Brasil

FHC mira a classe média

Por que o ex-presidente sugeriu que a oposição deixe de buscar os votos do povão e finque bandeiras entre os mais favorecidos

FHC mira a classe média

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Ainda amargurado por não ter sido ouvido nem reconhecido pelos tucanos na eleição presidencial de 2010, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, deixou claro que não pretende mais assistir passivamente às derrotas eleitorais do PSDB. Em conversas reservadas com líderes do partido em São Paulo e no Paraná, ele revelou que está disposto a disputar o papel de protagonista da oposição ao governo de Dilma Rousseff e que teme o fato de a presidente vir a ampliar a popularidade em regiões ainda sob o comando tucano, como a capital paulista e boa parte do Paraná e de Minas Gerais. O problema é que o ex-presidente iniciou o processo de busca desse protagonismo muito mais como um sociólogo do que como um agente político pragmático. Na terça-feira 12 se tornou público o artigo “O papel da oposição”, redigido por FHC para a revista “Interesse Nacional”. No texto, o ex-presidente recomenda que a oposição desista do povão para investir na emergente classe média. “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”, redigiu Fernando Henrique. “Isso porque o governo aparelhou, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas”, completou. Em seguida, FHC sugeriu uma nova estratégia para a oposição: “Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras, de profissionais das atividades contemporâneas, às quais se soma o que vem sendo chamado de nova classe média… É a esses que as oposições devem dirigir suas mensagens.”

A avaliação, sob o ponto de vista sociológico, é correta, uma vez que trata de uma “nova classe social” que a médio prazo apresentará uma nova demanda dos políticos e FHC acredita que o PSDB pode sair na frente. No entanto, a política real exige que as oposições apresentem bandeiras imediatas e universais o mais rápido possível, uma vez que já em 2012 novamente os brasileiros irão às urnas. “O PSDB e os outros partidos da oposição precisam entender o que o povão quer e por que ele tem apoiado as políticas do governo e não abandonar a maior parte do eleitorado, sob o risco de continuarem na oposição”, avalia o sociólogo Humberto Dantas. Entre os líderes da oposição, o artigo de Fernando Henrique foi recebido como uma bomba disparada fora de hora e de foco. “Um partido tem que ter sensibilidade social e ela deve estar voltada justamente para as camadas mais pobres, que devem ser a prioridade do partido”, disse o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR). “É um equívoco do ex-presidente. A oposição não tem que abrir mão de ninguém”, afirmou o deputado Roberto Freire (SP), presidente do PPS. “É ruim fazer política excluindo uma camada da população. Nunca vi político deixar de falar com a sociedade”, criticou o líder do DEM na Câmara, deputado ACM Neto (BA). O líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), foi ainda mais contundente: “Essa sugestão é terrível. É uma espécie de renúncia à chegada à Presidência”, afirmou. Em Londres, o ex-presidente Lula também reagiu: “Não entendo como alguém que estudou tanto fala em esquecer o povão”, afirmou Lula, depois de comparar FHC ao ex-presidente João Figueiredo que disse preferir cheiro dos cavalos ao do povo. Uma das poucas vozes dissonantes foi a do ex-governador de São Paulo José Serra. Derrotado pela segunda vez numa disputa presidencial, Serra está isolado no partido e busca se agarrar à influência ainda exercida por FHC para tentar se manter como alternativa de poder no ninho tucano. “Concordo em gênero, número e grau com a essência do artigo de Fernando Henrique”, disse Serra. “O problema do PSDB e da oposição é de rumo, coerência e clareza.”

O artigo assinado pelo ex-presidente foi divulgado menos de uma semana depois de o senador Aécio Neves (PSDB-MG) ter conseguido reunir ao redor de si as principais lideranças tucanas e dos partidos que não estão na base do governo. Na quarta-feira 6, Aécio deixou a tribuna do Senado aplaudido por um plenário lotado de oposicionistas de todos os escalões. Assumindo o papel de principal porta-voz da oposição respaldado pelo voto popular, o ex-governador de Minas fizera um discurso apontando um caminho inverso ao sugerido por FHC. Aécio defendeu uma maior participação do partido nos movimentos sociais. “Sou mais otimista do que ele (FHC) em relação à descrença que ele mostra de aproximação com setores de várias camadas sociais”, disse Aécio na última semana. “O artigo de FHC e o discurso de Aécio Neves são uma evidência da crise na oposição”, entende o cientista político Fábio Wanderley Reis, da UFRJ.

