Artes Visuais

Caixas de memória

LEA VAN STEEN - COLEÇÃO PARTICULAR/ Mônica Filgueiras Galeria de Arte, SP/ até 15/6

Caixas de memória

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Há vários anos, Lea van Steen mantém como hábito diário a missão de capturar com sua câmera de vídeo os momentos considerados inspiradores. Encontrar poesia num mundo onde nem mesmo os acontecimentos mais frívolos escapam da cultura voraz de registros é o que Lea busca em seu trabalho. Sua atividade cotidiana pode ser definida como uma espécie de documentarismo lírico. Em sua primeira individual, intitulada “Coleção Particular”, Lea organiza suas imagens colecionadas em 11 trabalhos, realizando também uma reflexão sobre a própria necessidade de produzir imagens. Na obra “Jukebox” (foto), ela estende essa reflexão para a cultura digital contemporânea. “O Jukebox é como se fosse um YouTube particular. No YouTube, encontramos esse enorme banco de vídeos pessoais extremamente precários, que são vistos por milhões”, comenta. Nesta obra, Lea literalmente transpõe para um jukebox uma série de vídeos caseiros que, quando escolhidos pelo público, são automaticamente replicados no ambiente por um globo de espelhos como o de uma discoteca. “É como se o globo conferisse um glamour para essas imagens amadoras”, explica.

Na exposição, é possível discernir também o argumento sobre a impossibilidade de armazenar o tempo. Dispostas por meio de oito vídeos-objeto, como se fossem porta-retratos, cenas do voo de gaivotas, da chuva caindo e de golfinhos nadando são instantes transformados em movimento e para sempre apreendidos. Já em “Favela”, a indagação em relação ao tempo é transferida para a observação de um contexto social. Entre 2009 e 2010, Lea registrou as mudanças acontecidas na antiga av. Água Espraiada, localizada na zona sul de São Paulo, hoje av. Jornalista Roberto Marinho. Na instalação, dois vídeos simultâneos mostram a transformação do lugar onde antes havia uma favela e agora abriga a construção de um complexo de edifícios comerciais. “A ideia é ver as transformações acontecidas em um ano, por meio dos mesmos takes e enquadramentos”, afirma. Além das 11 obras, a artista realizou a ação “Chuva” no dia da abertura, em que a imagem da chuva foi projetada em um guarda-chuva oferecido ao público.