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Entrevista

Jeremy Irons

“Hollywood não gosta de cinema”

“Hollywood não gosta de cinema”

O ator inglês diz que os filmes hoje só visam ao lucro e aos adolescentes e que quase largou tudo para cuidar de sua paixão: as casas

Elaine Guerini, de Berlim
Edição 20.04.2011 - nº 2162

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VÍCIO
O ator não vai mais à cerimônia do Oscar porque tem de sair do teatro para fumar

A simples presença de Jeremy Irons em um filme é uma garantia de credibilidade à produção. Vencedor do Oscar pelo papel do milionário acusado de tentar matar a esposa em “O Reverso da Fortuna’’ (1990), o inglês de 62 anos é um dos mais respeitados atores de sua geração. Com quase 80 títulos no currículo, Irons é dono de uma galeria de personagens memoráveis, aos quais acrescenta agora o inescrupuloso presidente de banco John Tuld do thriller “Margin Call”, que estreia no Brasil em outubro, e o corrompido Rodrigo Bórgia, protagonista da série “Os Bórgias”, lançada com pompa há três semanas nos EUA. Apesar de convencer como ninguém nos papéis de aristocrata, fora dos sets de filmagem Irons prefere levar o que ele chama de “vida cigana de classe média’’. Atualmente, o ator nascido em Cowes, a ilha de Wight, se divide entre sete casas, que ele mesmo construiu ou reformou – incluindo um castelo do século XV, no condado de Cork, na Irlanda. “Tenho uma obsessão em colecionar casas, o que não me deixa passar muito tempo num lugar só.’’ Outra de suas fraquezas é o cigarro, do qual não faz o menor esforço para abrir mão. E não se desculpa por isso. Assim que entrou na suíte do luxuoso hotel Adlon, em Berlim, onde a reportagem de ISTOÉ o aguardava para a entrevista, Irons foi logo abrindo a janela e acendendo um cigarro – apesar do aviso de que uma multa de 300 euros seria cobrada se alguém fumasse no local. “Fumo desde que tinha 15 anos. Simplesmente me dou esse direito’’, conta o ator, sem se importar em soar politicamente incorreto. Durante um jantar de caridade, em Newcastle, em 1987, ele tinha como companhia a princesa Diana. Não conseguiu se controlar e perguntou se ela se importaria, caso ele acendesse um cigarro após a sobremesa. “Você não deveria. Faz mal à saúde”, disse Diana. No que Irons respondeu: “Eu sei, mas isso não me faz querer fumar menos.” O pior é que era o Dia Nacional de Combate ao Fumo. “Aquilo fez o meu gesto parecer ainda mais grosseiro’’, afirmou Irons, com a maior naturalidade.

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"Confesso que voltei a fazer filmes justamente para pagar as despesa
com essas propriedades. Principalmente com o castelo, que eu adoro"

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"Salvador é um local muito perigoso. Mas não me importei
e circulei por toda a cidade. A paisagem é de tirar o fôlego"

ISTOÉ

É verdade que o sr. não comparece mais à cerimônia do Oscar por causa do seu vício de cigarros? 

Jeremy Irons

Sim. Como tenho de sair do teatro a cada cinco minutos para fumar, acabo perdendo a cerimônia. Cheguei à conclusão de que é melhor assistir na minha casa, onde posso fumar à vontade. 

ISTOÉ

Após 40 anos de carreira, no cinema, na tevê e no teatro, como mantém a motivação para continuar atuando? 

Jeremy Irons

Nem sempre é fácil. Reconheço que de uns 15 anos para cá eu perdi o apetite de filmar. Cheguei a pensar seriamente em desistir do cinema e até fiz uma pausa de alguns anos para repensar o que queria da vida. A verdade é que a profissão de ator é, muitas vezes, supervalorizada pela mídia, principalmente se levarmos em conta a real utilidade daquilo que fazemos. 

ISTOÉ

Foi nessa época que o hobby de colecionar casas ganhou força? 

