Comportamento

À caça da viúva negra

Quem é e quais são os métodos de atuação da advogada gaúcha Heloísa Borba Gonçalves, acusada de matar quatro maridos

À caça da viúva negra

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PERIGO
Heloísa e o marido Wagih Murad, que foi morto a tiros.
Abaixo, o filho dele, Eli, que sofreu um atentado

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Não é comum uma senhora de 61 anos figurar na lista dos bandidos mais procurados pela Justiça. Mas o histórico de crimes da advogada gaúcha Heloísa Borba Gonçalves (que usa pelo menos outros quatro nomes) justifica o fato de oferecerem por ela a maior recompensa para um foragido do Estado do Rio de Janeiro. O Disque-Denúncia fluminense irá pagar R$ 11 mil por informações que levem à captura dela, sumida desde 2004. É mais do que o dobro oferecido pelos maiores traficantes cariocas fugitivos: Fabiano Atanázio, o FB da Vila Cruzeiro, e Francisco Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, cujas cabeças valem R$ 5 mil cada uma. Há motivos para isso. Esta senhora matou quatro maridos e os familiares deles é que engordaram a quantia inicial de R$ 2 mil oferecida pela sua captura. “Parentes das vítimas dessa mulher nos procuraram e decidiram aumentar a recompensa”, conta o coordenador do Disque-Denúncia do Rio, Zeca Borges.

Heloísa já foi condenada a 12 anos de prisão por bigamia, fraude e falsidade ideológica, mas jamais foi encontrada para cumprir a pena. É conhecida como “Viúva Negra” pela crueldade das mortes atribuídas a ela. Um dos maridos, o coronel do Exército Jorge Ribeiro, foi morto a marretadas em fevereiro de 1992, aos 54 anos, em seu escritório, em Copacabana. Ele tinha o apelido de “O rei dos telefones” porque, no passado, acumulou riqueza comprando e vendendo linhas telefônicas. Em 1993, foi a vez do empresário libanês Wagih Elias Murad, que viveu com ela oito meses, ser morto a tiros, aos 84 anos, na Barra da Tijuca. O filho dele, o administrador de empresas Eli Murad, 45 anos, acredita que Heloísa foi a mandante. “Quando ele descobriu o passado dela, foi executado”, diz.

O próprio Eli, que chamava Heloísa de madrasta, também sofreu um atentado cinco meses após o assassinato do pai. Ele sobreviveu, mas seu segurança não teve a mesma sorte. “Meu carro foi fechado e dois homens saltaram disparando. Me acertaram na nuca e perdi os sentidos. Meu segurança morreu na emboscada.” Eli tem certeza de que o crime foi encomendado por Heloísa. “Ela sabia que eu havia contratado pessoas para investigá-la e provar seu envolvimento na morte do meu pai.” A “Viúva Negra” é descrita, claro, como uma pessoa envolvente, simpática, agradável e inteligente. Não é bonita, tem 1,60 m de altura e sempre esteve acima do peso. “É muito carismática, não aparenta riscos. Sempre muito bem arrumada, não dava motivos para desconfiança”, afirmou a promotora de Justiça Patrícia Glioche, responsável pela acusação contra Heloísa no julgamento marcado para 25 de julho no Tribunal de Justiça do Rio. Interrogada uma única vez sobre a morte do coronel, Heloísa negou sua participação, alegando que quando saiu do escritório o marido estava vivo.

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A carreira de viúva de Heloísa se iniciou no Rio Grande do Sul, em maio de 1972. Com 22 anos ela tentou o primeiro golpe ao registrar, em Porto Alegre, sua filha, Vitória, como sendo filha também do médico Guenter Joerg Wolf. Detalhe: ele havia morrido seis meses antes, num acidente de carro, em Taquara, a 70 quilômetros da capital gaúcha. A família recorreu. Depois, ela foi acusada de tentar matar o então marido, o advogado Carlos Pinto da Silva, em 1977. Na ocasião, ele levou cinco tiros na porta do hotel onde o casal estava hospedado, em Salvador. Com a ficha suja no Sul, a criminosa se mudou para o Rio de Janeiro, em maio de 1983, e aumentou sua folha corrida. Casou-se com Irineu Duque Soares, um securitário de 41 anos, que morava sozinho em Ipanema e foi assassinado cinco meses após o matrimônio, num suposto assalto. Heloísa estava com ele e nada sofreu.

Oito anos se passaram até que outro marido de Heloísa viesse a falecer, o empresário sírio Nicolau Saad, 71 anos, de quem ela herdou um fabuloso patrimônio de imóveis em bairros nobres do Rio. Saad foi encontrado morto em seu apartamento, no Leblon, em dezembro de 1991. Ele e Heloísa tinham se casado um ano e meio antes. Só que ela já era casada com o coronel do Exército Jorge Ribeiro, a quem conhecera numa igreja católica em Ipanema. Além disso, Heloísa registrou um menino, Marcelo, como sendo seu filho e também destes dois homens. O primeiro registro de nascimento foi feito em 31 de julho de 1990, como sendo filho de Nicolau Saad. O segundo, em 13 de agosto de 1990, tendo Jorge Ribeiro como pai.

Segundo um dos sobrinhos de Saad, o administrador de empresas Carlos Simas, Heloísa apresentou duas versões para a morte do marido: contou que Saad morrera atropelado por um ônibus e depois disse que ele morreu engasgado ao tomar um suco de laranja. “Meu tio estava com um dos braços quebrados. Será que ele não foi forçado a beber alguma coisa?”, questiona Simas, lamentando o fato de a polícia nunca ter se interessado em investigar a morte do tio. Segundo o sobrinho, Heloísa parecia ser uma boa pessoa. “É uma mulher muito envolvente e a impressão que a gente tinha era que meu tio estava muito bem ao lado dela”, diz. A família continua brigando na Justiça para reaver os imóveis, cujos rendimentos dos aluguéis deve chegar a R$ 140 mil por mês. É difícil sair da teia da viúva negra.

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