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Entrevista

Geoffrey Rush

“Não tenho vergonha de me envolver com milhões de dólares”

“Não tenho vergonha de me envolver com milhões de dólares”

O intérprete do Capitão Barbossa em "Piratas do Caribe" quebra uma tradição de atores de formação erudita e diz que adora fazer filmes comerciais

Elaine Guerini, de Los Angeles
Edição 08.06.2011 - nº 2169

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O ator australiano Geof­frey Rush, 59 anos, tem uma formação erudita e aprecia interpretar personagens shakespearianos. Ganhou um Oscar com isso. Sua popularidade, contudo, foi con­seguida graças às superproduções de Hollywood. Rush está em cartaz com o filme “Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas”, blockbuster repleto de ação e efeitos especiais que já faturou mais de meio bilhão de dólares. Ele interpreta o Capitão Barbossa, que faz a alegria de crianças e adultos. Ao contrário de seus pares, que se orgulham de encarnar tipos complexos, Rush não tem vergonha de dar vida a um corsário saído de um parque temático da Disney. “Nunca fez mal a ninguém testemunhar co­mo um estúdio consegue fazer tanto dinheiro”, diz o ator. For­­mado em letras na Universidade de Queensland, onde nasceu, sabe contrabalançar a erudição com um saudável lado pop. Antes de “Piratas”, brilhou ao interpretar o fonoaudiólogo encarregado de curar a gagueira do soberano Geor­ge VI em “O Discurso do Rei”, filme mais premiado deste ano pela Academia de Hollywood. A peculiaridade do per­sonagem era justamente adorar a obra de William Shakespeare. Segundo Rush, é essa ligação com o dramaturgo que o tornou fascinado pela realeza britânica. Na entrevista a seguir, ele fala dessa admiração e admite que assistiu maravilhado ao casamento do príncipe William com Kate Middleton.

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"A família real inglesa consegue ser uma mistura
perfeita de novela e reality show televisivo"

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"William Shakespeare compreendia o encantamento
do público pela vida das pessoas mais privilegiadas"

ISTOÉ

O sr. ainda está sob o impacto do filme "O Discurso do Rei"? 

Geoffrey Rush

Sim. Até hoje é difícil acreditar que ele tenha conseguido uma recepção tão calorosa. 

ISTOÉ

Foi uma zebra tão grande assim? 

Geoffrey Rush

Não foi por isso. É porque tudo começou com o manuscrito de uma peça teatral enviada para a minha casa pelos Correios. 

ISTOÉ

Fale do início do projeto. 

Geoffrey Rush

Essa história improvável da amizade entre o rei e o terapeuta foi concebida inicialmente por David Seidler como peça. Eu recusei a oferta na época por conta de outros compromissos, mas liguei imediatamente para o meu agente em Los Angeles dizendo que tinha acabado de ler um dos melhores roteiros dos últimos tempos. Foi assim que o filme nasceu. 

ISTOÉ

Como avalia a fascinação que a realeza inglesa exerce em todo o planeta, a julgar pelo filme e pelo recente casamento do príncipe William com Kate Middleton? 

Geoffrey Rush

A família real inglesa consegue ser uma mistura perfeita de novela com reality show televisivo. 

ISTOÉ

O sr. assistiu à cerimônia? 

Geoffrey Rush

Como poderia perder? Eu fui um dos dois bilhões de telespectadores. A propósito, fiz as contas e não concordo com esse número oficial que eles divulgaram. Dois bilhões é exagero. Acredito que dois milhões de pessoas tenham assistido ao casamento, o que já é um fenômeno. 

ISTOÉ

Acha que é um exagero? 

Geoffrey Rush

Os EUA e a Europa devem mesmo ter visto o evento em peso, mas é demais achar que o Brasil, incluindo os índios da Floresta Amazônica, e todo o resto da América do Sul tenham acordado de madrugada só para isso. A cerimônia do Oscar, que também atinge a madrugada, é vista por cerca de um bilhão de telespectadores. 

ISTOÉ

Na Austrália, o sr. vota no Partido Republicano? 

Geoffrey Rush

Não tenho uma posição política forte, devo admitir. Também sou fascinado pela ideia da monarquia, que sempre terá o seu espaço na sociedade inglesa. O problema é que, apesar de a Austrália ter se emancipado, sinto que nós ainda não cortamos o cordão umbilical com o Reino Unido. 

ISTOÉ

Isso cria dificuldades para os atores australianos, pela grande influência de William Shakespeare? 

Geoffrey Rush

Talvez, especialmente para os atores com raízes no teatro. Livros que estudam a obra de Shakespeare continuam a ser publicados. Mesmo que essas obras cheguem ao mercado só para questionar se ele escreveu mesmo todas as peças, a sua influência ainda é incontestável. 

ISTOÉ

Shakespeare entendia o apelo que reis e rainhas sempre exerceram sobre as pessoas. Digamos que ele teria assistido ao casamento do príncipe William. 

