Comportamento

Androgenia na moda

Fashion Rio entra na onda de questionar as fronteiras entre o masculino e o feminino com modelo transexual e homem com cara de mulher na passarela

Androgenia na moda

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Lea T
-Brasileira
-29 anos
-Estrelou campanha da Givenchy e apareceu na
capa da revista “Love” beijando Kate Moss na boca

Andrej Pejic está na tradicional lista das 100 mulheres mais sexy do mundo da revista masculina “FHM”, um best-seller mundial. Ou estava. Seu nome acabou excluído porque Andrej Pejic é… homem. Mas não parece – mesmo. O modelo sérvio-australiano de 19 anos, longos cabelos loiros e traços delicados é exemplo de uma confusão de gêneros atualmente muito explorada pela moda. A androgenia de tops como ele, a tcheca Jana K e o australiano James Varley é celebrada por grifes do calibre da francesa Jean Paul Gaultier, para a qual Pejic já desfilou de vestido em Paris. Na edição mais recente do Fashion Rio, a semana de moda carioca, Pejic era a grande atração da apresentação da Ausländer marcada para o sábado 4, na qual vestiria roupas de homem e de mulher. Já a brasileira Lea T., 29 anos, que fará uma operação de mudança de sexo, brilhou na passarela e deixou a plateia boquiaberta ao encerrar o desfile da Blue Man de biquíni de lacinho sem nada a mais aparecendo. “Tem de puxar para trás, né? Aí, ou você prende com esparadrapo ou coloca uma calcinha apertada”, disse a filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo, que nasceu Leandro.

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James Varley
-Australiano
-22 anos
-Novato, ele segue o exemplo de Pejic e usa até
maquiagem para ressaltar os traços delicados.

A androgenia já havia feito certo sucesso nas passarelas nos 1990, mas, naquela época, compunha um visual nada saudável conhecido como “Heroin Chic”, de modelos esquálidos, pálidos e com olheiras. Hoje, argumentam os fashionistas, a intenção é questionar as fronteiras entre masculino e feminino. Se os papéis de homens e mulheres na sociedade já não são mais tão definidos, roupas e acessórios como gravatas e calças justas não precisam ser exclusivos para eles ou elas, afirma a consultora de moda carioca Patrícia Veiga: “Você já vê homens de bolsas, por exemplo. Os limites estão se rompendo cada vez mais.” E as grifes aproveitam para provar a versatilidade das peças que produzem.

Além disso, em tempos de luta pela liberdade sexual, a moda estaria também criticando o preconceito. “A aparência de Pejic foi um fator crucial para a contratação dele”, explica o estilista Ricardo Bräutigam, da Ausländer. “Nossa coleção é para jovens dominados pelo desejo de ser, fazer e absorver tudo ao mesmo tempo, que podem ser surfistas, fashionistas, nerds ou roqueiros, homem e mulher ao mesmo tempo”, acrescenta. De fato, modelos andrógenos não necessariamente são homossexuais. O sérvio, que se diz solteiro, afirma receber cantadas tanto de meninas como de meninos. “A indústria da moda é muito liberal. Você pode ser você mesmo. Só não pode estar acima do peso”, disse ele ao jornal britânico “Telegraph”.

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Andrej Pejic
-Sérvio-australiano
-19 anos
-Desfilou de vestido para a Jean Paul Gaultier e
fez campanha para a grife Marc Jacobs

Mas o visual andrógeno ainda causa bastante estranhamento entre o público em geral. Tanto é que duas das principais livrarias dos Estados Unidos, a Barnes and Nobles e a Borders, cobriram parcialmente a capa da revista “Dossier” com um plástico fosco. Isso porque a foto de Andrej Pejic maquiado e de camisa aberta poderia ser confundida pelos clientes com a de uma mulher nua. Prestes a fazer a cirurgia de mudança de sexo, Lea T. já aprendeu a lidar com esse tipo de reação. “Sempre vou ser uma transexual, mesmo após a cirurgia. Sou o que sou.”