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A hora da ação

Na tarde do domingo 1º, após quase dez anos de busca, duas guerras sangrentas, centenas de milhares de mortos e gastos de mais de US$ 1 trilhão, terminava a maior caçada humana da história moderna

A hora da ação

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TENSÃO
Obama e seus principais conselheiros acompanham
o desenrolar da ação que matou Osama bin Laden

Por 38 minutos da tarde do domingo 1º, o mundo entrou em suspensão para o presidente americano, Barack Obama, e seus principais conselheiros. Apinhados na chamada Sala da Situação da Casa Branca, ele e outros 13 integrantes do Conselho de Segurança Nacional americano acompanharam com indisfarçável apreensão a maior e mais complexa operação secreta realizada pelos Estados Unidos desde o fim Guerra Fria. Sentados lado a lado, Obama e o vice-presidente, Joe Biden, mantiveram por todo o tempo o ar circunspecto e os olhos grudados em um monitor de televisão, em que o diretor da CIA, Leon Panetta, ia relatando segundo a segundo o que estava ocorrendo na pequena cidade de Abbottabad, no distante Paquistão, onde a madrugada da segunda-feira 2 já havia chegado. Biden, por vezes, tentava dissipar a tensão acariciando um terço com a imagem de Cristo. A secretária de Estado Hillary Clinton, por sua vez, não conseguiu esconder a tensão, impressionada com os relatos de Panetta. “Foram os 38 minutos mais intensos da minha vida”, relatou a secretária de Estado alguns dias depois, em Roma. Naquele domingo de primavera em Washington, a tensão só se dissipou quando Panetta disse, calmamente: “Gerônimo Ekia” (inimigo morto em combate, na sigla em inglês). Ao ouvir o código secreto que indicava a morte de Osama bin Laden, Obama cortou o silêncio que dominava a sala com uma frase simples, porém definitiva: “Pegamos ele.”

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O mundo árabe acompanha o anúncio do fim de uma caçada iniciada pelos EUA há uma década

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Terminava naquele momento a mais longa e mais cara caçada humana da história moderna. Nunca um só homem mobilizou tantos recursos, sejam humanos, sejam financeiros, em sua perseguição como Osama bin Laden o fez. Foram quase dez anos, duas guerras sangrentas, centenas de milhares de mortos e mais de US$ 1 trilhão gastos para capturar o homem que impôs a maior humilhação militar da história dos Estados Unidos, superior até mesmo aos ataques japoneses ao porto de Pearl Harbor, em 1941, no Havaí. Na­quela tarde em Washington, Obama sabia que os Estados Unidos nunca haviam estado tão próximos de Osama e se conseguisse capturar seu quase xará entraria para a história e conseguiria aliviar toda a pressão política dos últimos meses. Muito estava em jogo naquela operação e lembranças de uma frustrada ação semelhante no Irã devem ter permeado a cabeça do presidente americano. Em abril de 1980, o então presidente Jimmy Carter autorizou uma operação especial para resgatar 52 americanos presos na embaixada dos EUA em Teerã. No fim, tudo deu errado. Uma aeronave caiu, soldados americanos morreram e Carter foi derrotado por Ronald Reagan nas eleições seguintes.

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RAIVA
Morte de Osama despertou a ira de simpatizantes do terrorista em países árabes

Por isso, quando Panetta disse “Gerônimo Ekia”, uma sensação de alívio tomou conta da Sala de Situações da Casa Branca. Todos ali sabiam que capturar Bin Laden era um objetivo muito mais simbólico do que pragmático na guerra ao terror iniciada por George W. Bush. Mas havia tempo que os Estados Unidos não davam uma demonstração de força como o fizeram na captura de Bin Laden e isso era fundamental tanto para o país quanto para a administração Obama, que enfrentará uma dura reeleição no ano que vem. A morte de Bin Laden foi a coroação de um vasto e competente trabalho de inteligência da CIA, que ao longo de quase dez meses monitorou de forma paciente o ex-veterano da guerra do Afeganistão Abu Ahmad, um dos assistentes mais próximos de Bin Laden. Após meses de vigilância insistente, Ahmad finalmente levou os agentes americanos até a casa de Abbottabad. E foram mais alguns meses de estudos, acompanhamentos, campanas e investigações até que a CIA tivesse quase certeza de que naquele complexo encravado em meio a quartéis das Forças Armadas paquistanesas a menos de uma centena de quilômetros de Islamabad estava escondido o homem mais procurado da história.