Geoffrey Rush

Ele compreendia esse encantamento do público pela vida dos privilegiados. Essas pessoas que, aos nossos olhos, têm tudo para ser mais felizes do que nós, embora muitas vezes não o sejam. A minha conexão com a família real se deu pela obra de Shakespeare. Por ele mergulhar nos bastidores da realeza e por mostrar como a coroa passou de uma geração a outra, muitas vezes pelo uso da violência ou da fraude. 

ISTOÉ

Pretende fazer mais obras baseadas em suas peças? 

Geoffrey Rush

Acabei de rodar na Austrália, com o diretor Fred Schepisi, uma adaptação de “The Eye of the Storm’’, obra de Patrick White, autor premiado com o Nobel de Literatura. Não é um Shakespeare, mas é impossível não pensar em “Rei Lear”. Trata-se da história de dois filhos que não veem a hora de a mãe morrer. Meu personagem é um ator expert em Shakespeare. 

ISTOÉ

Sua formação clássica o afasta de temas contemporâneos? 

Geoffrey Rush

É verdade. 

ISTOÉ

Até nos figurinos. 

Geoffrey Rush

São geralmente figurinos de época, que muitas vezes me deixam com cara de palhaço quando os visto. Em “Piratas do Caribe’’, por exemplo, por mais que seja puro entretenimento, houve um sério trabalho de pesquisa em relação aos figurinos. 

ISTOÉ

Como o sr., um ator na linha de Shakespeare, se vê fazendo filmes comerciais como “Piratas do Caribe”? 

Geoffrey Rush

Não tenho vergonha de participar de uma superprodução de Hollywood e me envolver com milhões de dólares. Não faz mal a ninguém testemunhar como um estúdio pode ganhar tanto dinheiro. 

ISTOÉ

Como avalia a imagem que a Disney vende dos piratas na franquia? 

Geoffrey Rush

Não foi o estúdio que amaciou a imagem dos piratas. Eles sempre existiram como criaturas cruéis, e sua glória foi durante o período imperial, quando alguns países da Europa saíam com suas embarcações para colonizar o resto do mundo. Foi a literatura que criou essa mitologia em torno deles. Desde que Robert Louis Stevenson escreveu “A Ilha do Tesouro’’ e J. M. Barrie criou o Capitão Gancho no livro “Peter Pan”, esses ladrões do mar se tornaram muito populares. As crianças adoram imitá-los nas festas à fantasia. 

ISTOÉ

O que acha da ação de piratas reais, como os somalis que agem no Oceano Índico? 

Geoffrey Rush

É uma situação desesperadora. Eles usam uma metodologia brutal que é a mesma de 500 anos atrás. Naquela época, tinha mais a ver com o valor das mercadorias que estavam em trânsito nos navios colonizadores. Hoje o problema persiste pela discrepância econômica entre os países. 

ISTOÉ

Como explica o fato de o personagem bêbado e mulherengo de Johnny Depp em “Piratas do Caribe” ter se tornado um herói? 

Geoffrey Rush

Ninguém poderia imaginar a popularidade que o personagem alcançaria, principalmente por ser um anti-herói. Ele não consegue se comportar nem em terra nem no mar. Mas, por trás desse pirata insolente, há um homem que preza a liberdade mais que tudo na vida. E isso é muito atrativo. Os heróis mais clássicos simplesmente não fazem mais sentido nos dias de hoje. A ironia é um componente muito forte no pensamento contemporâneo. 

ISTOÉ

De que tipo de heróis o mundo precisa? 

Geoffrey Rush

O que nos falta são figuras públicas vigorosas e dinâmicas, com ideias realmente audaciosas e revolucionárias. O que vemos hoje são personalidades que se mostram inicialmente diferentes, mas, ao longo do tempo, fica claro que são idênticas às de sempre. Políticos falam muito, mas não querem mudar nada que está errado. 

ISTOÉ

O sr. revelou recentemente que sofreu de ataques de pânico. 

Geoffrey Rush

Durante os anos 1990 vivi um período complicado. Não era o característico medo do palco, fase que os atores no começo da carreira precisam aprender a superar. Por estresse ou ansiedade, o meu corpo entrou em choque em algumas ocasiões. Quando isso acontece, você precisa sair correndo do lugar onde está. Tudo o que você procura é a placa de saída. 

ISTOÉ

Como o sr. se curou dessa sensação de pânico? 

Geoffrey Rush

Com o tempo o problema simplesmente desapareceu. 

ISTOÉ

Só falta o sr. conquistar um Grammy para se tornar um Egot (atores que já ganharam um Emmy, um Grammy, um Oscar e um Tony). Isso causa ansiedade? 

Geoffrey Rush

Como não canto, acho que vou ficar com o EOT mesmo. 

ISTOÉ

Com o estresse, pensou em diminuir o ritmo de trabalho? 

Geoffrey Rush

Já sinto algumas dores, mas nada demais. As pessoas geralmente me perguntam: para ficar em forma, frequenta academia de ginástica? Mal elas sabem que o trabalho de ator já é a minha ginástica. Se eu fizesse mais exercícios, dormiria na hora de atuar. 

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