Tecnologia & Meio ambiente

Neurocientistas batem cabeça

Disputas entre Miguel Nicolelis e Sidarta Ribeiro, dois dos mais renomados pesquisadores sobre o cérebro, abalam institutos dedicados a uma das poucas áreas em que o Brasil brilha

Neurocientistas batem cabeça

Se há um ramo científico do qual o Brasil pode se orgulhar, é a neurociência. Nas últimas décadas, o País tem visto o crescimento no número de centros de pesquisa dedicados ao assunto, as universidades formam profissionais assediados pelas mais renomadas instituições de ensino no Exterior e, em 2015, o Rio de Janeiro vai abrigar o Congresso Mundial de Neurociência, o mais importante encontro sobre o tema. Por tudo isso, é surpreendente quando dois dos maiores especialistas brasileiros nas coisas do cérebro batem cabeça. Pelo menos até o início desta semana, era esse o clima entre os neurocientistas Miguel Nicolelis e Sidarta Ribeiro. Tudo por conta do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), entidade da qual os dois são cofundadores.

Com cerca de US$ 450 mil vindos do bolso de Nicolelis e US$ 10 milhões doados pelo Instituto Edmond J. Safra, o IINN veio à luz em 2006. Apesar de privado, o empreendimento é mantido também com verbas de órgãos públicos, como o Ministério da Educação e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). Para Sidarta, isso justifica a ampliação no quadro de pessoas aptas a utilizar os laboratórios do IINN. Nicolelis defende a restrição do acesso ao centro para apenas os 95 cientistas atualmente cadastrados. Essa discordância teria sido a gota d’água para a cisão. A situação recrudesceu na terça-feira 26, quando Sidarta decidiu levar parte do material que até então compunha a infraestrutura do IINN para o recém-criado Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Até agora, a lista de bens retirados é enxuta – uma centrífuga, computadores e gaiolas para montar um biotério (espécie de viveiro) de camundongos. Além dos equipamentos, dez cientistas deixaram o instituto.

Depois da medida extrema, ambos decidiram usar a cabeça e fecharam a semana buscando encerrar a polêmica. Em entrevista na quinta-feira 28, em Natal, Nicolelis afirmou que o episódio não irá comprometer as pesquisas e elogiou, publicamente, o colega. “Sidarta é um pesquisador brilhante e tem condições de desenvolver um ótimo trabalho”, disse. Garantiu ainda que as portas do IINN seguem abertas para pesquisadores da UFRN. “Temos vários alunos da pós da UFRN que continuarão tocando seus projetos aqui.” Do outro lado, Sidarta, disse à ISTOÉ que há interesse em restabelecer alianças com o IINN. “Mas em um modelo de parceria no qual tanto a parte pública quanto a parte privada possuam seus equipamentos e sua infraestrutura próprios”, fez questão de lembrar.

Por trás da aparente reconciliação, uma pergunta importante segue sem resposta: o que, afinal, fez com que se chegasse a uma situação tão extrema, com a retirada de equipamentos e a saída de pesquisadores? Nos bastidores, há acusações para todos os lados. De Nicolelis, fala-se que é uma figura de difícil relacionamento e que já teria criado problemas com outros cientistas. Sobre Sidarta, diz-se que só criou a confusão após perder sua sala e uma vaga exclusiva de estacionamento (o que ele nega).

Baixada a poeira, resta saber como se reorganizarão os institutos. Nicolelis anunciou que novos cientistas serão convidados para o IINN. Uma equipe de São Paulo e um pesquisador do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês) são esperados. No Instituto do Cérebro, inaugurado em 13 de maio deste ano, o desafio é outro. Não faltam cabeças, mas sim equipamentos. A nova sede só deve ser completamente concluída com a inauguração do Campus do Cérebro, em Macaíba, região metropolitana de Natal. O empreendimento – surpresa – resulta de uma tabelinha entre a universidade e o IINN. “A parceria será mantida. O fato de haver reajustes administrativos não significa cisão”, declarou Neiva Cristina Paraschiva, diretora-executiva da Associação Alberto Santos-Dumont de Apoio à Pesquisa, gestora do IINN. Sinal de que a inteligência está saindo dos laboratórios e contagiando o pessoal administrativo dos institutos.

O que se passa na cabeça de cada um
Entrevistados separadamente, Sidarta Nicolelis falam sobre os desdobramentos da briga entre eles

 

img1.jpg

g2.jpg

 

img.jpg

g.jpg