Obama só se convenceu de que era o momento de agir na sexta-feira 29. Enquanto o mundo assistia ao casamento do herdeiro da coroa britânica com uma plebeia de origem humilde e porte de rainha, Obama anunciava sua decisão ao Conselho de Segurança Nacional americano. Ele havia decidido que era hora de atacar.

A decisão tomada por Obama naquela manhã continua gerando controvérsias mundo afora. Para grupos de direitos humanos, os Estados Unidos agiram como um grupo terrorista ao invadir o Paquistão e simplesmente assassinar cinco pessoas. É bem verdade que a ação faz lembrar a atitude arrogante com que os Estados Unidos trataram países latino-americanos nos tempos áureos da CIA, nas décadas de 60 e 70. Mas é verdade também que críticas como essa carregam uma boa dose de hipocrisia. Ninguém podia esperar que o lider de uma organização internacional recebesse uma formal ordem de prisão. Osama era um alvo de guerra legítimo.

Era noite de domingo na cidade afegã de Jalalab quando os quatro helicópteros Black Hawk, com cerca de 80 agentes Seals decolaram em direção a Abbottabad para executar o plano traçado pela CIA. Em poucos minutos, já na madrugada de segunda-feira, estavam sobre a casa em que Bin Laden se escondera pelos últimos cinco anos. A última das várias versões oficiais, quase sempre desencontradas, dão conta de que os agentes encontraram resistência armada de apenas um dos três homens que acompanhavam Bin Laden. Ele foi morto com facilidade. Entraram na casa de três andares e eliminaram ainda um filho do terrorista, uma mulher e um outro homem. Só foram encontrar Bin Laden no terceiro andar da residência, desarmado. Segundo o governo americano, ele teria uma pistola e um fuzil AK-47 ao alcance das mãos. Recebeu um tiro na região do olho esquerdo. A bala, provavelmente disparada por um fuzil, esfacelou parte de seu crânio. De acordo com relatos de quem viu as imagens da ação, partes do cérebro do homem que.planejou o maior ataque terrorista da história ficaram espalhados pelas paredes do quarto em que viveu nos últimos anos.

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Esconderijo insuspeito
A casa onde Osama se escondeu nos últimos anos ficava em uma região repleta de militares e quartéis das forças armadas paquistanesas. O complexo, avaliado em US$ 250 mil, foi atacado por quatro helicópteros Black Hawk ocupados por agentes Navy Seals, das Forças Especiais americanas. Uma das aeronaves apresentou problemas técnicos e foi destruída pelos soldados americanos

 

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OSAMA E SADDAM
McRaven caçou e capturou os dois maiores inimigos americanos

O caçador implacável
O mundo talvez nunca saiba quem foi o homem que atirou e matou Osama bin Laden. Mas, na semana passada, uma das estrelas da operação que eliminou o antigo chefe da Al-Qaeda teve a sua identidade revelada. Trata-se do vice-almirante da Marinha americana William McRaven, comandante das Forças Especiais dos Estados Unidos. Foi ele quem liderou os Seals, a tropa de soldados das Forças Especiais da Marinha durante toda a operação que culminou com a morte de Bin Laden. Formado em jornalismo e natural da cidade de Santo Antonio, no Texas, McRaven tem 55 anos e é descrito pelos colegas das Forças Armadas como o mais inteligente e implacável Seal de todos os tempos. McRaven foi convocado para a missão em Abbottabad, pelo atual presidente da CIA, Leon Panetta, em fevereiro deste ano. O vice-almirante detém ainda no currículo outro importante feito: a captura, em 2003, do ex-ditador do Iraque Saddam Hussein.

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