Comportamento

Caçador de desaparecidos

Sozinho e sem usar equipamentos sofisticados, Oswaldo Amarante já encontrou duas mil pessoas sumidas

Caçador de desaparecidos

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NA PISTA
Amarante na sede da Cruz Vermelha: trabalho minucioso

Os cabelos são raros, o simpático bigodinho é branco e uma saliente barriguinha se projeta. Aos 59 anos, o advogado Oswaldo Amarante Filho parece apenas mais um burocrata quando chega para trabalhar na sede da Cruz Vermelha, no centro do Rio de Janeiro. No entanto, é responsável por uma das tarefas humanitárias mais importantes da instituição no Brasil: localizar pessoas que perderam contato com parentes em função de guerras, violência generalizada, violações aos direitos humanos, calamidades, desastres naturais e miséria. Em pouco mais de 20 anos, Amarante localizou dois mil desaparecidos. “O segredo é ser observador e ter o coração aberto”, ensina. Para isso, não lança mão de novidades tecnológicas nem de um batalhão de investigadores. Trabalha sozinho.

O serviço foi criado durante a Primeira Guerra Mundial para localizar crianças perdidas. “No Brasil, a maior parte dos casos é de famílias que migraram do Nordeste para trabalhar no Sul e Sudeste e perderam os laços”, explica Amarante, que tem um cadastro de seis mil desaparecidos dentro e fora do País. Divorciado e sem filhos, ele é o chefe do Departamento de Busca de Paradeiro da organização que tem representantes em 186 países. É chefe de si mesmo e não ganha nada pelo trabalho. “Só peço dinheiro para imprimir os formulários padronizados e postar cartas”, conta. O serviço é feito de forma rudimentar. Instalado em uma modesta sala no prédio da Cruz Vermelha, ele mantém os arquivos dos procurados em pastas suspensas, organizadas em armários de ferro. Para localizar alguém, escreve à mão as cartas para clubes de diretores lojistas, consulados, institutos de identificação, tribunais eleitorais e organizações não governamentais, além de verificar as listas telefônicas de todos os municípios brasileiros.

Por vezes, encontra pessoas que nem sequer imaginavam ser procuradas, como o ucraniano Paulo Samsoniuk. Fugindo da Segunda Guerra, em 1943, Samsoniuk veio para o Brasil e pensava não ter parentes vivos. Foi encontrado a pedido de uma sobrinha e viajou para a Ucrânia, para conhecer a família. Protocolos internacionais defendem o direito de um procurado não querer ser localizado, o que o impede de acionar a polícia ou recorrer à mídia. “É preciso ter cautela para não criar conflito”, conta. Ele lembra do caso de um português, dono de um botequim, que implorou para não ter o paradeiro revelado. “Dizia que eles só queriam o seu dinheiro”, comenta. Nesse caso, mesmo o eficiente Amarante não tem o que fazer. 

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