Edição nº2492 15.09 Ver edições anteriores

A mão na consciência

Celso Pitta morreu como pária, num enterro de ausências simbólicas. Onde estava Kassab?

Quando Celso Pitta morreu, às 23h55 da sexta-feira 20, ainda era feriado da consciência negra em várias cidades. No dia seguinte, o primeiro prefeito negro eleito em São Paulo foi velado de forma melancólica. Morreu como um pária, quase como indigente, assim como ocorre diariamente com milhares de negros no Brasil. Pitta foi um dos poucos políticos a quem nem a morte redimiu. O governador José Serra, a ex-prefeita Marta Suplicy, o padrinho Paulo Maluf, ninguém compareceu ao enterro. Mas a ausência mais simbólica foi a do prefeito Gilberto Kassab, que tinha o duplo dever de estar lá. Primeiro, por gratidão, pois Kassab foi homem forte do governo Pitta. Mas, se não havia mais lealdade, ao menos o protocolo teria de ser respeitado. Nem isso. Kassab preferiu a distância segura de um telegrama.

Em 1996, quando foi eleito, Pitta representou o maior choque político da década. Derrotou nomes fortes, como José Serra e Luiza Erundina, sem ter usado o fator racial a seu favor. Era um homem do setor privado, ex-diretor financeiro de grandes empresas, com passagem pela Universidade de Harvard, a quem parecia servir a roupa, costurada pelo marqueteiro Duda Mendonça, de “gestor competente”. Ainda assim, a ascensão de um negro numa metrópole tradicionalmente conservadora deu ao cidadão paulistano o que os americanos chamam de feel good factor – um ganho de autoestima a todos os eleitores que mostrassem, na urna, não ter preconceito. Depois disso, o pêndulo se inverteu. E o prefeito negro passou a ser também “o incapaz”, “o bandido”, “o corrupto de plantão” – quase um leproso. Uma imagem que servia ao antecessor Maluf, à sucessora Marta e até aos velhos companheiros, como Kassab.

O curioso é que esse político símbolo da corrupção tenha morrido pobre, sem nenhuma condenação judicial definitiva, com joias penhoradas e sem conseguir pagar sequer os médicos que o trataram. Se havia dinheiro no Exterior, ele jamais apareceu. E mesmo na Operação Satiagraha, quando Pitta foi preso, algemado e exibido de cuecas na televisão, a única coisa que havia contra ele era um grampo telefônico em que pedia socorro financeiro – é possível até que ele tenha sido colocado no caso apenas para conferir alguns pontos de ibope ao espetáculo policial.

Há quem diga que a morte de homens públicos carrega sempre algum significado. E os enterros são também momentos de reconciliação, em que até mesmo os adversários, dignamente, comparecem. No caso de Pitta, que morreu num leito de hospital, abandonado por tudo e por todos, em pleno feriado da consciência negra, qual terá sido a mensagem?


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