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O povo derruba o cachorro louco

Nos ventos da Primavera Árabe, os líbios acabam com 42 anos de tirania de Muamar Kadafi, mas o futuro do país ainda é incerto

O povo derruba o cachorro louco

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A QUEDA
Rebeldes tomam o QG do ditador e festejam sobre o monumento
que representava o desprezo de Kadafi pelas pressões mundiais

As 72 bandeiras monocromáticas erguidas na Praça Verde, símbolo da era Muamar Kadafi, pareciam até a semana passada ignorar os fortes ventos de liberdade soprados pela Primavera Árabe. No centro de Trípoli, a capital da Líbia, a praça havia se tornado o principal palco de apoio ao regime totalitário. Desde fevereiro, quando os líbios começaram a empunhar armas para pôr fim aos desmandos do mais longevo ditador em atividade no mundo, Kadafi arregimentava uma multidão de acólitos para bradar seu nome na Praça Verde. A intenção era mostrar que ele não teria o mesmo fim dos ditadores vizinhos Zine el Abidin Ben Ali e Hosni Mubarak, depostos na Tunísia e no Egito depois de violentas revoltas populares. A cada avanço dos rebeldes pelo interior do país, Kadafi fazia discursos inflamados para seus seguidores: “Estou no meio do povo. Nós lutaremos. Nós os derrotaremos!”

Na madrugada da segunda-feira 22, uma sequência de tiros para o alto anunciou a mudança. Depois de seis meses de luta, os rebeldes haviam chegado ao coração de Trípoli. Uma a uma, as bandeiras da Líbia de Kadafi eram arrancadas com fúria, assim como cartazes ou qualquer símbolo do poder instituído nos últimos 42 anos. A Praça Verde foi rebatizada de Praça dos Mártires em homenagem às dez mil pessoas que morreram durante os confrontos contra as forças de Kadafi. Líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão formado por opositores do regime e reconhecido por mais de 40 países como único representante legítimo do povo líbio, anunciaram o fim do longo período de trevas. “Agora eu digo, com toda a transparência, que a era Kadafi acabou”, declarou o presidente da entidade, Mustafa Abdul-Jalil. O discurso se multiplicou por pronunciamentos dos chefes das principais nações europeias.

Agora começava a caçada ao “Cachorro Louco do Oriente Médio”. Com seu estilo agressivo e imprevisível, Kadafi ganhou este apelido do ex-presidente americano Ronald Reagan. Ele tomou o poder em 1969, como líder de um movimento nacionalista que depôs o rei Idris e permitiu aos líbios, acostumados às seguidas ondas de dominação estrangeira, assistirem, em plena Guerra Fria, à expulsão de bases militares americanas e à nacionalização da exploração das abundantes reservas de petróleo. Nesse período, Kadafi chegou a ser chamado de “Che Africano”. Com os recursos dos petrodólares, o ditador costurou uma engenhosa política interna. Comprou o apoio dos chefes das tribos e subtribos, que comandam cada região do país. Aos opositores, oferecia um forte arsenal militar de repressão. Oficialmente, nunca ocupou cargos. Nem precisava. Seu rosto e suas façanhas registrados em cartazes e monumentos se espalhavam pela Líbia. Kadafi era a única face da “revolução permanente” que, segundo ele, substituiria o capitalismo e o socialismo. Por décadas ele resistiu à pressão das maiores potências internacionais.

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BANDEIRA
As novas cores da Líbia são levadas à praça central de Trípoli

O ícone predileto de Kadafi era a grandiloquente escultura de um punho dourado amassando um avião americano. Este afetado monumento, localizado em frente a seu QG, foi idealizado pelo ditador para mostrar a resistência do regime líbio aos bombardeios realizados pelos Estados Unidos em 1986, em que uma filha de Kadafi teria morrido (há suspeitas de que ela tenha sido apenas escondida do público). Os ataques aéreos foram a resposta de Washington a uma ação terrorista realizada com o apoio de Kadafi a uma boate frequentada por militares americanos em Berlim. Em 1988 e 1989, o ditador também esteve por trás de atentados a dois aviões comerciais que mataram 440 pessoas. Kadafi tornou-se, então, um pária internacional e a Líbia passou a sofrer duras sanções. O “Cachorro Louco”, no entanto, começou a se apresentar mais manso ao mundo em 1999. Entregou dois suspeitos pela explosão do avião da Pan Am sobre a cidade escocesa de Lockerbie para serem julgados em Haia. Depois, em 2003, concordou em pagar US$ 2,7 bilhões para as famílias das vítimas e assim levantou o bloqueio internacional contra o país. No mesmo ano, Kadafi anunciou que renunciava a adquirir armas de destruição em massa e pôde retornar aos grandes círculos. Com vestes de beduíno, levou sua folclórica tenda e suas famosas enfermeiras ucranianas a vários cantos do mundo. George W. Bush, Barack Obama, Silvio Berlusconi e Nicolas Sarkozy lhe estenderiam a mão. O presidente Lula prestou-lhe homenagem numa visita em julho de 2009, tratando-o como “amigo, irmão”.

