns, é fácil que eles sofram maus-tratos”, explica Nilde. Segundo ela, a decisão de ter uma jibóia ou uma iguana em casa precisa ser muito bem pensada. A jibóia, cobra da espécie Boa constrictor, pode alcançar quatro metros em três anos, e a iguana, um tipo de lagarto, chega a um metro e meio. Há também o risco de que o proprietário abandone esses animais em áreas totalmente diferentes do seu ambiente original, o que pode causar um desequilíbrio ecológico entre as espécies nativas. Além disso, Nilde lembra que jibóias comem ratos e pintinhos vivos. “Não é muito instrutivo mostrar isso às crianças”, comenta.

Mesmo para quem já aprendeu a gostar de cobras, a cena da alimentação é chocante. Eduardo Chibana, médico radiologista, conta que comprou uma jibóia há quatro meses porque, mais do que admirar seu desenho e cores, ele gosta de observar seu comportamento. “As cobras são predadores, e tenho curiosidade de vê-las caçar suas presas e depois se alimentar. Mas é uma cena forte”, afirma o médico, que tem dois filhos, um menino de três meses e uma garota de dois anos.

Chibana, que mora em um apartamento em
São Paulo, preferiu manter a jibóia em seu
sítio em Ibiúna, no interior do Estado. A cobra, um macho que ainda não foi batizado, fica
num terrário fechado onde pode tomar sol, se banhar e se aquecer
numa área com piso aquecido. “Faço visitas frequentes ao sítio. A
minha cobra se alimenta uma vez por semana, e faço questão de estar
lá nesses momentos.” Quando Chibana não está em Ibiúna, um veterinário e um zootecnista cuidam de seu bicho de estimação. O contrato de venda prevê que, em caso de desistência, o comprador
pode devolver a jibóia para a loja. Chibana, entretanto, afirma não
ter nenhuma intenção de devolver seu animal. Em São Paulo, um
filhote de jibóia custa em torno de R$ 600.

Ele conta que sua mulher não morre de amores pela jibóia e prefere manter distância. “Meu filho ainda é muito pequeno, mas a Mariana, minha filha, gosta de passar os dedos pelo animal. Não vejo problema algum nisso”, diz o médico.

A relação de crianças com répteis, no entanto, pode não ser uma das mais saudáveis. “Se a pessoa sente que dá amor, mas não tem resposta, não há crescimento emocional”, explica Denise Ramos, coordenadora de pós-graduação de psicologia clínica da PUC-SP e co-autora do livro Os animais e a psiquê, que debate o efeito dos bichos na vida mental das pessoas. “A relação com cobras e lagartos, ao contrário do que ocorre com cães e gatos, pode até gerar no dono um comportamento indiferente e frio”, diz.

Além de benefícios psíquicos, recentes pesquisas mostram que os mascotes tradicionais podem também trazer vantagens para o organismo humano. Uma pesquisa da Escola de Medicina da Geórgia, nos EUA, publicada no ano passado pelo Jama, jornal da Associação Médica americana, indica que filhos criados em casas com dois ou mais cachorros ou gatos durante o primeiro ano de vida são menos suscetíveis a desenvolver doenças alérgicas no futuro, se comparados a crianças que cresceram sem esses bichos de estimação.

Aves raras – Mas não são só as jibóias que têm se transformado em objetos de desejo; as aves também são muito procuradas. De acordo com o Ibama, há cerca de 30 lojas especializadas no setor espalhadas pelo Brasil. Uma delas é a Amazon Birds, em São Paulo, que tem em seu centro de reprodução 110 espécies de aves. Cerca de 50 estão à venda, e seus preços variam de R$ 300 a R$ 15 mil. “A maioria das aves que recebemos vem de apreensões do comércio ilegal”, afirma Akis Anargyrou, dono da Amazon Birds. As lojas só estão autorizadas a vender a prole das aves capturadas.

A venda desses animais, no entanto, é criticada por alguns grupos de ambientalistas. “As lojas forçam a um aumento da demanda, e isso pode fortalecer o comércio ilegal”, alerta Rosa Lemos de Sá, coordenadora da organização não-governamental WWF Brasil. O tráfico de animais silvestres é um dos mais lucrativos comércios ilegais do mundo. Ele movimenta anualmente cerca de US$ 20 bilhões, segundo a Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres). Segundo estimativas do governo brasileiro, anualmente 12 milhões de animais são capturados em florestas, cerrados e outros ambientes naturais do País.

A Amazon Birds, que já vendeu uma centena de animais desde o final
do ano passado, quando foi aberta, tenta adaptar as aves para a convivência com o ser humano. A loja também recomenda que as espécies habitem gaiolas amplas, cheias de brinquedos para elas
roerem, e recebam a dieta correta. Mesmo com todos esses cuidados, imprevistos podem acontecer. “O treinamento não anula a natureza selvagem do bicho”, afirma Lima, do Ibama. “Na verdade, lugar
de animal é na natureza.”