Independentemente das teses acadêmicas, o pragmatismo eleitoral mostra que, mesmo entre os tucanos, os que colhem bons resultados nas urnas são aqueles que não desistiram de olhar para os mais necessitados. Em Minas, por exemplo, os oito anos de Aécio foram caracterizados pela inclusão social e pelas políticas voltadas às classes menos favorecidas. Também em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin não abdica de programas que ampliem a transferência de renda. Enquanto os tucanos trocam farpas, a situação comemora. “FHC escreveu o que todo mundo já sabia: os tucanos não são a favor dos pobres, e sim da classe média”, disse o deputado André Vargas (PT-PR) na quarta-feira 13.

 

A RESPOSTA DOS ALIADOS

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“Um partido tem que ter sensibilidade social e ela
deve estar voltada para as camadas mais pobres”
Senador Álvaro Dias (PSDB –PR)

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“Essa sugestão é terrível. É uma espécie de renúncia à chegada à Presidência”
Senador Demóstenes Torres (DEM-GO)

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“É um equívoco do ex-presidente. A oposição não tem que abrir mão de ninguém”
Deputado Roberto Freire (SP), presidente do PPS

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“É ruim fazer política excluindo. Nunca vi político deixar de falar com a sociedade”
Deputado ACM Neto (DEM-BA)

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“Concordo em gênero, número e grau com a essência do artigo de Fernando Henrique”
José Serra, ex-governador de São Paulo

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“Sou mais otimista do que FHC em relação à descrença
de aproximação com setores de várias camadas sociais”

Senador Aécio Neves (PSDB-MG)

 

“Parte da oposição faz o jogo do PT”

No final da tarde da quarta-feira 13, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso parecia exausto com tantas críticas, principalmente aquelas provenientes de antigos aliados como o deputado Roberto Freire e o tucano Álvaro Dias. Em entrevista concedida à ISTOÉ, Fernando Henrique diz que não foi bem entendido, mas é categórico ao dizer que o PSDB abandonou suas mensagens históricas e que parte da oposição acaba favorecendo o PT.

ISTOÉ – O sr. apresenta propostas contrárias às do senador Aécio Neves. Há uma disputa ideológica no PSDB?
Fernando Henrinque Cardoso – Não há divergências. Nossas propostas são complementares. Me espantou a reação de parte da oposição que, a meu ver, faz o jogo do PT.

ISTOÉ – As críticas foram pesadas.
FHC – Houve uma repercussão precipitada e por conta apenas de um pequeno trecho. O que escrevi é mais amplo, trata das questões e dos caminhos que a oposição precisa encontrar para ser mais efetiva.

ISTOÉ – Tentar falar com as classes mais baixas é pouco efetivo?
FHC – Uma parte importante delas já foi cooptada pelos programas sociais do governo, pelos movimentos sociais aliados ao governo. O que eu acho é que precisamos mudar nossa linguagem, mudar os meios de nos comunicar com os brasileiros. Estamos repetindo o mesmo discurso há anos e ele tem se mostrado pouco efetivo. Precisamos direcionar nosso discurso a uma parcela da população que não se vê representada no debate político.

ISTOÉ – Como fazer isso?
FHC – Trazendo o debate político para o cotidiano das pessoas. Veja a questão dos aeroportos. Estão um caos, superlotados, defasados. A oposição precisa lembrar essas questões diuturnamente. Cobrar do governo mais eficiência, levar o debate político para a vida cotidiana das pessoas. Isso não tem sido feito. É preciso mostrar com fatos, não só com números, que o Estado brasileiro é pouco eficiente e que lutamos por um país mais eficiente.

ISTOÉ – As parcelas mais pobres da população foram importantes nas eleições do PT nos últimos anos. O sr. acredita que disputar o voto delas não é mais efetivo eleitoralmente para o PSDB?
FHC – Não, não. Na hora da eleição o voto é de todo mundo. Eu mesmo venci o Lula duas vezes com o voto do povão. E no primeiro turno. O que proponho é uma estratégia para o período de entressafra eleitoral. Nos últimos anos o PSDB ficou sem defender nossas mensagens históricas.

Yan Boechat