Brasil

Laboratório paulista

A partir de uma briga regional, políticos de vários partidos promovem uma reforma que não passa pelo Congresso e nem atende aos interesses dos eleitores

Laboratório paulista

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EXPERIÊNCIA
Serra, FHC, Alckmin, Marta, Temer, Lula, Mercadante, Chalita e Kassab (da esq.
para a dir.) são protagonistas dos bastidores de 2012 com reflexos em 2014

São Paulo, o maior colégio eleitoral do País e principal bunker da oposição demo-tucana, vem funcionando nos últimos meses como o laboratório para uma movimentação partidária de repercussão nacional. Com o governo federal colecionando índices de popularidade cada vez mais altos e uma oposição dividida e sem bandeiras, uma briga paroquial que coloca de um lado o governador Geraldo Alckmin e do outro o prefeito Gilberto Kassab e o ex-governador José Serra acabou se transformando, na prática, em uma espécie de reforma política que se alastra para todo o País. O problema é que essa reforma não passa pelo Congresso e desconsidera o interesse do eleitor. Seus protagonistas movem-se motivados apenas pela própria sobrevivência político-eleitoral. “Como o Congresso não fez a reforma necessária e nossos partidos não são agremiações ideológicas, os políticos estão fazendo a seu sabor e particularidade aquilo que melhor lhes cabem”, avalia o consultor Gaudêncio Torquato, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Eles perderam a biruta e a falta de projetos coletivos permite a formação de um partido que se transforma rapidamente na tábua de salvação dos náufragos de diversas legendas, que, sem um discurso definido, procuram se aproximar daquilo que tem agradado ao eleitor nas mais diferentes regiões do País”, explica Torquato, referindo-se ao Partido Social Democrático (PSD), criado pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab, sob as bênçãos do tucano José Serra e a batuta do veterano democrata Jorge Bornhausen.

O recado que saiu das urnas no ano passado foi decisivo para a gestação do novo partido. O eleitor de São Paulo escolheu o tucano Alckmin, decepcionou o cacique José Serra, sinalizou alguma convergência com a popularidade de Lula e do PT e, a exemplo do que fez boa parte do Brasil, repudiou o DEM. Para sobreviver e poder, se preciso, acolher o padrinho político Serra (cada vez mais isolado no PSDB), Kassab anunciou a formação do PSD, aglutinando tucanos que não se bicam com Alckmin e líderes que agonizam junto com o DEM. O laboratório paulista mostrou que realmente repercute e rapidamente passou a acolher interesses de todas as regiões, independentemente de qualquer preceito ideológico. O próprio Kassab afirma em sua peregrinação na busca das assinaturas necessárias para a formalização do partido: “O PSD não é de direita, nem de centro, nem de esquerda.” Com importantes líderes deixando o ninho tucano paulista em direção às fileiras kassabistas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin e outros dirigentes do PSDB batalham para unir formalmente o partido ao pouco que resta do DEM. Seria uma forma de manter espaço na oposição. O problema é que a tarefa de segurar correligionários parece cada vez mais difícil. “Eles formaram um partido que é aliado do PT no plano nacional, em Minas se aproximam de Aécio Neves e do governador Anastasia, e nos outros Estados e municípios recebem todos os que querem aderir a qualquer que seja o governo local”, disse Alckmin a líderes do PSDB e do DEM na última semana.

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TENDÊNCIA
“O que acontece em São Paulo é fruto de uma mudança no cenário
político nacional e envolve todos os partidos” Jorge Bornhausen

“É lamentável o enfraquecimento das legendas para um partido que ninguém sabe o que quer”, avalia o cientista político Fábio Wanderley, doutor pela Universidade de Harvard e professor da UFMG. “Estamos vivendo uma grande crise partidária e isso não favorece a democracia”, lamenta. Principal orientador político de Kassab, o ex-senador Jorge Bornhausen reconhece a repercussão do movimento paulista. “O que acontece em São Paulo é fruto de uma mudança no cenário político nacional e envolve praticamente todos os partidos”, diz o veterano político catarinense. Ele não admite que o que move essas peças não é ideologia ou projetos para o País, mas tem razão ao dizer que a movimentação não se limita a uma oposição que saiu das urnas em frangalhos. A prova disso é que mesmo na base aliada do governo federal os movimentos no laboratório paulista não param de ocorrer, colocando em risco o projeto do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff de, em 2012, conquistar um dos principais redutos tucanos. No início do mês, o vice-presidente Michel Temer, conseguiu tirar do PSB e trazer para o PMDB o deputado Gabriel Chalita, aliado de Alckmin e um dos maiores puxadores de votos em São Paulo. Na semana passada, foi a vez de o PSB perder de sua fileiras o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que também migrará para o PMDB. Skaf e Chalita querem disputar a prefeitura paulistana em 2012. Com essa movimentação, o PMDB, principal aliado do PT no plano nacional, tenta ser mais respeitado e cria condições para eventualmente não repetir no maior colégio eleitoral do País a parceria federal, caso não seja saciado. “O PMDB precisa deixar de ser coadjuvante nas grandes cidades e assumir a condição de estrela de real grandeza”, tem dito Temer àqueles que pretendem buscar outras legendas.

Os movimentos são intensos, mas, nas próximas semanas, os experimentos que partem de São Paulo poderão encontrar um obstáculo difícil: o Judiciário. Ao fazerem uma espécie de reforma que não passe pelos trâmites legais, os políticos estão desafiando a Constituição e poderão ter seus desejos barrados no STF, órgão já consultado por alguns deputados paulistas, que por enquanto pedem para não ser citados, mas que não admitem o papel de cobaia.