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Uma morte sem corpo

A decisão americana de não apresentar nenhuma prova concreta da morte de Osama pode criar um mito messiânico entre os seguidores do terrorista saudita

Uma morte sem corpo

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CENÁRIO
O quarto onde Osama bin Laden foi morto

A umidade, como sempre, era palpável e os termômetros marcavam cerca de 30 graus centígrados no norte do Mar da Arábia quando um helicóptero Black Hawk pousou no deck do superporta-aviões nuclear Carl Vinson, na segunda-feira 2. A pequena tripulação desembarcou rapidamente a carga preciosa que trazia do vizinho Paquistão: o corpo de Osama bin Laden. Entre os 3,5 mil homens e mulheres que trabalham embarcados no Carl Vinson, apenas um pequeno e seleto grupo sabia que ali estavam os restos mortais do mais letal e conhecido terrorista dos tempos modernos. Depois de submetido a testes de DNA e de reconhecimento facial, rapidamente o corpo, que já havia sido lavado segundo os preceitos islâmicos e envolto em um lençol branco, foi colocado em um saco junto com pesos. O pequeno grupo, então, dirigiu-se para uma das laterais do porta-aviões, textos religiosos foram lidos e, simultaneamente, traduzidos para o árabe por um nativo, provavelmente um soldado americano. Ao fim das preces, o saco foi colocado sobre uma prancha de madeira e então jogado ao mar. Em poucos segundos o corpo de Osama bin Laden venceu os 40 m do calado a meia-nau do Carl Vinson e desapareceu nas águas calmas do Mar da Arábia.

Diante daqueles poucos homens, encerrava-se em definitivo a história do saudita de 54 anos recém-completados em março, que em menos de duas décadas chacoalhou o planeta, foi responsável direto pela morte de pelo menos quatro mil pessoas e fez a maior potência econômica do mundo meter-se em dois atoleiros militares. A mítica de Osama, no entanto, começava a ganhar, naquele momento, uma nova dimensão, ainda imprevisível. Sem corpo, sem fotos, em uma ação repleta de relatos desencontrados, aceitar sua morte é quase um exercício de fé no governo dos Estados Unidos. Até agora, o mundo não foi apresentado a nenhuma prova concreta de que ele foi morto. O indício mais contundente de seu desaparecimento encontra sustentação apenas na credibilidade do presidente americano Barack Obama, que já afirmou que não divulgará nenhuma imagem do corpo do terrorista na sexta-feira 6 a Al Qaeda admitiu a morte de seu líder.

Diante da magnitude e do significado da morte de Osama bin Laden para o Ocidente, é quase impossível acreditar que o governo americano não tenha certeza absoluta de que o corpo jogado ao mar na madrugada de segunda-feira não seja o do criador da Al-Qaeda. O mistério sobre a morte do homem por trás dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos faz parte da estratégia americana de mitigar os riscos colaterais que a ação pode trazer. A ideia de jogá-lo no mar está ligada diretamente à intenção de não se criar um local de peregrinação. Os russos fizeram isso em 1945 ao dinamitar o bunker em que Adolf Hitler passou seus últimos dias e, ao final, suicidou-se com Eva Braun. Não mostrar a foto do corpo de Bin Laden deformado por balas de fuzil, que fazem um estrago e tanto, principalmente quando atingem o crânio de um ser humano, faz parte de um plano para não despertar mais ódio no mundo árabe.

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Para os americanos, pouco importa se fotos do corpo de Osama serão reveladas

Mas é indubitável que a ausência de provas concretas do assassinato de Osama bin Laden desperte, em especial no mundo árabe, dúvidas das mais variadas. Não será raro, também, que movimentos messiânicos ganhem espaço entre seus seguidores, aguardando o ressurgimento triunfal de Osama. “A falta de um corpo dificulta ou muitas vezes impossibilita o processo de aceitação da morte”, diz a psicóloga Lucy Maíra Arantes, coordenadora do grupo de luto da Clínica de Psicoterapia de São Paulo.

A história está repleta de casos de negação coletiva a respeito do desaparecimento de figuras míticas. O caso mais célebre talvez seja o rei português dom Sebastião I, o último monarca da dinastia Avis. Sua coroação foi vista em Portugal como a última saída para que o reino não fosse tomado por Felipe II, rei de Castela, e o segundo na linha de sucessão da Coroa Portuguesa. Aos 24 anos, dom Sebastião decidiu invadir o Marrocos em uma espécie de Cruzada particular, na qual acabou morto em 1578. As tropas portuguesas derrotadas voltaram sem o corpo do soberano. Rapidamente espalhou-se a lenda de que dom Sebastião não havia morrido e em breve retornaria para retomar a Coroa Portuguesa, nas mãos dos espanhóis desde sua morte. O movimento messiânico foi batizado de Sebastianismo, ganhou ares políticos e foi exportado para o Brasil. Na Guerra dos Canudos, 300 anos depois, muitos dos soldados de Antônio Conselheiro aguardaram a volta do rei para ajudá-los na luta contra o que chamavam de a “república ateia” brasileira.

O mundo árabe vive um momento de transformação profunda neste início de década e é incerto ainda se Osama bin Laden se tornará uma espécie de dom Sebastião para os muçulmanos. Mas não há dúvidas de que, entre aqueles que defendem uma guerra santa contra o ocidente, a lenda de que sua morte foi apenas uma invenção americana e ele resurgirá em algum ponto das montanhas afegãs há de ganhar espaço e perdurar por muitos anos.

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