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A trajetória do mineiro humilde e religioso

Do povoado de Itamuri ao Palácio do Jaburu, José Alencar jamais abandonou as raízes e os ensinamentos do pai

A trajetória do mineiro humilde e religioso

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AUSTERIDADE
Alencar dizia que não se acostumava “com algumas coisas de rico”

Quando deixou a casa da família, José Alencar Gomes da Silva ouviu do pai uma frase sucinta: “Meu filho, o importante na vida é poder voltar.” Com 14 anos e muita vontade de vencer, o rapazinho deixou para trás o povoado onde nascera e, 17 quilômetros depois, a cidade mineira de Muriaé foi apenas a primeira etapa de uma sucessão de mudanças ousadas. O conselho do pai, o pequeno comerciante Antônio, jamais foi esquecido pelo filho. De tempos em tempos, as cidades ficavam pequenas para as ambições e os negócios de Alencar, mas ele não deixava pendências antes de partir para a etapa seguinte. E mantinha as portas abertas. Sem teorizar, procurava associar à ideia de “poder voltar” o conceito de ética, que nos anos 1940 significava mesmo ser um homem de bem. Foram tantos os vínculos criados no decorrer da vida que nos últimos anos se dividia entre três residências: um apartamento em Belo Horizonte (MG), outro no bairro paulistano dos Jardins e o Palácio do Jaburu, em Brasília.

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PRIMEIRO NEGÓCIO
Aos 18 anos, Alencar abriu a própria loja e dormia em colchão atrás das prateleiras

Desde que sua luta contra o câncer se tornou pública, para esses três endereços chegavam livros religiosos, potes de água-benta, santinhos, mensagens, sugestões de tratamentos alternativos e remédios populares à base de raízes. “É uma fábula de correspondência de toda natureza e do País inteiro”, disse certa vez. As encomendas também eram entregues em grande quantidade, às vezes pessoalmente, nos escritórios de sua empresa, a Coteminas, e na sede do partido ao qual era filiado, o PRB. O próprio Alencar não se definia como um homem religioso, no sentido de frequentar missas e receber a comunhão, mas assumia ter muita fé em Deus. Na hora do aperto, rezava logo um Pai-Nosso. Nos últimos meses, rezava de dois a três Pai-Nossos por dia. E, a cada entrada ou saída do hospital, fazia questão de agradecer a todos que rezavam por ele. A crença numa força superior, no entanto, não o impedia de acompanhar em profundidade a evolução da doença e de ajudar a decidir os rumos dos tratamentos, a ponto de dizer que se tornara, na prática, um oncologista.

Grande contador de casos, nos períodos de convalescença Alencar relembrou diversas vezes suas raízes. Nessas ocasiões, emocionava-se com frequência, principalmente ao falar sobre o pai, com quem começou a trabalhar aos 7 anos, “mais para atrapalhar do que ajudar”, atrás de um balcão em Itamuri, distrito de Muriaé. A jornada de seu Antônio se estendia até a noite, quando o comerciante costumava ler para os vizinhos, à luz de lampião, o “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, do qual era assinante. O jornal chegava com quatro dias de atraso, mas era a principal fonte de informação dos moradores do povoado e as “leituras” de seu Antônio foram particularmente concorridas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um ano depois do fim do conflito, Alencar mudou-se sozinho para Muriaé, para trabalhar como balconista de uma loja de tecidos chamada A Sedutora. Por falta de escola em Itamuri, tinha sido alfabetizado em casa, pelo pai e pela mãe, a dona de casa Dolores. Mais tarde, estudou até a quinta série do ensino fundamental, chamado naqueles tempos de primeiro ano ginasial. “O único diploma que tenho é de aluno emérito”, costumava dizer Alencar. “Ganhei da escola onde fiz o primeiro ano ginasial, depois de me tornar empresário.” O autodidata, porém, alardeava ter “o maior orgulho” dos diplomas dos três filhos que teve com Mariza, com quem tinha se casado havia mais de 50 anos.

“Não consigo me acostumar com algumas coisas de rico”
José Alencar

Alencar conheceu Mariza em Caratinga, a cidade mineira para onde se mudou em maio de 1948, em busca de um trabalho melhor, também no comércio, na Casa Bonfim. Deixou para trás inconveniências como dormir em um catre, no corredor do hotel de Muriaé, por falta de recursos para alugar um quarto. Em Caratinga, começou ganhando 600 cruzeiros mensais e pagando a metade para morar em uma pensão. “Uma pensão de categoria, vamos dizer, uma estrela”, ironizou Alencar mais de uma vez. Não ficou mais de dois anos no novo emprego, no qual se destacou como vendedor. Entusiasmado com o negócio, pediu 15 mil cruzeiros emprestados a um dos irmãos mais velhos, Geraldo, que morava em outra cidade da região, Ubá. “Foi com esses 15 contos que comecei minha lojinha em Caratinga. Era abaixo de microempresa, duas portas de madeira. Ela não foi inaugurada, foi aberta”, repetia Alencar, sem destacar que o empréstimo fora a juro de 1,5% ao mês, considerado uma “usura” pelo presidente da época, Getúlio Vargas. “Eu não possuía nenhum tostão, mas conhecia o mercado, conhecia todos os fornecedores e todas as mercadorias. Sabia que tipo de mercadoria comprar, por quanto poderia comprar, e sabia também que o meu custo seria imbatível, o mais econômico da praça.”

