Em Cartaz

A luta pela paz

As jornalistas Laura Daudén e Giovana Moraes Suzin percorreram durante dois meses uma remota região do noroeste da África

A luta pela paz

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As jornalistas Laura Daudén e Giovana Moraes Suzin percorreram durante dois meses uma remota região do noroeste da África conhecida como Saara Ocidental, onde vivem mais de 200 mil pessoas em cinco acampamentos. Chamada Saaraui, a população é formada em sua maioria por refugiados e, há três décadas, vem sendo vítima de uma disputa colonialista com o Marrocos. A viagem deu origem ao livro-reportagem “Nem Paz Nem Guerra” (Tinta Negra) e traz – em texto e fotos – um panorama político do país ocupado, bem como dos bastidores das disputas territoriais e das tentativas da ONU de resolver o conflito.

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Leia um trecho o primeiro capítulo :
 
 
Outra vida
 
No interior da tenda feita com o mesmo tecido que veste as mulheres,
a Rádio Nacional dava as notícias das comemorações do 33° aniversário
da República. O aparelho funcionava acionado por um gerador
de energia solar. Três jovens conversavam no dialeto hassanía, enquanto
despejavam o chá em um movimento rápido, de um copo a outro, até
atingir o ponto perfeito – todos devem conter cerca de um dedo de espuma.
É o final de mais um dia no deserto, em que a família nômade fez
o que faz há séculos: as mulheres levaram as ovelhas para andar, comeram
à sombra de alguns arbustos, ou, com sorte, de uma árvore. Quando
o sol se pôs no infinito horizonte de areia, elas voltaram às suas tendas,
prepararam o jantar e tomaram chá enquanto se informavam das últimas
novidades do que se passava nas terras áridas do Saara. O dia é comum,
mas a vida dessas pessoas está transformada. A família não se muda mais
de tempos em tempos, nem se aventura a ir para o oeste. Os homens não
estão com seus camelos vagando pelo interior do deserto.

Ronia, a mais velha das mulheres na tenda, avó das demais, conta que
chegou a viver em uma cidade – Aaiun, a antiga capital de um Saara colonial,
fundada pelos espanhóis. Mas em 1976 um ataque aéreo fez com que ela e
seus parentes fugissem: “havia bombas por toda parte”, relembra a senhora
que não sabe o ano em que nasceu. “Fugimos para o interior sem nada.” Ela
e suas netas moram hoje no sul da Argélia, perto da cidade de Tindouf, em
um dos cinco acampamentos de refugiados que abrigam cerca de 200 mil
pessoas. Ronia relata que no início, depois de ter escapado das bombas, não
havia nada onde agora são os acampamentos. “As mulheres fizeram os tijolos
para as construções. Elas fizeram tudo – não havia homens.” Todos eles
combatiam em uma guerra por ideais nacionalistas e pela tomada de poder
do que é atualmente o território do Saara Ocidental. Depois de 15 anos de
guerrilha, um acordo militar deixou a batalha suspensa e os homens foram
para a Argélia. “Foi ótimo, porque paramos de perder nossos filhos.” Esclarece,
orgulhosa, que eles não estão presentes naquele momento porque se
encontram nos pelotões do Exército de Libertação do Povo Saaraui, o seu
povo. Desde que a guerra parou, os acampamentos mudaram muito: “Com
a estabilização, o policiamento foi diminuindo”.

Ronia e sua família moram no acampamento de Smara na Argélia.
Mesmo gostando de lá, preferem estar no local que as conhecemos, com
suas tendas e suas ovelhas naquele espaço do deserto que lhes pertence.
O clima da região é mais ameno do que nos acampamentos, onde no
verão as temperaturas chegam a atingir 60° e, nas noites de inverno, o
vento é cortante. Em Smara, tempestades de areia imprevisíveis tornam
a vida no meio do nada muito difícil. Já nesta parte do Saara, onde se
estabelecem durante alguns meses ao ano, chegam a crescer plantas e a
vegetação faz dos dias mais frescos. A tenda fica do outro lado da fronteira
argelina, na parte do território do Saara Ocidental controlada pelo
movimento que reivindica independência – a Frente Polisario. “Viemos
aqui porque é nossa terra”, afirma a saaraui. Mas não vão mais para o oeste
porque há um muro, de 2.200 km, com milhares de minas explosivas,
que impede a passagem. A segurança é reforçada por mais de 100 mil
soldados do Reino do Marrocos, monarquia que combateu guerrilheiros
como os parentes de Ronia. Em 1975, o governo marroquino (na época
representado por Hassan II), coordenou uma invasão ao Saara, que estava,
então, sob domínio da Espanha. Depois, negociou com a potência
européia a posse do território. Durante a ocupação, perseguiu saarauis e
jogou as bombas das quais Ronia fugiu. O país ainda detém o controle
do Saara Ocidental. “Nós sofremos nos acampamentos, mas nas zonas
ocupadas [pelo Marrocos] nossa família é torturada.”