Comportamento

São Paulo sem Copa?

Como divergências políticas e o alto custo do estádio do Corinthians podem tirar o Mundial de 2014 da cidade mais rica do Brasil

São Paulo sem Copa?

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Manaus está distante do centro econômico do País, mas a cidade não corre o risco de ser excluída da Copa do Mundo de 2014. Cuiabá tem rede hoteleira precária, o que não atrapalha seus planos para receber o maior evento esportivo do planeta. Brasília nem sequer possui times de futebol de ponta e seu novo estádio certamente terá pouca serventia no futuro – mesmo assim, a capital federal está garantida como uma das sedes do torneio. Município mais rico do Brasil e o mais bem equipado em diversas áreas (ampla oferta de restaurantes, vida cultural intensa, três aeroportos com conexões para todas as regiões do País), São Paulo está ameaçada de perder a festa. Por mais absurdo que isso possa parecer, a possibilidade ganhou força nas últimas semanas. No dia 15 de maio, a Fifa anunciou a eliminação de São Paulo da Copa das Confederações em 2013, evento que funciona como um teste para o Mundial. Pouco depois, a entidade máxima do futebol oficializou que o centro de imprensa para a Copa será no Rio de Janeiro e não mais na capital paulista, como estava previsto. Na quarta-feira 1º, dirigentes da Fifa afirmaram que Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, quer São Paulo definitivamente fora da Copa. Desafeto da ala paulista dos tucanos (no governo Fernando Henrique, Teixeira foi alvo de uma CPI para apurar corrupção na CBF), ele teria intenções de atrapalhar os planos do governador Geraldo Alckmin, do PSDB. Os perigos são reais.“Até o dia 30 de julho, quando haverá uma reunião da Fifa, as autoridades paulistas precisam demonstrar a viabilidade de sediar o Mundial”, diz o ministro do Esporte, Orlando Silva. “Caso contrário, a Copa não vai acontecer em São Paulo.”

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INCERTEZA
Início das obras e a maquete do estádio do Corinthians:
dúvida é se estádio ficará pronto a tempo

Que erros a cidade cometeu? A confusão começou no ano passado, quando divergências entre o presidente da CBF e o São Paulo Futebol Clube, dono do Morumbi, acabaram com as chances de o estádio do clube ser utilizado para o Mundial. Em decisão conjunta, o governo do Estado, a prefeitura e a CBF decidiram que a nova arena do Corinthians, em Itaquera, na zona leste da cidade, seria o palco paulista para a Copa. Até aí, tudo bem. O problema é que as contas, como quase sempre acontece nesses casos, não fecharam. Orçado inicialmente em R$ 650 milhões, valor que o Corinthians diz ter levantado com empréstimo do BNDES e com Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CID) da Prefeitura de São Paulo, o Itaquerão vai custar mais de R$ 1 bilhão. Quem vai pagar a diferença na fatura? O Corinthians avisou que não dispõe do dinheiro. A CBF pressionou para que o Estado entrasse no jogo, mas Alckmin recuou depois de uma pesquisa encomendada por seus assessores ter revelado que 70% dos paulistas não querem recursos públicos destinados para um time de futebol – mesmo se isso representar a exclusão da cidade do Mundial. Procurado por ISTOÉ, Alckmin não se pronunciou.

Na semana passada, a construtora Odebrecht, responsável pelo Itaquerão, enviou 20 funcionários e duas escavadeiras para o terreno onde será erguida a arena. A pretexto de iniciar as obras – e aplacar a cobrança da imprensa –, as máquinas remexeram a terra, mas pouco trabalharam. A Odebrecht e o Corinthians estudam uma forma de diminuir o custo do projeto para R$ 700 milhões, o que resultaria na diminuição da capacidade do estádio de 65 mil para 45 mil pessoas. Se isso acontecer, o Itaquerão não terá o tamanho exigido para a partida inaugural da Copa. Mesmo se aparecerem os R$ 300 milhões que faltam para a arena cumprir as exigências da Fifa, é questionável que fique pronta a tempo. Segundo Frederico Barbosa, gerente de operações da Odebrecht, o estádio deve ser ­concluído em dezembro de 2013, ou seis meses antes da primeira partida da Copa. Isso, claro, se não aparecerem dificuldades comuns em obras desse porte, como acidentes, condições atmosféricas inadequadas, instabilidades no terreno e problemas no fluxo de pagamento. Para um engenheiro responsável pela construção de condomínios de luxo na Grande São Paulo que atua há 30 anos na área, um estouro de seis meses não só é aceitável como provável em projetos dessa dimensão. Tudo indica que a Copa em São Paulo está mesmo na marca do pênalti. 

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Para ingleses, Blatter está de palhaçada
Na quarta-feira 1º, o suíço Joseph Blatter (foto) foi reeleito presidente da Fifa para cumprir mandato até 2015. Blatter se manteve no poder apesar do escândalo de corrupção que envolve os altos dirigentes da entidade – inclusive ele próprio, acusado de fazer vistas grossas para a roubalheira. Segundo uma série de denúncias feitas por jornalistas ingleses, dez membros do Comitê-Executivo da Fifa participaram da compra e venda de votos para a escolha da sede dos Mundiais de 2018, na Rússia, e de 2022, no Qatar. Na semana passada, Jérôme Valcke, secretário-geral do órgão máximo do futebol e homem forte da Copa de 2014, também foi tragado pelo escândalo: em e-mail enviado a um funcionário, ele diz que o país árabe “comprou” a realização do evento. O curioso é que a mensagem foi revelada pelo próprio subordinado. O presidente da CBF Ricardo Teixeira também aparece no caso. Segundo David Triesman, ex-presidente da campanha inglesa pela sede da Copa de 2018, Teixeira tentou vender seu voto a favor da candidatura da Rússia.