Por sugestão de um viajante comercial português, a loja foi batizada A Queimadeira e, logo abaixo do nome, uma inscrição da placa modesta reforçava a intenção de “queimar” os preços: “Tecidos baratíssimos.” Para reduzir os custos e entregar o que prometia, Alencar morava na própria loja. Dormia em um colchão no chão, atrás das prateleiras, e “comia de marmita”. Pouco antes da abertura de A Queimadeira, porém, seu irmão Geraldo lembrou que Alencar, com apenas 18 anos, não poderia ter seu próprio negócio. O potencial empreendedor tratou de contornar a burocracia: “Pedi ao papai que me emancipasse. Ele fez isso através de uma escritura pública de emancipação.” Emancipado e sem patrão, Alencar colocou em prática todos os planos que havia feito para a loja que, além de tecidos, vendia chapéus, calçados, sombrinhas e armarinhos.

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DEVOÇÃO
Nos últimos meses, Alencar rezava de dois a três Pai-Nossos por dia

Extrovertido, Alencar ganhava a freguesia pelo preço e pela boa conversa. Fora do balcão, conquistou aquela que seria sua companheira de toda a vida e mãe de seus filhos Maria da Graça, Patrícia e Josué Christiano, que lhes deram cinco netos e duas bisnetas. A professora aposentada Rosemary de Morais, 55 anos, também foi considerada filha de Alencar pela Justiça há seis meses, embora ele jamais tenha assumido a paternidade. Rosemary argumenta que nasceu de um romance que ele teve com sua mãe, uma enfermeira conhecida como Tita, em Caratinga.

“O único diploma que tenho é de aluno emérito. Ganhei da escola
onde fiz o primeiro ano ginasial, depois de me tornar empresário”

José Alencar

Quanto a Mariza, uma aliança que celebra a união com Alencar e um relógio são os únicos adornos que admite há mais de uma década. A promessa de não usar joias – nem bijuterias – foi feita por ela quando um irmão de Alencar morreu em decorrência de um câncer no estômago e o marido começou a sentir sintomas da doença. Por muito tempo, ele tentou convencê-la a procurar um padre e liberar-se do compromisso, mas Mariza não voltou atrás. Resistiu até mesmo às diversas tentações – em forma de colares e anéis – que ele lhe apresentava. “Não usar joias para mim é mais fácil do que deixar de ir ao cinema”, comentou Mariza, referindo-se a outra promessa que fizera nos anos 1960, em intenção da saúde de seu pai, que havia sido diagnosticado com um câncer de próstata. Amante do cinema, ela ficou 24 anos sem entrar numa sala de exibição, guardando na memória o último filme que vira, “O Morro dos Ventos Uivantes”.

A cena de Alencar comprando joias não podia ser considerada usual. A despeito do patrimônio milionário, ele não gostava de gastar com artigos de luxo. Um reflexo desse comportamento é a Fazenda do Cantagalo, uma propriedade de 22 mil hectares, que beira 13 quilômetros do rio São Francisco, no norte de Minas. Embora fosse um de seus lugares prediletos nos tempos em que tinha mais tempo livre, antes de assumir a vice-presidência, as acomodações da fazenda são absolutamente austeras. Os mais próximos dizem que a única vez que Alencar gastou para valer com supérfluos foi em dezembro de 2000, quando comemorou com pompa e circunstância os 50 anos de vida empresarial, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Mesmo assim, fiscalizou pessoalmente todos os gastos, chegando a vetar os mais altos. “Não consigo me acostumar com algumas coisas de rico”, comentou à época. Foi nessa festa que Alencar conheceu o então presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva, sem imaginar que pouco mais de dois anos depois estaria assumindo a seu lado o Palácio do Planalto. Muito menos ainda que, sendo autêntico e contando sua história de vida, silenciaria as vaias com as quais foi recebido na Convenção Nacional do PT, em junho de 2002, por ser visto como representante dos “patrões”. Saiu do encontro com a alma lavada, certo de que, como aconselhara seu pai, poderia voltar. Esse é um de seus principais legados.

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