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Moda na sacristia: religiosos leem a "Bíblia" e cumprem os rituais sagrados pelo computador de bolso

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PRATICIDADE O bispo Antonio Keller e seu pocket PC: doutorado sem caderno

Tem católico ficando de cabelo em pé por conta de um aparelho eletrônico do tamanho da palma da mão. É cada vez mais comum encontrar padres e bispos cumprindo rituais sagrados acessando textos armazenados em computadores de bolso. “Às vezes, na fila do banco, leio a “Bíblia” que baixei para o meu palm nas versões latim, grego e hebraico”, conta o padre Anderson Banzatto, 27 anos, vigário da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo.

Não há nenhum pecado nessa prática, que poupa os religiosos, principalmente, de carregar pesados livros. Mas ela bate de frente com a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana. “Algumas freiras estranham quando digo que tenho a liturgia das horas no palm”, diz o cônego Celso Pedro da Silva, 73 anos, que adquiriu o aparelho por R$ 500 no ano passado. Reitor do Centro Universitário Assunção (Unifai), em São Paulo, o cônego se refere à oração oficial da Igreja composta por salmos e leituras bíblicas e rezada pelos religiosos católicos, oficialmente, sete vezes por dia.

“Na fila do banco, leio a “Bíblia” que baixei para o meu palmtop nas versões latim, grego e hebraico”
Padre Anderson Banzatto, da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo

“As freiras Rodrigo Cardoso defendem que as leituras têm de ser feitas pelos livros”, conta. Ver a “Bíblia” comprimida em um aparelho eletrônico talvez não seja mesmo o sonho de muitos cristãos, assim como não parecia ser o de João Paulo II, o pontífice que durante 26 anos escreveu à mão seus discursos e mensagens. Como seu sucessor Bento XVI, 82 anos, é um papa mais pragmático, que se comunica com os fiéis por meio do Facebook, iPhone e por um canal no YouTube, não soa tão estranho que tecnologia e Igreja Católica estejam caminhando lado a lado atualmente.

Bispo diocesano de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, dom Antonio Keller, 53 anos, arquivou no computador de bolso, que comprou em 2005, um compêndio do catecismo da Igreja, o “Missal Romano” (livro de altar da missa), uma enciclopédia bíblica e o “Código de Direito Canônico”. Graças a esse aparelho, de 12 cm por 6 cm e com preço de aproximadamente R$ 1 mil, também não precisa mais carregar quatro volumes de mais de mil páginas cada um da liturgia das horas. Quatro anos atrás, quando esteve em Roma fazendo doutorado em teologia, ele não usou nem caderno nas aulas.

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NA TELA A liturgia das horas em versão eletrônica

“Eu anotava tudo no meu pocket PC. O pessoal ficava impressionado”, conta. Para o cônego Antonio Manzato, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), esse tipo de tecnologia facilita a organização, a comunicação e o estudo da vida religiosa. Ele não enxerga nenhum desrespeito ao universo do sagrado. “A ‘Bíblia’ não é importante porque é um livro, mas por ser a palavra de Deus que atinge a humanidade. O essencial, portanto, não é ter o livro na mão”, afirma.

Na segunda-feira 23, dom Antonio Keller viajou para se encontrar com o papa Bento XVI no Vaticano. Em sua mala, segundo contou, não carregou um livro religioso sequer. O que não significa que não estaria acompanhado da Sagrada Escritura, devidamente armazenada em seu computador de bolso. Totalmente up-to- date, para desespero das freirinhas e doscatólicos mais ortodoxos.