Edição nº2488 18.08 Ver edições anteriores

Atire a primeira erva

Quem nunca fumou ou teve alguém na família que o fez? Será que é caso mesmo de cadeia?

Os jovens estão, enfim, acordando. Ligam seus smartphones, acessam o Twitter, o Facebook e, de repente, entopem a praça Tahir, no Egito, dispostos a derrubar um ditador. Semanas depois, acampam nos espaços públicos de Madri, organizam o movimento 15-M, e balançam um regime democrático. Em São Paulo, na última semana, cinco mil jovens fizeram uma demonstração pacífica, também organizada pelas redes sociais. A Marcha da Liberdade, filha da “marcha da maconha”, proibida pela Justiça, defendia sim a descriminalização das drogas leves, mas muitas outras coisas, como o passe livre nos ônibus, o fim do crime de apologia – que para os jovens significa censura – e uma democracia mais direta, sem intermediários.

Um exemplo que deveria ser aplaudido por todos aqueles que, volta e meia, criticam o marasmo e a alienação da juventude. “Ah, mas isso é coisa de maconheiro, de vagabundo”, dirão alguns. Bom, mas que mal há em, pacificamente, defender a mudança da ordem estabelecida? A maconha é uma realidade que, em algum momento, passará pela vida de praticamente todos os jovens brasileiros. Atire a primeira erva aquele que nunca fumou ou nunca teve alguém na família que tenha tido contato com algum tipo de droga. Os jovens, simplesmente, não aceitam mais a hipocrisia.

Dias depois da Marcha da Liberdade, foi também lançado o documentário “Quebrando o Tabu”, protagonizado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Homem inteligente e quase sempre à frente de seu tempo, FHC sabe que os governos estão perdendo a guerra contra as drogas e que o apoio à descriminalização dos entorpecentes leves é a tendência social que mais cresce no mundo. Uma pesquisa recente do Pew Research, nos Estados Unidos, apontou que 44% dos americanos defendem a descriminalização – há 15 anos, eram apenas 16%. Portanto, a turma do “Yes, we cannabis” logo será majoritária.

Descriminalização, diga-se de passagem, não significa legalização. Apenas implica não tratar como criminoso comum o usuário de drogas leves. Aliás, será que países que já avançaram neste tema, como Portugal, Espanha, Holanda, Alemanha, Argentina, Uruguai e a própria Venezuela, estão todos errados?

Quem realmente se preocupa com esse tema deveria discutir outras questões. Como evitar o contato dos jovens com drogas mais pesadas e mais letais, incluindo o próprio álcool? Como equipar os centros de reabilitação? Como discutir o assunto com os filhos? Este é o debate maduro. E também não há nada mais anacrônico do que o crime de “apologia às drogas”. Como dizem os jovens, evitar que as pessoas se manifestem livremente sobre um determinado tema é censura sim.  


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