Comportamento

As conexões de um louco

A polícia investiga se as pessoas citadas em textos de Wellington realmente existem e podem ter tido alguma influência sobre ele ou se é tudo fruto de uma mente perturbada

As conexões de um louco

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DIANTE DA CÂMARA
Wellington meses antes do massacre de Realengo: poses de homem-bomba

O olhar vazio e o semblante impassível de Wellington Menezes de Oliveira, captados por uma câmera de vídeo, só servem para aumentar o enigma em torno do autor do massacre de Realengo. Nas gravações, obtidas pela polícia na casa dele, assim como nas cartas e nos e-mails encontrados, procura-se a resposta para a pergunta que o Brasil repete há vários dias: o que, afinal, levou aquele homem a entrar em um colégio para matar a tiros 12 crianças e ferir outros 12 inocentes com os quais jamais tivera contato antes? No rastro da chacina ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, na quinta-feira 7, o assassino deixou alegações como traumas por humilhações sofridas no mesmo colégio, do qual era ex-aluno, e sinais de distúrbio que os especialistas acreditam ser esquizofrenia. A investigação policial foi concluída na quinta-feira 14, e o caso, dado como elucidado. “Isso foi o delírio de uma pessoa que tinha uma doença mental e culminou nessa tragédia”, sacramentou o delegado Felipe Ettore, responsável pela Divisão de Homicídios.

Mesmo assim, as menções a atentados no Exterior e as citações de ideias religiosas levantaram suspeitas que a polícia ainda não pode ignorar. O fascínio de Wellington por extremistas fica claro em imagens divulgadas pela polícia na sexta-feira 15, nas quais aparece com poses de homem-bomba. Para averiguar esses dados, desembarcaram no Rio cinco agentes do Serviço Antiterrorismo da Polícia Federal de Brasília, que continuam debruçados sobre o caso. “A polícia não pode se acomodar com a uma versão, ainda que tudo indique que ele tenha atua­do isoladamente”, analisa o jurista Wálter Maierovitch, especialista no estudo da criminalidade internacional. Os policiais estão investigando o computador de Wellington e as conexões do atirador. Na semana passada, foi preso o terceiro homem acusado de vender o armamento utilizado por ele. O revólver calibre 38 foi adquirido por R$ 1.200 de Manoel Louvise, 57 anos, ex-segurança da empresa onde o rapaz trabalhou. A arma calibre 32 havia sido comprada do chaveiro Charleston de Lucena e do desempregado Isaías de Souza.

Os textos deixados por Wellington podem oferecer pistas, mas separar o delírio da realidade é um dos grandes desafios dos investigadores. Em um deles, o atirador menciona dois homens que seriam estrangeiros, Abdul e Phillip, e representantes do Brasil de uma certa “organização”. “Quando os conheci e revelei tudo, fui muito bem aceito e houve uma grande comemoração”, escreveu o rapaz, que dizia gastar quatro horas por dia lendo o “Corão”, o livro sagrado do islamismo. Mas, certamente devido à sua perturbação mental, entendia tudo errado. Nessa busca, a polícia do Rio de Janeiro ouviu o depoimento de um jovem de sobrenome Abdul que conviveu com o assassino na escola Tasso da Silveira, dos 9 aos 13 anos de idade. “É alguém que não tem relação alguma com o islamismo, não é de origem muçulmana nem sequer se recordava de Wellington”, afirma o delegado Ettore. O rapaz que prestou depoimento é brasileiro, e não estrangeiro, como Wellington descreve na carta.

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PISTAS
Cinco agentes do Serviço Antiterrorismo da Polícia Federal investigam as conexões do atirador 

Roselane de Oliveira, irmã do atirador, declarou que ele frequentou uma mesquita no centro do Rio e, em depoimento à polícia, um sobrinho afirmou que o tio tinha um orientador espiritual, possivelmente um sheik. A principal mesquita carioca era localizada na rua Gomes Freire, no centro da cidade. ISTOÉ localizou na cidade paranaense de Maringá um Abdul com semelhanças com as descrições dadas pela família de Wellington – embora seja importante ressaltar que no mundo islâmico Abdul é um nome comum, como José no Brasil.

