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A cara da inconfidência

Cientistas brasileiros que identificaram o corpo de Josef Mengele conseguem pela primeira vez recriar o rosto de um dos inconfidentes mineiros tendo como base o crânio do rebelde

A cara da inconfidência

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ORGULHO
Daruge mostra o crânio reconstituído do inconfidente José Resende da Costa

A Inconfidência Mineira sempre foi representada por uma cara falsa. A ideia de que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era um homem de fartos cabelos lisos, uma fisionomia plácida e barba volumosa só foi concebida cerca de 100 anos após sua morte, pelo movimento republicano brasileiro. Sua imagem foi cuidadosamente pensada pelo pintor carioca Décio Villares para se parecer com outro ícone cujo rosto foi criado sem respeito nenhum à realidade, o de Jesus Cristo. A verdade é que até hoje ninguém tinha ideia de como Tiradentes ou qualquer um dos outros 23 inconfidentes eram na vida real. Suas imagens são puras obras de arte, criadas com claros objetivos políticos. Isso, no entanto, vai começar a mudar na quinta-feira.

No dia 21 de abril, o primeiro feriado instituído pelo governo brasileiro após a proclamação da República, a Universidade de Campinas entregará oficialmente ao Panteão da Inconfidência, em Belo Horizonte, a primeira recriação do rosto de um dos revoltosos realizado com bases científicas. Realizado pela mesma equipe que fez a reconstituição facial do ex-oficial nazista Josef Mengele, o trabalho utilizou o crânio do inconfidente José Resende da Costa (1728-1798) como ponto de partida para a recriação de sua fisionomia. “Precisamos literalmente montar um quebra-cabeça de 114 fragmentos ósseos para conseguirmos recriar, primeiro, o crânio”, diz o coordenador da equipe responsável pelo feito, o professor de ondontologia forense Eduardo Daruge, da Faculdade de Odontologia da Unicamp.

O quebra-cabeças montado por Daruge e sua equipe foi apenas a parte final de um verdadeiro trabalho arqueológico iniciado há quase 80 anos no litoral africano. Tiradentes foi o único revoltoso a ser morto. De origem humilde, ao contrário de seus companheiros, foi enforcado no Rio de Janeiro em 1792 e, depois, esquartejado. Os outros inconfidentes foram quase todos exilados em colônias portuguesas na África. José Resende da Costa, por exemplo, foi enviado para a então Guiné Português, hoje Guiné Bissau, onde morreu. Quase 150 anos depois, o então presidente Getúlio Vargas pediu e recebeu de Portugal as supostas ossadas dos inconfidentes espalhadas por diferentes colônias africanas. Por seis décadas os restos mortais de José Resende da Costa e de outros dois inconfidentes, João Dias da Mota (1744-1793) e Domingos Vidal Barbosa Laje (1761-1793), ficaram guardados em uma mesma urna no Arquivo Histórico do Itamaraty. Só em 1995 eles foram enviados à Unicamp para estudos. “No fundo tivemos sorte de cada um deles ter idades muito distintas e termos o crânio de Resende quase completo”, diz Daruge.

Com o crânio reconstituído, a equipe de Daruge conseguiu utilizar um avançado programa de computador que usa informações das formas ósseas para realizar a reconstituição facial. “Será a primeira imagem científica de um inconfidente”, comemora Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto. “Estamos revivendo um grande acontecimento que deveria ter ocorrido na década de 30, quando Getúlio pediu a repatriação dos restos mortais desses inconfidentes.” A entrega oficial das ossadas e do trabalho da Unicamp será feita pela presidente Dilma Rousseff, que será, junto com Daruge, homenageada com a Medalha da Inconfidência. O rosto de Tiradentes, no entanto, continua­rá se parecendo com o de Jesus Cristo. Após seu esquartejamento, partes de seu corpo foram espalhadas por vários pontos da cidade do Rio de Janeiro. A cabeça, no entanto, foi levada para Ouro Preto, onde ficou exposta em um mastro até que, numa noite, simplesmente desapareceu. Sem crânio, por enquanto, a ciência ainda não consegue reconstituir a face de ninguém.

 

CONJURAÇÃO MINEIRA

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ÍCONE
O Tiradentes retratado por Décio Villares se parece com Jesus Cristo

No final do século XVIII, o contrabando de ouro e o esgotamento das reservas auríferas das jazidas mineiras fizeram com que muitos mineradores não cumprissem com o pagamento do “quinto”, os 20% da retenção do ouro que a colônia era obrigada a mandar para a metrópole. Para manter os lucros, a coroa portuguesa criou um novo imposto, chamado de "derrama", um arresto de bens que seria cobrado dos colonos para complementar os 1,5 mil quilos de ouros pagos anualmente a Portugal. Em 1789, um grupo de inconformados com a sobretaxa se organizou para contrariar as ordens da rainha. Liderados pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, os insurgentes iam acumulando força até serem surpreendidos com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, que delatou a revolta em troca do perdão das próprias dívidas. Como o levante era uma infidelidade ao rei, o movimento ficou conhecido por Inconfidência. Sufocado pela coroa, seus 24 líderes foram presos e condenados pelo crime de lesa-majestade.

 

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