Foi pelo front mais improvável, no entanto, que o destino de Kadafi mudou de vez. O desértico e miserável interior da Líbia foi tocado pela Primavera Árabe, que, no final do ano passado, começou a varrer velhos ditadores do mapa africano. Os primeiros sinais de revolta surgiram em 15 de fevereiro, em Benghazi, até então um tímido reduto de opositores. Os manifestantes protestavam contra a corrupção e a violação dos direitos humanos do regime. A forte repressão aos atos deu mais força ao movimento. Em poucos dias, numa avalanche difusa e sem rosto, os opositores passaram a comandar cidades. Enfrentar o tirano mostrava-se, enfim, possível. Integrantes do Exército, do governo e de tribos aliadas passaram a desertar e engrossar as fileiras anti-Kadafi. A guerra civil e o banho de sangue estavam instaurados. Em março, com a intervenção de forças internacionais, a situação começou a pender a favor dos rebeldes. Bombardeios constantes dos aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) abalaram o regime.

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NO CHÃO
Manifestantes chutam uma dos milhares de esculturas que representavam o poder de Kadafi

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PARA O MUNDO VER
Rebeldes entram no saguão do Hotel Corinthia Bab África, que abriga a imprensa estrangeira

Na terça-feira 23, depois de uma intensa batalha com forças leais ao governo, os rebeldes entraram no QG de Kadafi pela porta da frente. Conhecido como “Bab al-Azizia”, o complexo possui alto valor simbólico. Lá ficam a sede do governo e a residência oficial do ditador. Os insurgentes confiscaram armamentos e mantimentos, hastearam sua bandeira oficial – a mesma usada na Líbia pré-Kadafi – e destruíram emblemas do regime. A resposta do ditador veio por meio de gravações veiculadas em rádios e televisões. Com ironia, Kadafi declarou que havia andado pelas ruas de Trípoli e que a cidade estava calma. Conclamou seus seguidores a atacar os rebeldes e as forças internacionais: “Não deixem Trípoli para esses ratos, matem-nos, derrotem-nos rapidamente. Vocês são a maioria esmagadora. Não haverá local seguro para os inimigos. O inimigo está iludido, a Otan está recuando. Ela não pode durar para sempre no ar. Que a Otan seja condenada.” Não foi o que aconteceu. Os batalhões insubmissos continuaram a marchar pelo país rumo a Sirte, cidade-natal do ditador e uma das poucas ainda sob controle do regime. O tirano acostumado a oferecer recompensas pela captura de seus oponentes passou a ter um preço estipulado pela sua própria cabeça: US$1,7 milhão por Kadafi, vivo ou morto.

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FIM
Após a tomada de Bab Al-Azizia, porta-vozes do Conselho Nacional declaram a vitória

É impossível prever o que será a nova Líbia sem Kadafi. O movimento rebelde não está dominado pelo fundamentalismo islâmico, como temeu o Ocidente, mas seria apressado defini-lo como uma luta pela democracia. A insurreição foi, sim, um salto contra a tirania, sem cogitar o que pode ser colocado no lugar do opressor. A Líbia é um deserto institucional. As quatro décadas de poder de Kadafi, com seus expurgos e decretos estapafúrdios, forjaram um país peculiar. Ali não há Parlamento de fato, partidos políticos, ministérios que funcionem, empresas privadas ou qualquer sinal do que poderia ser chamado de “sociedade civil”. Não existe sequer um Exército formal bem constituído, pois Kadafi, temendo golpes, preferia organizar suas milícias tribais. Há, porém, o petróleo. Muito petróleo. E é isso que move líderes mundiais a mostrar interesse em fazer negócios com o novo governo. Nações que ignoraram o levante popular, como a China e o Brasil, tentam garantir ativos empresariais de investimentos realizados na “era Kadafi”. Americanos e europeus discutem prazos para devolver ao Conselho Nacional de Transição (CNT) os bilionários recursos líbios confiscados durante a guerra civil. Prazos para a normalização da produção de petróleo são estipulados e custos para a reconstrução da infraestrutura começam a ser estimados. Mas, na verdade, ninguém sabe ainda quem ou o que poderá unir as tribos líbias para dar unidade a um novo governo. Em tempos de cachorro louco à solta, as manhãs em Trípoli são incertas.

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