Cultura

Nos bastidores do Balé Kirov

Como a tradicional companhia russa se prepara com rigor durante oito horas por dia para chegar à perfeição no espetáculo "O Lago dos Cisnes", em turnê pelo País

Nos bastidores do Balé Kirov

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CISNE BRANCO
Os solistas Ekaterina Kondaurova e Evgeny Ivanchenko (ao centro)
em ação: esforços físicos que podem provocar lesões

Esqueça o horror psicológico do filme “Cisne Negro”, que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman. Para levar aos palcos uma perfeita coreografia de “O Lago dos Cisnes”, o mais famoso espetáculo de dança clássica da história, o que se precisa é de muito treinamento, disciplina e trabalho de equipe. Coisa que o Balé Kirov, de São Petersburgo, na Rússia, tira de letra. A trupe está em turnê por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e traz essa produção como carro-chefe. A história da princesa condenada a viver como ave por causa de uma maldição é um patrimônio russo por excelência: além da bem-sucedida composição de Piotr Ilitch Tchaikovski, ela é embalada por um romantismo de gestos largos apropriado a dançarinos dispostos a todos os sacrifícios. E é esse o sentimento que se percebe nos bastidores do Kirov, que hoje prefere ser chamado de Balé do Teatro Mariinsky.

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CONCENTRAÇÃO
A maquiagem de cisne negro (acima), os pés arqueados da
bailarina e o aquecimento: trabalho árduo que antecede o espetáculo

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Momentos após desembarcarem no Brasil, seus 100 bailarinos já estavam no palco do Theatro Municipal de São Paulo. Eles ganharam apenas dois dias de folga na Rússia depois de cumprir uma concorrida agenda de um mês em Londres e nem tiveram oportunidade de passear pela capital paulista. Foi o tempo de tomar um café da manhã e enfrentar a pesada rotina. O cronograma é rigoroso. Das 11 horas da manhã ao meio-dia, aula e aquecimento com as professoras. Na sequência, ensaio geral até as 15 horas. Repassada toda a coreografia, os protagonistas treinam isoladamente mais quatro horas – com pausas, naturalmente. Todo o elenco junto novamente, é hora de repassar o espetáculo na íntegra, com luz, orquestra e parte do figurino. “Nossa prioridade é sempre o ensaio, mas, quando estamos em cidades grandes como São Paulo, Nova York e Tóquio, tentamos achar um espaço na agenda para algum programa cultural”, diz a primeira solista Ekaterina Kondaurova, 29 anos de idade e há dez na companhia. Ela fala como uma garota comum, mas seus pés não escondem a condição sobre-humana: são arqueados e se habituaram a uma posição em que os dedos se comprimem – como se estivessem tornando-se de aves, digamos.

Alimentos, nem pensar. Nessas oito horas de treinamento, só se serve chá, café e água. Ekaterina afirma que não se submete a uma dieta específica e, quando sobra um tempinho, foge com algumas colegas para a lanchonete McDonald’s mais próxima, porto seguro para quem domina pouco a língua inglesa. Outra diferença entre o cotidiano das dançarinas russas e o de Natalie Portman em “Cisne Negro” é que nenhuma delas compete com a outra a ponto de matar a rival: “A competição existe, mas não é desleal. Todos trabalham para atingir sua meta. Se um ‘concorrente’ fizer o movimento bem, isso é um incentivo para que eu faça igual. Ou ainda melhor”, diz ela.

A briga pelos papéis também é pura ficção. Na montagem do Kirov, a mesma bailarina interpreta os cisnes negro e branco e a cada espetáculo as solistas alternam seus papéis ao lado do experiente Evgeny Ivanchenko, 36 anos, há 19 na companhia, dono do principal papel masculino. “A falta de tempo para se fazer o que deseja é o grande desafio”, diz Ivanchenko.
“É preciso ficar atento ao aspecto físico, pois tem dias em que acordamos com dores ou distensões.”
Para manter os profissionais em forma estão lá as professoras, geralmente ex-bailarinas do grupo.

“O professor estimula fisicamente e moralmente os bailarinos”, diz Yuri Fateev, diretor-geral do espetáculo e ex-bailarino do Kirov. Ele já esteve no Brasil nas outras três apresentações da companhia e é quem assume o microfone no primeiro ensaio geral, que se inicia às 19 horas. Sentado na plateia, Fateev corrige a marcação da trupe no palco, enquanto assistentes espalhados pelo teatro o auxiliam nessa função. A diretora musical, por exemplo, discute com o maestro o tempo perfeito para a pirueta de um dos personagens: “São mais quatro compassos!”, alerta, com um acento que parece uma mistura de russo e italiano. Repassadas as partes principais das três horas do espetáculo, uma estranha apreensão toma conta dos bastidores. Para os dançarinos, é hora de recolher as polainas amontoadas nas laterais e começar a vestir os vistosos figurinos. Os iPods, ligados durante o aquecimento, são guardados. As conversas triviais transformam-se no burburinho ansioso que antecede inícios de espetáculo. Cada artista é responsável por sua própria maquiagem, enquanto as camareiras aprontam vestidos e fraques. Garrafas de café e chá são disputadas. Silêncio. Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar.

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