Artes Visuais

Teatros de vertigem

A literatura de Beckett, a infância e seus mitos são revisitados em trabalhos de 30 artistas, sob a curadoria de Josué Mattos

Teatros de vertigem

Como o tempo passa quando a gente se diverte / Casa Triângulo, SP / até 13/8

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FIM DE FESTA
Fotografia de Rochelle Costi apresenta outro lado da infância

Na entrada da exposição na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, uma caixinha de acrílico contém pequeníssimos acetatos coloridos recortados com a palavra “Time”. O objeto, intitulado “250TIMES”, de autoria de Maurício Ianês, funciona como uma charada, uma espécie de buraco da fechadura, por meio do qual vislumbra-se o grande conceito da mostra: a passagem do tempo – ou sua suspensão. Também na porta de entrada, um objeto lúdico, redondo, com um fone de ouvido acoplado, convida o visitante. Trata-se da obra “Cantos”, de Renata Padovan, e pode se tornar a trilha sonora da exposição, caso o visitante opte por passear entre as obras, portando o objeto. “Como o tempo passa quando a gente se diverte”, título extraído de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, tem curadoria de Josué Mattos e reúne trabalhos de 30 artistas.

O som influencia definitivamente o olhar, e com ele a exposição tem acentuado o seu caráter dramático e narrativo. Embalados por cantigas de roda em diversas línguas, revisitamos o imaginário e as iconografias da infância. Com toda a sua luz e sombra. As máscaras, fantasias e os títeres povoam as esculturas de Flávio Cerqueira e as pinturas de Camila Macedo, Rodrigo Bivar e Eduardo Berliner. O circo é evocado por Vania Mignone e por Thereza Salazar. O balanço está desenhado no cavalinho de Sandra Cinto, pintado na tela de Flávia Metzler e associado à vertigem no vídeo de Milena Travassos.

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CANTIGAS DE RODA
Vídeo de Flávia Metzler evoca risco, vertigem e aventura

Já as formigas que escapam do desenho de Ana Teixeira – feito diretamente sobre a parede – liberam uma narrativa oculta. O “Autorretrato com formigas” é, como a fotografia “Uma festa”, de Rochelle Costi, o fim da ingenuidade. O corpo depois do salto. O jogador depois da partida. A evidência de que as escolhas de Josué Mattos não fazem apologia aos parques de diversões de nossa infância se consolida em “Fim de partida”, fotografias em que Tatiana Blass homenageia Beckett.