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A mãe de Obama

Como a irreverente Ann Dunham investiu na educação do presidente americano e influenciou na formação de seu caráter

A mãe de Obama

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VÍNCULO
A antropóloga Ann Dunham, nos anos 1960, com o filho Barack
Obama, que foi criado nos Estados Unidos e na Indonésia 

Dois dias antes de anunciar ao mundo a morte de Osama Bin Laden, o presidente americano Barack Obama trouxe à tona, com ironia, a discussão sobre as suas próprias origens. Ao discursar em jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, que acontece todo ano desde 1914, ele se dirigiu ao magnata Donald Trump, potencial candidato às eleições presidenciais de 2012. “Ninguém está mais satisfeito em falar da minha certidão de nascimento do que o Donald”, provocou Obama, referindo-se à insistência de Trump em repetir que o presidente não nasceu nos Estados Unidos. Em seguida, Obama disse que o magnata poderia agora voltar sua atenção para outros assuntos controversos, “que importam”, e citou a suposta queda de uma nave alienígena na localidade de Roswell, em 1947. A sátira ocorreu num momento em que se torna cada vez mais evidente como a irreverente e internacionalista mãe de Obama moldou o caráter do presidente. Ela ensinou-o a encarar de frente os problemas.

Filha única de um casal que viveu em diversos Estados americanos antes de se estabelecer no Havaí, a mãe do presidente americano, que ele já definiu como “branca como o leite”, terminou o ensino médio mudando o próprio nome. Registrada como Stanley Ann Dunham, porque o pai desejava ter um filho homem, ela deixou de assinar o primeiro nome. Pouco depois, numa época em que o casamento inter-racial era considerado crime em metade dos Estados Unidos, Ann casou-se com o primeiro estudante africano da Universidade do Havaí. A união com o queniano Barack Hussein Obama não foi duradoura. Nascido em agosto de 1961, Obama filho pouco viu o pai depois de completar 2 anos de idade, mas recebeu da mãe uma educação esmerada. No período em que viveu com ela na Indonésia, dos 6 aos 10 anos, Obama tinha que acordar às 4h da manhã para estudar inglês em cursos por correspondência antes de ir para a escola na capital Jacarta. “Para mim também não é um piquenique”, costumava responder Ann, quando Obama reclamava do horário.

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RAÍZES
Para calar a oposição, que questiona sua naturalidade, o
presidente divulgou certidão que comprova o nascimento no Havaí

O esforço para complementar a educação formal do filho era pouco, no entanto, diante de sua preocupação em transmitir valores como honestidade e julgamento independente. E Ann, sobretudo, passou ao filho um enorme senso de confiança. “Ela gabava-se da inteligência de Obama, das realizações do menino, e de como ele era corajoso e ousado”, relata Janny Scott, no livro “A Singular Woman” (Uma Mulher Singular), recém-lançado nos Estados Unidos. Na obra, baseada em mais de 200 entrevistas, Janny reproduz relatos de amigos de Ann, segundo os quais ela costumava afirmar que Obama poderia ser o que quisesse na vida, “até presidente dos Estados Unidos”. Para isso, acreditava Ann, ele precisaria aliar a vivência em diferentes culturas com a oportunidade de frequentar as melhores escolas.

Convicta de que o filho desenvolveria melhor seu potencial nos Estados Unidos, Ann não hesitou em mandá-lo para a casa dos avós maternos na pré-adolescência. Antropóloga, ela própria continuou na Indonésia, onde fez pesquisas de campo para o seu doutorado e trabalhou para diversas instituições internacionais, em especial com projetos de microfinanciamento sustentável. Ativista incansável, jamais conquistou a própria estabilidade financeira. Seu segundo casamento, com o geógrafo indonésio Lolo Soetoro, do qual nasceu Maya, a única irmã de Obama, também terminou em divórcio. “Uma Mulher Singular” mostra que ela não reclamava do desfecho das uniões, argumentando que o importante é amar muito. Vitimada por um câncer em 1995, pouco antes de completar 53 anos, Ann é referência essencial para Obama. Mais de uma vez, o presidente afirmou que não teria chegado tão longe se não fosse a mãe. Ao mesmo tempo, por causa de sua trajetória diferenciada, ele tem pela frente ativistas como os chamados “birthiers”, o grupo de conservadores ao qual se aliou Donald Trump. Eles duvidam que Obama tenha nascido nos Estados Unidos. Se fosse assim, não poderia ocupar a Casa Branca. Não é o que diz a certidão de nascimento que Obama divulgou para comprovar suas raízes.

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