Artes Visuais

Uma semente aberta

A multidisciplinar Lygia Pape, que inaugurou a arte contemporânea brasileira e atuou entre 1950 e 2004, ganha retrospectiva na Europa

Uma semente aberta

Lygia Pape/ Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri/ de 24/5 a 12/9/ Serpentine Gallery, Londres/ de 7/12 a 19/2/2012/ Pinacoteca de São Paulo/ março de 2012

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OURO
Instalação “Ttéia”, montada na última Bienal de Veneza, possui efeito de materialização da luz

“Uma semente permanentemente aberta.” Assim Hélio Oiticica, com quem Lygia Pape formou o Grupo Frente no começo dos anos 1950 e com quem fundou o movimento neoconcreto, em 1959, descreveu a obra de sua companheira de ofício. A definição é precisa. Em seus 50 anos de atividade artística, Lygia Pape (1927–2004) sempre foi pioneira. Os grandes marcos da história recente da arte brasileira podem facilmente ser visualizados a partir de sua trajetória. Essa história de conquista de novos terrenos é descrita em 250 obras – pinturas, relevos, xilogravuras, registros de ações performáticas, filmes, cartazes de cinema, poemas, colagens e documentos – na grande retrospectiva organizada pelo Museo Reina Sofía, de Madri, e o Projeto Lygia Pape.

A exposição, a primeira da artista na Europa, vem cobrir uma lacuna. Seu reconhecimento internacional ocorre, como foi com Hélio Oiticica e Lygia Clark, postumamente à sua morte, mas segue bons ventos recentes, como a menção especial à instalação “Ttéia 1”, na 53ª Bienal de Veneza, em 2009, e a aquisição de um de seus desenhos em tinta pela Tate Modern, de Londres. Com curadoria dos espanhóis Manuel Borja-Villel e Teresa Velázquez, a exposição tem entre seus destaques os filmes experimentais realizados entre 1967 e 1976, nunca antes mostrados em conjunto.

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PIONEIRA
Lygia Pape tem finalmente seu trabalho reconhecido internacionalmente

Essa “história da arte brasileira”, segundo Lygia Pape, começa com as pinturas abstratas de tendência orgânica, realizadas quando a artista integrava o Grupo Frente. A guinada para a geometria como caminho de experimentação ocorre com força na segunda metade da década de 1950, quando realiza os “Ballets Neoconcretos I e II”. Com a tradução musical de um poema e a colocação das formas geométricas em movimento no espaço tridimensional de um palco, Lygia dava o passo definitivo para a instauração da arte contemporânea brasileira: o neoconcretismo.

As conquistas neoconcretas – especialmente a participação do público na obra – continuariam guiando a trajetória da artista, mesmo depois da dissolução do grupo, em 1963. Foi aí que Lygia se lançou à experimentação com outras mídias, como o cinema, o vídeo e as artes gráficas, produzindo os letreiros de “Deus de o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, e o cartaz de “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

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EQUILÍBRIOS
A geometria está nas primeiras pinturas dos anos 1950

Os anos de chumbo invadiriam a obra de Lygia Pape com a mesma força da chegada da Nova Objetividade ao seu trabalho, e ela investiria, como metáforas da situação política, em obras de efeito repulsivo como “Caixa de Baratas” (1967) e “Caixa de Formigas” (1967). Finalmente, as instalações “Ttéias” formam o núcleo da mostra. Sua centralidade é um claro eco da realidade: os efeitos da luz dourada de “Ttéia 1” (2002) chamaram a atenção do mundo na 53ª Bienal de Veneza. A exposicão viaja para a Serpentine Gallery, em Londres, antes de chegar à Pinacoteca de São Paulo, em março de 2012.