Jeremy Irons

Sim. Comecei a me interessar muito mais por imóveis e passei a construir e reformar casas. O resultado é que, hoje, tenho casas até demais. No total, são sete. Só que, uma vez montada, perco o interesse. Procuro por uma nova (risos). Outro problema é que todas acabam ficando maravilhosas e não consigo me livrar de nenhuma. Confesso que voltei a fazer filmes justamente para pagar as despesas com essas propriedades. Principalmente com o castelo, que eu adoro (segundo os tabloides ingleses, Irons gastou mais de um milhão de libras na propriedade, que fica na Irlanda). 

ISTOÉ

O sr. não acha excêntrico tê-lo pintado de rosa? 

Jeremy Irons

Não necessariamente. Não tive a intenção de incomodar os vizinhos. Sabia que com o tempo a cor desbotaria e ganharia um aspecto mais envelhecido. Mas admito que, conforme também vou envelhecendo, tenho dado cada vez menos importância ao que os outros pensam de mim. 

ISTOÉ

Onde ficam as outras propriedades? 

Jeremy Irons

Outras quatro ficam na Irlanda, o que inclui uma casa em Dublin, cidade onde mora o filho da minha mulher (a atriz irlandesa Sinéad ­Cu­sack), do seu primeiro casamento. Quando vamos visitá-lo, temos um lugar para ficar. E tenho duas propriedades na Inglaterra, sendo uma delas uma casa no oeste de Londres. Sei que é loucura ter tantas casas em lugares diferentes. Meu consolo é saber que, se um dia a minha carreira afundar, terei o que fazer: ficar pulando de uma casa para outra (risos). 

ISTOÉ

Da forma como o sr. fala, parece estar desapontado com a indústria do cinema. 

Jeremy Irons

E estou. No passado, Hollywood funcionava de outra maneira. Contava histórias e fazia comentários sobre a vida e sobre a condição humana. Claro que os produtores sempre quiseram ganhar dinheiro com os filmes. Mas antes eles dividiam essa parcela de produções comerciais com filmes que tinham importância. Hoje não existe mais esse equilíbrio. Infelizmente, Hollywood não é controlada por pessoas que gostam de cinema, e sim por grandes corporações que só querem fazer dinheiro a qualquer custo. 

ISTOÉ

Em “Margin Call’’, seu filme mais recente, seu personagem, dono de um banco de investimentos, também parece ter essa mentalidade… 

Jeremy Irons

Acho interessante poder abordar e questionar essa ganância por meio de um personagem. Nesse filme eu interpreto justamente o homem que decide salvar a própria pele, ou seja, a sua empresa, nem que isso acione o botão para a crise financeira mundial. Gosto muito de sua ambivalência. Embora seja frio para os negócios, ele provavelmente é um ótimo pai de família. É um sujeito que faz doações às instituições de caridade e gosta de lidar com pessoas. 

ISTOÉ

Produções recentes, como “Wall Street: o Dinheiro Nunca Dorme’’, trataram da crise financeira mundial. O que o seu filme acrescenta a esse cenário? 

Jeremy Irons

Ele traz uma visão sobre as pessoas que participaram da crise e mostra que muitas delas estavam apenas cumprindo ordens de homens como o meu personagem. Todos esses filmes atuais que falam da amoralidade no mundo das finanças são importantes. Quanto mais, melhor, pois muita gente ainda não compreendeu por que a crise explodiu e como ela poderia ter sido evitada. 

ISTOÉ

Qual a sua relação com o dinheiro? 

Jeremy Irons

Sei que sozinho o dinheiro não traz felicidade, mas não ter dinheiro nenhum não ajuda ninguém a ser feliz (risos). Fico satisfeito em saber que sempre ganhei o meu dinheiro honestamente, e não como o meu personagem, que ficou ainda mais rico provocando uma crise monumental e fazendo muitas pessoas perder as suas casas. 

