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As Musas Republicanas

Três mulheres tentam mudar a cara do partido conservador americano, mas sem trocar o discurso

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POPULAR Meghan McCain já tem 75 mil seguidores no Twitter

Poucos presidentes na história americana tiveram uma atuação tão desastrada quanto George W. Bush. Além de enfiar o país em duas guerras controversas e causar um estrago econômico de proporções mundiais, Bush e seus falcões instalados na Casa Branca conseguiram também fazer com que o Partido Republicano se tornasse símbolo de atraso e intransigência.

Após a derrota nas eleições presidenciais, que devolveu aos democratas não só a Presidência do país, mas também a maioria na Câmara e no Senado, os republicanos agora apostam na estratégia de rejuvenescer a cara do partido para reconquistar uma parcela importante da população americana que os vê como símbolo de intolerância. Na linha de frente dessa nova batalha com vista às eleições parlamentares de 2010 estão três mulheres com indiscutível DNA republicano, mas com uma aparência que pouco lembra os homens que comandaram o país nos últimos oito anos. O trio que pretende reformar o partido, ao menos no visual, atende pelos nomes de Liz, Mary e Meghan. Além do entusiasmo, têm sobrenomes de peso na política do país. A duas primeiras são filhas do ex-vicepresidente Dick Cheney e Meghan é filha do senador John McCain, adversário do presidente Barack Obama nas últimas eleições.

Das três, Meghan é a que vem conseguindo avançar com mais sucesso na juventude conservadora americana, que distanciou-se dos republicanos de forma crescente nos últimos anos, principalmente nos grandes centros urbanos do país. Com 25 anos e dona de um discurso renovador, ela cita letras de bandas de rock para animar seus frequentes discursos em universidades americanas e defende que os jovens tenham uma participação mais deixar que figurões com o dobro ou o triplo de nossa idade falem por nós. Vamos recomeçar de onde eles pararam”, declarou a tatuada Meghan em um discurso para universitários em Washington, na semana passada. Ela, que se intitula “uma mulher que dispensa rótulos e estereótipos”, tem mais de 75 mil seguidores no Twitter e também assina uma coluna no “The Daily Beast”, um popular site americano.

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Na outra ponta desta cruzada de reconstrução dos republicanos está Liz Cheney, 43 anos, filha do ex-vice Dick Cheney. Ao contrário do frescor de Meghan, Liz trabalha para manter satisfeita a ala mais tradicional do partido. Crítica ferrenha da política externa de Barack Obama, avalia que as ações do presidente diminuem a estatura dos Estados Unidos na geopolítica mundial e incentivam os inimigos do país. Defensora da tese de que Obama não é americano, mas sim queniano, Liz é líder de uma organização política chamada “Keep America Safe” (Mantenha a América Segura, em tradução livre), que já saiu em defesa dos métodos de interrogação de supostos terroristas
avalizados pelo pai durante o governo de George W. Bush e iniciou recentemente uma campanha para impedir que os detentos de Guantánamo sejam levados para os Estados Unidos.

A ação ganhou simpatia e recursos dos republicanos e reforçou a intenção de Liz de entrar de vez na vida pública. “Pretendo disputar um cargo”, disse a filha mais velha do ex-presidente. Ajudando-a em suas ações e críticas ao governo Obama está sua irmã, Mary Cheney, uma lésbica assumida, casada há quase 20 anos com uma mulher e mãe de dois filhos. Mary, 40 anos, foi mantida longe dos holofotes durante a campanha de seu pai em 2004. Apesar de sua opção sexual ter irritado os setores mais conservadores do partido, ela conseguiu influenciar o pai, que afirmou, em 2004, que “o povo deve ter a liberdade para ter o tipo de relação que queira” e mostrou-se a favor do casamento gay, mas sem que o Estado legisle sobre isso.

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Mary continua atuando nas sombras, não dá entrevistas, pouco aparece em eventos públicos e hoje dedica-se a escrever a biografia de seu pai, que deve ser lançada em 2010. Mesmo sem aparecer, Mary continua  atuando ativamente no campo político e é o braço direito da irmã. O aumento da visibilidade dessas novas lideranças coincide com um momento de tensão para o Partido Democrata. No início do mês Obama teve sua primeira derrota eleitoral desde que assumiu a Presidência ao ver candidatos republicanos serem eleitos governadores de Nova Jersey e Virgínia, que estavam há oito anos nas mãos dos democratas e haviam votado em Obama nas eleições presidenciais.

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Com problemas internos, como a questão da saúde, e externos, como a crescente violência no Afeganistão, Obama vem tendo um primeiro ano de mandato mais difícil do que esperavam os americanos. A grande preocupação dos democratas nesse momento é com as eleições legislativas de 2010, que podem devolver aos republicanos a maioria tanto na Câmara quanto no Senado, tornando a vida do presidente ainda mais difícil nos próximos anos. Mesmo os democratas tendo a maioria nas duas casas, no sábado 21, a Câmara de Representantes aprovou a Lei da Saúde ao Alcance da América em um placar apertado. Foram 220 votos contra 215 para a reforma que pretende dar assistência médica para 47 milhões de cidadãos americanos que não possuem nenhum tipo de plano de saúde. O projeto é polêmico e também divide apopulação americana, que agora anda acusando  Obama de tentar implantar o socialismo no país. É de olho nessa fissura que começa a se abrir no eleitorado que os republicanos esperam recuperar o poder com a ajuda do trio de loiras e uma estratégia clara: mesmo discurso, mas com uma embalagem nova.