Medicina & Bem-estar

Por que o placebo funciona

A ciência revela o que leva pílulas criadas para ser inócuas a funcionar de verdade no tratamento de doenças como asma, dor e ansiedade

Por que o placebo funciona

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RECEITA
Fabiana diz que adicionar vitaminas ao tratamento dá bom resultado

Remédios em princípio sem efeito terapêutico, os placebos estão ganhando um novo status na rotina da medicina. Criados para ser usados em estudos de verificação de eficácia de novas drogas, eles próprios passaram a ser objetos de investigação. O interesse se deve à constatação de que, ao contrário do que se imaginava, as pílulas não são tão inócuas assim. Diversos trabalhos demonstram efeito real no tratamento de doenças como ansiedade, dor e até mal de Parkinson.

A certeza de eficácia em algumas enfermidades é tão forte que levou, por exemplo, a Associação Alemã de Médicos a recomendar os placebos no tratamento de alguns casos de inflamações crônicas, dor e asma (em conjunto ou alternado com as medicações convencionais ou ministrado sozinho). Na verdade, naquele país, metade dos médicos já receita placebos. No Brasil, sabe-se que uma das práticas comuns é receitar, junto com o remédio indicado, vitaminas sem efeito terapêutico. É uma forma de fazer o paciente sentir que seu tratamento está mais potencializado. “Em alguns casos, em especial os de quem já se tratou outras vezes para a mesma doença, o resultado é surpreendente”, explica a dermatologista Fabiana Corio, de São Paulo.

Na opinião dos cientistas, constatações como essas deixam claro que a melhora do paciente depende de muito mais fatores do que a ação do princípio ativo de um remédio. Sua expectativa em relação ao tratamento e o quanto ele deposita de confiança em seu médico, por exemplo, são circunstâncias que interferem na resposta do organismo. “Todo tratamento é parte de um complexo processo de interação”, disse à ISTOÉ Charles Greene, da Universidade de Illinois (EUA).

A eficácia do efeito placebo estaria ancorada em alguns fatores. O primeiro seria o condicionamento. Aprendemos a melhorar após recebermos remédio. Assim, por um mecanismo inconsciente, nos sentimos bem após receber qualquer medicação, ainda que inócua. Outro princípio, consciente, estaria na expectativa que temos em relação ao tratamento. Uma pesquisa realizada em Boston com pessoas com asma ilustra esse mecanismo. Ao tratar 13 pacientes com placebo, não foi notada nenhuma melhora em sua capacidade respiratória (efeito obtido em quem recebe a droga). Ainda assim, os doentes relatavam sentir-se melhor. “O ritual de tratamento pode ser muito poderoso para o paciente”, disse à ­ISTOÉ Michael Wechsler, um dos responsáveis pelo estudo.

As pílulas também atuam na parte fisiológica, principalmente na ativação de circuitos cerebrais relacionados à produção de substâncias capazes de controlar a liberação dos hormônios do estresse. “O reequilíbrio desse sistema, gerado pelo efeito placebo, ajuda os mecanismos de defesa do corpo a trabalhar melhor”, diz Ricardo Morezi, da Universidade Federal de São Paulo.

Compreender o efeito placebo remete a outro ponto crucial na medicina, atualmente posto em segundo plano: a importância do cuidado despendido pelas equipes de saúde. Nos estudos, percebe-se que, quanto maior a relação de confiança entre médico e paciente, mais sólido é o efeito do falso medicamento. No Instituto Karolinska, da Suécia, a fisioterapeuta Anna Enblom estudou 277 pacientes de câncer em radioterapia submetidos à acupuntura (que poderia ser verdadeira ou falsa) ou a nenhum cuidado adicional. Quem recebeu a terapia complementar, fosse ela falsa ou verdadeira, sentiu menos náuseas. “O médico deve dar informação positiva e fazer o paciente acreditar no tratamento”, disse Anna à ISTOÉ.

O uso de medicamentos e terapias inócuas levanta polêmica quando o que se está em questão é a ética médica. “Não duvido que exista o efeito placebo”, avalia o médico Desireé Callegari, primeiro-secretário do Conselho Federal de Medicina. “Mas sua utilização é inadmissível do ponto de vista ético por causa da relação de transparência que deve haver entre médico e paciente.”

Para tentar fugir das polêmicas, os cientistas têm buscado formas de se aproveitar dos benefícios dos placebos sem que haja a necessidade de enganar o paciente. Na Universidade de Harvard (EUA), pacientes de síndrome do intestino irritável apresentaram resposta ao tratamento mesmo sabendo que não estavam tomando o medicamento verdadeiro. Na opinião de Ted Kaptchuk, um dos principais nomes da pesquisa em placebos no mundo, estudos como esse são importantes por dispensar a necessidade de mentir ao paciente. “Temos de descobrir meios éticos para nos beneficiar do efeito placebo”, disse o cientista à ISTOÉ.

Outra possibilidade é o tratamento combinado. Nesse caso, o que se busca é uma redução da droga ministrada, em partes substituída por placebo. Bons resultados foram obtidos com pacientes de psoríase. Pesquisadores da Universidade de Rochester (EUA) formaram três grupos com pacientes: um recebeu a droga durante todo o tempo; outro recebeu doses intercaladas do fármaco e de placebo; e o terceiro foi tratado todo o tempo com o medicamento, mas em uma versão menos concentrada. Os resultados nos dois primeiros grupos foram praticamente idênticos. “Isso aponta para a possibilidade de se tratar os pacientes com quantidades menores de droga”, disse à ISTOÉ o líder do estudo, ­Robert Ader.

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