ISTOÉ

Está satisfeito com a carreira que construiu no cinema? 

Jeremy Irons

De um modo geral, sim. O problema é que os papéis começam a ficar escassos à medida que os atores vão envelhecendo. Há muitos profissionais na mesma situação que a minha, como Kevin Kline, Dustin Hoffman, Gary Oldman e outros. Você não os vê fazendo um filme atrás do outro. O número de papéis interessantes que caem nas minhas mãos hoje em dia é muito inferior ao volume de boas ofertas na época em que eu tinha 30, 40 anos. Eu ainda levo uma desvantagem por morar na Europa. Quem não mora nos EUA e não faz parte da comunidade do cinema fica mais à margem. 

ISTOÉ

Essa é uma das razões para o sr. aceitar trabalhos na tevê? 

Jeremy Irons

Sim. Sem falar que muitos dos melhores roteiristas estão trabalhando para a tevê e não mais para o cinema, em que a grande maioria dos filmes parece estar voltada para o público adolescente. Antigamente atores de cinema não faziam tevê. Hoje isso mudou. As discussões que interessam ao público adulto são mais comuns nos telefilmes, nas minisséries e nos seriados. 

ISTOÉ

O sr. assiste à televisão? 

Jeremy Irons

Muito raramente. Fico sabendo pelos meus amigos que há programas de excelente qualidade. Só aceitei participar de “Law & Order” porque eles me disseram que o seriado era bom. Vi alguns episódios e percebi que tinham razão. O estilo da série me lembrou antigos romances policiais. 

ISTOÉ

O que o atraiu no papel de Rodrigo Bórgia, na série “Os Bórgias’’, que estreou no início do mês nos EUA? 

Jeremy Irons

Inicialmente, confesso que sugeri a Neil Jordan, o diretor da série, que chamasse James Gandolfini, de “A Família Soprano”, para o papel. 

ISTOÉ

Por quê? 

Jeremy Irons

Ao pesquisar sobre o personagem na internet, percebi que eu não tinha o biotipo do sujeito grandalhão, com um apetite insaciável por comida e por mulheres. Acabei cedendo ao me dar conta de que o mais importante seria convencer sobre a sua habilidade em manipular as pessoas. Membro de uma família que ficou famosa por cometer crimes e disseminar a corrupção na Itália do século XV, o cardeal Rodrigo Bórgia é um homem cheio de fraquezas e pecados, o que não o impediu de se tornar o papa Alexandre VI, em 1492. 

ISTOÉ

O seu filho mais novo, Max, de 25 anos, seguiu os seus passos e se tornou ator. Isso é motivo de orgulho? 

Jeremy Irons

Mesmo que eu quisesse impedi-lo, não conseguiria (risos). Só espero que ele nunca se deixe seduzir pelo glamour e pelo dinheiro de Hollywood. 

ISTOÉ

O que o sr. mais valoriza em sua carreira? 

Jeremy Irons

A oportunidade de me colocar no lugar dos meus personagens, entender melhor a natureza humana e aprender a não julgar tanto as pessoas. Sou muito grato também pela chance de viajar o mundo inteiro com os meus filmes e conhecer tantos países. 

ISTOÉ

Foi nas filmagens de “A Missão’’ que o sr. conheceu a América Latina? 

Jeremy Irons

Sim. Passei três meses filmando na Colômbia, na Argentina e no Paraguai. Foi uma experiência maravilhosa. 

ISTOÉ

Na época o sr. visitou o Brasil? 

Jeremy Irons

Sim, após as filmagens. Conheci o Rio de Janeiro, mas fiquei realmente encantado com Salvador. Além de ser um lugar lindo, fiquei impressionado com a mistura de raças, o que certamente cria uma energia especial nas ruas. A impressão que eu tive é de que Salvador é um local muito perigoso. Mas não me importei e circulei por toda a cidade. Para cada lugar que olhava, encontrava uma paisagem de tirar o fôlego. 

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