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Prazer Milenar

Cientista americano reconstrói a surpreendente história da relação entre o homem e as bebidas alcoólicas

Prazer Milenar

Bebo, logo existo.” A frase, subtítulo do primeiro capítulo de “Uncorking the Past” (algo como “Destampando o Passado”, ainda inédito no Brasil), novo livro do cientista biomolecular americano Patrick McGovern, deixa clara a tese da obra. Lançado há poucas semanas, o segundo livro do pesquisador da Universidade da Pensilvânia revela detalhes da milenar relação entre a espécie humana e o álcool, alterador de humor presente em praticamente todas as grandes civilizações do passado e do presente.

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INVESTIGAÇÂO McGovern (acima) busca traços do passado em ânforas milenares

Para McGovern, somos tão naturalmente ligados à substância química que até mesmo nosso nome científico deveria ser revisto, passando de Homo sapiens para Homo imbibens. “Ao redor do mundo e desde os tempos mais remotos, os humanos tomam bebidas alcoólicas. Elas já foram usadas como remédios e lubrificantes sociais, além de terem sido incorporadas em cerimônias religiosas e rituais de toda sorte”, disse McGovern à ISTOÉ.

À frente de uma ciência relativamente nova a arqueologia biomolecular existe formalmente há apenas 25 anos, McGovern atingiu o status de maior autoridade mundial ao encontrar resquícios de uma bebida com mais de nove mil anos de idade em um jarro achado na localidade de Jiahu, às margens do rio Amarelo, na China. “Foi a minha descoberta mais surpreendente e excitante. Pensava que toparíamos com algo mais antigo no Oriente Médio, berço da civilização humana. Mas vale lembrar que os chineses faziam potes de cerâmica desde o ano 13.000 a.C., uma técnica dominada por outros povos apenas cinco mil anos depois”, revela o cientista.

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“Talvez, os mais profundos e marcantes efeitos do álcool repercutam nos pontos mais misteriosos
e místicos do cérebro humano. Seja nas civilizações antigas ou nas modernas, as melhores formas
de estabelecer contato com os deuses ou nossos antepassados é por meio da ingestão de bebidas”
Trecho de “Uncorking the Past”, livro do arqueólogo Patrick McGovern

Segundo o novo livro, a fascinação pelos líquidos estimulou a engenhosidade humana a buscar avanços importantes. No período neolítico, por exemplo, nossos ancestrais foram capazes de domesticar o cultivo dos cereais para ter matéria-prima sempre à mão. O detalhe é que, segundo McGovern, os primeiros fazendeiros pensaram primeiro na cerveja (substituto seguro para águas contaminadas) e depois no pão. Além disso, novas tecnologias de armazenamento, conservação e transporte só foram criadas graças à necessidade de manter as bebidas alcoólicas conservadas e prontas para o uso sejam elas o vinho de arroz chinês e japonês, os fermentados de cacau encontrados
na América Central ou a cerveja egípcia.

“Sabemos que certas civilizações também usavam tabaco, cogumelos, folhas de coca ou maconha em certos rituais. Mas nada estava tão incorporado ao dia a dia como o álcool”, diz o pesquisador. Se você está se perguntando qual seria o paladar dessas bebidas do passado, saiba que McGovern já tentou recriar alguma delas em laboratório. Segundo ele, que conseguiu ajuda e auxílio tecnológico de fabricantes contemporâneos, seus maiores êxitos são uma cerveja de chocolate e o Chateau Jiahu, já batizado de “o vinho mais antigo do mundo”. Resta saber se algum sommelier de plantão encara uma degustação.