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Hinos da discórdia

Com mensagens ultrapassadas ou preconceituosas, símbolos nacionais de países como o Peru e a Rússia têm letras contestadas

Hinos da discórdia

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ALIADOS
Militares peruanos saltam a estrofe criticada por Dávalos (abaixo)

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Consultor de empresas, o peruano Julio César Rivera Dávalos já investiu mais de US$ 100 mil do próprio bolso em um projeto audacioso. Dávalos quer mudar o hino de seu país, por considerá-lo alienante e ofensivo ao povo do Peru. Para isso, há mais de dez anos não perde uma oportunidade de discutir a questão, seja em palestras, seja em livros ou folhetos. O que mais o incomoda no hino criado em 1821 é a primeira estrofe, na qual o peruano é apresentado como um oprimido que sofre em silêncio uma cruel escravidão (leia quadro). Há poucos meses, o consultor conquistou aliados de peso: os militares deixaram de cantar esse trecho do hino. “Por gerar baixa autoestima, as Forças Armadas tomaram a iniciativa de não cantar a primeira estrofe”, diz Dávalos.

O movimento capitaneado por Dávalos no Peru tem similares em outras partes do mundo. Na França, há associações empenhadas em promover uma revisão da Marselhesa, composta em 1792. Seus integrantes consideram racista um verso que deseja um banho de “sangue impuro” sobre o solo francês. A maioria dos franceses, no entanto, não se sensibiliza com a ideia. No bilíngue Canadá, o problema é com a versão em inglês do hino, que não contempla as mulheres ao citar “inspiras verdadeiro amor pátrio em seus filhos”. No Turcomenistão, na Ásia Central, a polêmica foi resolvida há quatro anos, com a morte do presidente Saparmurat Niyazov, conhecido como Turkmenbashi. Autor do hino, o presidente adepto do culto à personalidade descreveu o país como “a grande criação de Turkmenbashi”. Assim que ele morreu, o verso foi mudado para “a grande criação do povo”.

Na Rússia também há controvérsia. O país já teve vários hinos, que variaram de acordo com o comando político – do czarismo ao comunismo, com variações nas letras nos tempos de Josef Stálin e de Vladimir Illich Lênin. Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o país adotou um canto patriótico composto no século XIX. Em 2000, o então presidente Vladimir Putin conseguiu trazer de volta o hino da época de Stálin, com a letra modificada. Um dos versos, porém, fala em terra “protegida por Deus”. “Os comunistas querem alterar esse verso para ‘guardada por nós a nossa terra’”, afirma o historiador Yuri Ribeiro Prestes, formado pela Universidade de Moscou. “Eles argumentam que o Estado russo é laico e a menção a Deus ofende os ateus.” Parlamentares comunistas já tentaram duas vezes mudar o verso. Não conseguiram, mas prometem não desistir do projeto. No Peru, Dávalos também não está satisfeito, embora boa parte das escolas do país esteja seguindo os militares e ignorando a estrofe polêmica. “Essas iniciativas são um paliativo para o problema”, defende Dávalos. “Minha proposta é uma mudança total da letra por um conteúdo que valorize o povo e a história peruanos.”

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