Edição nº2476 26.05 Ver edições anteriores

Um salto para a democracia

Aos 39 anos e vivendo nos arredores de Londres, este aparentemente inofensivo australiano frequenta as mesmas listas que tinham Bin Laden na primeira linha

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Agora que Bin Laden parece ter sido riscado da lista, é razoável supor que este aparentemente inofensivo jovem senhor caucasiano, saltitando alegremente sobre a cama elástica e falando ao celular numa casa de campo, tenha escalado o topo do ranking dos homens mais temidos, procurados e vigiados pelos EUA. Estamos falando de Julian Assange, o australiano de pele quase tão transparente quanto o serviço que criou em 2006, o WikiLeaks, organização internacional que cuida de divulgar documentos e informações que, pela vontade de seus autores e protagonistas, deveriam ser mantidos em sigilo eternamente. O slogan do grupo resume: “Nós abrimos governos.” Pelo WikiLeaks, o mundo tomou conhecimento, por exemplo, das “estratégias diplomáticas pouco usuais” adotadas pelo Estado americano para interagir com praticamente todos os governos do mundo. O chamado “cablegate” divulgou mais de 250 documentos que partiram dos EUA, dirigidos a centenas de países e lideranças, incluindo o Brasil. Pela divulgação desses documentos que comprometem gravemente a já frágil credibilidade da política externa americana, Assange foi declarado um dos maiores inimigos dos EUA. Foi chamado, sem pudor, de terrorista por democratas, republicanos, jornalistas e muita gente influente pelo mundo. Mas o que faz dele um “terrorista”, digno de visita dos Navy Seals, se nunca executou nem sugeriu qualquer ato violento? Ao escancarar a incoerência (para dizer o mínimo) de líderes que mantêm sangrentos segredos em nome da democracia, Assange obriga os governos do mundo a se olharem no espelho.

Utilizando a possibilidade digital de distribuir informação sem filtros ou mediadores, joga a verdade no ventilador. Mostrou que, no mundo conectado, nem a tão discutível maior potência do mundo tem condições de mentir para manter o, sempre ilusório, controle. As torres que Assange quer derrubar são as antes intransponíveis barreiras entre o que o poder diz nos gabinetes e na frente das câmeras. Eis seu “terrorismo”.

E cabe outra reflexão: será que em 2011 ainda deveríamos precisar de alguém para nos provar que a noção de controle absoluto é uma ilusão absoluta? Quando se veem alguns dos principais líderes mundiais defendendo a ideia de que o poderio militar e o uso institucionalizado da violência são as melhores garantias de paz, equilíbrio, estabilidade e justiça para o mundo, a palavra sim, desgraçadamente, ainda parece surgir como a resposta da maioria.

Assange está hoje numa situação entre a prisão domiciliar e a liberdade condicional vigiada. Carrega uma tornozeleira eletrônica que monitora seus passos e aguarda o resultado do julgamento do pedido de extradição do governo sueco. Ele é acusado do suposto estupro de duas mulheres. Seu crime teria sido fazer sexo sem preservativos, o que por lá pode ser considerado um tipo de agressão sexual.

Enquanto isso, vive acuado, trabalhando com sua equipe numa velha casa de campo em Diss, cidadezinha a 150 km. de Londres. Foi lá que Julian recebeu de forma bastante hospitaleira, considerando as condições em que se encontra, o jornalista Lino Bocchini e a fotógrafa Eliza Capai, que voltaram não só com imagens inéditas como a que você vê aqui, mas também com a única entrevista que Assange concedeu pessoalmente ao Brasil. A entrevista estará nas bancas na semana que vem, nas páginas da “Trip”, mas você vê antes aqui na IstoÉ, algumas das declarações de um dos homens mais perseguidos do mundo: “Defendemos um conceito simples, mas abstrato: a verdade é o único ingrediente realmente útil na hora de tomar decisões. Então trazer o máximo de informação real à tona é o jeito certo de decidir as coisas.”

“Acho a politização da juventude conectada à internet a coisa mais significativa que aconteceu no mundo desde 1960.”

“O Brasil é um poder alternativo bem interessante na região, a ponto de que, nas Américas, há os Estados Unidos e há o Brasil. Vocês são indiscutivelmente a nação mais independente da região fora os Estados Unidos, e isso traz um equilíbrio de poder vital.”

“Não é verdade que temos tanto poder. O WikiLeaks não é uma organização poderosa. Se nós fôssemos uma organização tão forte assim, eu não estaria em prisão domiciliar.” “Transparência é para os governos, para as grandes organizações. Privacidade é para os indivíduos. Transparência tira o poder das organizações poderosas e o confere a quem não tem.”


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