Artes Visuais

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Vendidos para instituições internacionais ou emprestados para museus brasileiros, acervos ganham visibilidade e chances de sobrevivência, diante da isenção do Estado em formar coleções

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Dimensions of Constructive Art in Brazil: The Adolpho Leirner Collection/Haus Konstruktiv, Zurique/ até 21/2/10

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NA ESTRADA Tela de Milton Dacosta está entre as obras mostradas pela primeira vez na Europa

Quando o colecionador brasileiro Adolpho Leirner vendeu seus acervo de arte construtiva para o Museum of Fine Arts de Houston (MFAH), em 2007, o País acusou o golpe. Não foram poucos os profissionais que vieram a público lamentar a perda da mais importante coleção de obras concretas e neoconcretas brasileiras para um museu americano. Questionava-se o porquê de esse patrimônio cultural de uma centena de obras seminais como “Bicho”, de Lygia Clark, “Metaesquema”, de Hélio Oiticica, entre outras de Mira Schendel, Sergio Camargo, Abraham Palatnik, Milton Dacosta e Waldemar Cordeiro não ter tido como destino a Pinacoteca do Estado de São Paulo ou o Museu de Arte Moderna de São Paulo, para citar apenas duas instituições brasileiras com porte para receber tal coleção.

Hoje, quando choramos a perda definitiva de grande parte do acervo de Oiticica no incêndio na casa de seus familiares, constata-se que a coleção Adolpho Leirner está a salvo e em boa saúde nas mãos de um museu estrangeiro. Este, além de garantir a sua integridade física, ainda promove a sua divulgação junto à comunidade internacional, na mostra “Dimensions of Constructive Art in Brazil: The Adolfo Leirner Collection”, que apresenta o conjunto de trabalhos pela primeira vez na Europa.

A mostra fica em cartaz até fevereiro em Zurique, criando um diálogo entre o concretismo brasileiro e o suíço. “A coleção Adolpho Leirner poderia ter sido tombada pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Nacional), assim como foi feito com a coleção do Masp (Museu de Arte de São Paulo), em 1969”, argumenta o crítico Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP, que participou da reunião convocada pelo ministro do Estado na preservação de obras de arte, no dia 9 de novembro. “O Iphan tem o direito de preservar e controlar a circulação de uma coleção, se decidir que ela tem status de patrimônio cultural. Ou seja, instrumento jurídico já existe.

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FRUTOS DO COMODATO A pintura “Ninguém Tinha Visto”, de Leonilson, foi doada para o acervo do MAM-SP

O que falta é vontade política. Sou contra culpar os particulares quando o Estado tem como preservar nossos acervos”, diz Chaimovich. Mas, enquanto não há política nacional de aquisição de obras em museus brasileiros nem consenso sobre a atuação do governo sobre os acervos de artistas mortos, os contratos de comodato (empréstimo) se mostram soluções eficientes. O MAM-SP, por exemplo, mantém hoje 11 contratos de comodato com artistas e colecionadores, através dos quais se compromete a catalogar, preservar e exibir um total de 320 obras de diferentes artistas.

“Seria impossível para o MAM comprar, por exemplo, a quantidade de obras de Leonilson que há na coleção Edu Brandão e Jan Fjeld”, diz Chaimovich. Em decorrência do comodato, o MAM recebeu em doação três importantes obras do artista paulistano falecido nos anos 90. Referência fundamental da produção artística brasileira dos anos 80, Leonilson acaba de ter assegurada a digitalização da íntegra de sua obra e documentos pessoais em um banco de dados online pelo Instituto Itaú Cultural.

“A digitalização de Leonilson faz parte do projeto original do Itaú Cultural, que surgiu há 23 anos com a função de utilizar a tecnologia para organizar, difundir e refletir sobre a produção artística brasileira”, diz Eduardo Saron, superintendente do Itaú Cultural, instituição que preservou em uma enciclopédia online boa parte do material destruído no incêndio do acervo de Oiticica. O “Programa Hélio Oiticica” é uma importante ferramenta de pesquisa que tem 800 acessos únicos por mês.

“O banco de dados colocará em rede toda a obra do Leonilson e dará acesso irrestrito a todos”, diz Ana Lenice Fonseca da Silva, irmã do artista e diretora do Projeto Leonilson, que deverá em breve assinar um contrato de comodato com a Pinacoteca do Estado de São Paulo para garantir a guarda de 1.500 trabalhos e a mostra permanente de um conjunto de obras em uma sala especial. Nada mais justo e próprio a um acervo dessa importância.