Brasil

O hipócrita e o cínico

Se Hugo Chávez inspira a criação de um personagem tartufo para Stone, Berlusconi usa as paródias que dele se fazem para aperfeiçoar seu cinismo político

Uma das vantagens de ter saído do Brasil é não ver de perto as patacoadas de Hugo Chávez. E um dos incômodos de viver na Suíça, a poucos quilômetros de Milão, é acompanhar de perto o show de horrores que é o governo Berlusconi. Não há dia que passe sem que se veja na televisão e na imprensa a triste figura do “Cavaliere” de cabelo tingido e seus escândalos. Quando Oliver Stone apresentou seu filme “South of the Border”, em que retrata Hugo Chávez como um herói da esquerda na missão de salvar a América Latina das garras do imperialismo americano, a gente se perguntava: o que pode ser pior do que isso? Segundo a lei de Mendel, tudo pode ser piorado. Se Chávez é hipócrita, Berlusconi é cínico. Se Chávez inspira a criação de um personagem tartufo para Stone, Berlusconi usa as paródias que dele se fazem para aperfeiçoar seu cinismo político.

Muita gente se lembra da cena final do filme de 2006 de Nanni Moretti “Il Caimano”, baseado na história de Berlusconi: via-se o primeiro-ministro deixando a corte, que acabava de condená-lo a sete anos de prisão, sendo saudado como herói pela turba, após um inflamado discurso no qual jogava o Poder Judiciário na lama. Era pura profecia artística: finalmente a Justiça italiana conseguiu que Berlusconi depusesse num dos inúmeros casos de propina nos quais é acusado. E o que se viu na saída do tribunal foi assustador. Berlusconi era saudado pela multidão, enquanto jogava o Judiciário na lama com seu discurso burlesco. Se isso não é pior do que vem a reboque com Chávez, é pelo menos mais desanimador.

Berlusconi transformou a si próprio numa caricatura tão nefasta quanto Mussolini. Mas, enquanto a história não lhe confere esse galardão da caricatura, ele arrasta a Itália pelo ridículo. Suas declarações sobre os opositores, aos quais chama indistintamente de comunistas, suas festas cheias de Rubys, seu pouco-caso pela vida artística italiana transformam o país num grande circo para toda a Europa. Ri-se dele. Ri-se da Itália.

Parte das ruínas de Pompeia que sobraram da erupção do Vesúvio, no primeiro século depois de Cristo, não sobreviveu ao berlusconismo. Mas seu ministro da Cultura vai entrar para a história como o que sobreviveu ao desabamento das ruínas. (Só depois de resistir a uma moção de desconfiança no Parlamento é que ele foi ejetado do posto.) Não há tempo para que o público fique a par de todo o ridículo exposto pelo ditador. Na época em que o mundo todo estava rindo com o show midiático no qual Berlusconi pretendia transformar seu julgamento, intimando para depor George Clooney, cantores, apresentadores e atrizes de tevê, o “Cavaliere” armava outro show. Os habitantes de Áquila, cidade destruída por um terremoto há dois anos, não entenderam nada quando viram num programa de tevê, num dos canais de Berlusconi, uma senhora que supostamente vivia na cidade, falando do salvador primeiro-ministro, sem o qual Áquila continuaria em ruínas. Indignados começaram a ligar para a emissora, pois Áquila ainda hoje está em ruínas. Conclusão: era uma atriz paga pela tevê para mais um show berluscônico. Mais uma farsa.

Não se come cultura, afirma Tremonti, o ministro da Fazenda. E a debandada continua. Andrea Carandini, presidente do Conselho Superior dos Bens Culturais da Itália, se demitiu. Bruno Cagli, presidente da Academia Santa Cecília de Roma, também se demitiu. Riccardo Muti, por ocasião da abertura do Teatro de Ópera de Roma, pediu à plateia que se juntasse à orquestra e ao coro cantando o hino oficioso da Itália, “Va Pensiero”, em desagravo à destruição de que a cultura italiana vem sendo vítima. E assim o país, que detém 75% dos monumentos arqueológicos e arquitetônicos, patrimônios da civilização ocidental, corre o risco de se tornar um grande Truman Show. Mas, diferentemente de Hollywood, o final pode ser trágico.