O sheik Abdelbagi Sidahmed Osman, natural do Sudão e naturalizado brasileiro, é conhecido na comunidade pelo nome de Abdou Osman. Ele é fundador da Organização Islâmica para a América Latina, ex-representante da Liga Islâmica Mundial no Brasil e nega ter conhecido ou tido contato com Wellington: “Se aparece alguém com distúrbio psíquico, nós a encaminhamos para tratamento. Se ela se recusa e achamos que pode causar algum dano, recorremos às autoridades para afastá-la do convívio da comunidade”, disse Osman, um religioso graduado, consultor da Rede Globo na novela “O Clone”.

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POSTO
O sheik Abdou Osman, localizado por ISTOÉ no Paraná: ele era líder espiritual da mesquita carioca frequentada por Wellington

O sheik é também enviado do Ministério de Assuntos Religiosos do Kuait e diretor-executivo do Instituto Latino-Americano de Estudos Islâmicos (Ilaei). Presidiu, até junho de 2007, a Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ), que funcionava, justamente, na mesquita no centro do Rio que teria sido frequentada por Wellington. ISTOé apurou que Abdou Osman deve ser ouvido pela polícia. O sheik critica as notícias que relacionam o massacre de Realengo ao islamismo. Apesar de ter posição moderada, uma fonte da comunidade de inteligência em Brasília questiona o fato de a SBMRJ, que ele dirigiu por vários anos, expor em seu site vários escritos do egípcio Sayyidd Qutb, considerado um dos principais defensores da Sharia, a versão mais radical do “Corão”. Além de ideólogo do grupo Fraternidade Muçulmana, Sayyidd Qutb é para muitos historiadores uma das principais influências formadoras da rede terrorista Al-Qaeda.

Os estudiosos da mente humana que analisam Wellington têm a mesma opinião do delegado Ettore: foi o desequilíbrio mental que criou o clima propício ao massacre. O psiquiatra Jairo Werner, professor da Universidade Federal Fluminense, não acredita que o assassino tenha seguido alguma orientação. “Até agora, tudo indica que é algo autorreferente”, avalia. “Sua percepção é totalmente distorcida, não há coerência nem em relação a essas questões religiosas, ele mistura elementos.” O psiquiatra forense Talvane de Moraes também associa a chacina aos problemas mentais. “Ele estava com uma doença conhecida como esquizofrenia paranoide, estava debaixo de uma situação de delírio e de alucinações”, explica Moraes. Seu estado o levava a praticar atos incoerentes. Por isso, surpreende saber que ele começou a dar, em janeiro, R$ 50 mensais à Legião da Boa Vontade para ajudar no programa beneficente “Criança Nota 10”, de doação de cestas básicas. Seria irônico, se não fosse revoltante.

O BULLYING NÃO É JUSTIFICATIVA

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Nos vídeos divulgados na última semana, o atirador Wellington de Oliveira sugere que foi vítima de bullying e o atentado que praticou contra crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, seria uma resposta “radical” ao que viveu. A violência física ou psicológica está disseminada nas escolas e causa grande sofrimento para as vítimas.
Mas, nem de longe, é justificativa para um crime desses. O atirador tem histórico de abandono familiar e especialistas dizem que ele tinha distúrbio de personalidade. Mas o fato é que as escolas, tanto no Brasil quanto no Exterior, ainda dão pouca importância ou não sabem lidar com os conflitos entre alunos.
É preciso que as instituições deixem a postura passiva com que costumam tratar o tema e assumam um comportamento pró-ativo, com programas antibullying para as várias faixas etárias e capacitação dos professores para identificar o problema. “É necessário estar atento aos casos de violência, acompanhar agressor e vítima de perto e encaminhar para especialistas os casos mais complexos”, diz a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva.

Colaboraram: Luciani Gomes e Adriana Prado