Comportamento

O apagão dos médicos

Em um dia, 160 mil profissionais de convênios de saúde prometem cruzar os braços em protesto contra a remuneração que recebem. Quem perde é o paciente

O apagão dos médicos

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PROTESTO
Médicos de todo o Brasil que atendem os convênios dizem que irão parar no dia 7

Nos últimos dois anos, tem sido comum médicos de diversas especialidades se manifestarem contra a remuneração recebida dos planos de saúde. Alguns, como os ginecologistas e obstetras de São Paulo, fizeram campanha publicitária mostrando que recebem apenas R$ 200 por parto. Outros, como os pediatras de Brasília, chegaram a parar suas atividades. Agora, os doutores de todo o País resolveram se juntar e aumentar a pressão. O problema é que são os pacientes os maiores prejudicados. Os 45 milhões de brasileiros que usam convênio não terão como se consultar no Dia Mundial da Saúde, na quinta-feira 7. Os 160 mil médicos que atendem no chamado sistema suplementar devem paralisar suas atividades nesse dia como forma de protesto contra o que definem como baixos pagamentos realizados pelas operadoras de saúde. O Código de Ética Médica prescreve que nenhum paciente pode deixar de ser atendido em caso de emergência. Eles garantem que este direito estará assegurado.

O ato está sendo organizado pelas três entidades nacionais que representam a categoria: a Associação Médica Brasileira (AMB), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Nacional dos Médicos (Fenam). O movimento, que causará inconveniências aos pacientes já penalizados por arcar com altas mensalidades, vem ganhando adesão de outras organizações, como as ligadas aos direitos do consumidor. Demais profissionais da saúde decidiram também aderir, como os cirur­giões-dentistas. “Não pretendemos prejudicar o usuário, apenas alertar a população para a situação limite na qual chegamos”, explica o diretor da AMB, Florisval Meinão. “Também é do interesse dos nossos pacientes que a relação entre convênios e médicos melhore”, complementa o vice-presidente do CFM, Aloísio Tibiriçá Miranda.

Os representantes dos convênios optaram pelo silêncio. A Associação Brasileira de Medicina de Grupo ­(Abramge), que reúne as principais empresas do setor, soltou uma nota dizendo que não faz parte de suas atribuições discutir remuneração a prestadores de serviços, sejam médicos, hospitais ou laboratórios. “É livre a negociação entre as partes sobre os serviços a serem prestados”, esclarece. A média recebida pelos médicos brasileiros para uma consulta de rotina é, hoje, de R$ 40. “Menos do que um corte de cabelo na zona sul do Rio de Janeiro”, compara Tibiriçá. O que eles pedem é um pagamento mínimo de R$ 60.

Os baixos pagamentos são a principal queixa dos manifestantes. Os médicos, no entanto, também reclamam da interferência dos planos de saúde no dia a dia de seus consultórios. “É emabaraçoso recebermos ligações com ameaças veladas dizendo que a gente gasta muito”, diz Meinão, da AMB. Uma pesquisa feita pelo Datafolha mostra que 92% dos médicos reclamam da interferência das empresas nos diagnósticos e tratamentos de seus pacientes.

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“Perdi as contas de quantas vezes aconselhei pacientes
a procurar a Justiça para receber medicação pelo SUS”

Ricardo Teixeira, oncologista

O oncologista e hematologista Ricardo Teixeira, diretor médico da Clínica OncoHemato, no Rio de Janeiro, é um dos profissionais que vão aderir à paralisação. Para ele, o que as operadoras fazem é constrangedor inclusive com pacientes, já que muitas vezes se recusam a pagar tratamentos que garantem a sobrevivência de alguns enfermos. “Perdi as contas de quantas vezes aconselhei pacientes com câncer a procurar a Justiça para receber pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a medicação que não é coberta pelas seguradoras”, diz ele. Como profissional, ele sempre se vê às voltas com o atraso e falta de pagamento. “Estou processando uma seguradora, que atende basicamente os servidores da prefeitura, que me deve R$ 600 mil”, conta. Teixeira ressalta que existem alguns planos sérios, mas é uma minoria dentre os mais de 70 que ele atende.

O terceiro pon­­to de insatisfação da categoria é a dificuldade de a Agência Nacional de Saúde (ANS) mediar essa relação conflituosa. A ANS foi criada em 2000 justamente para gerar um entendimento entre as partes. “Só vamos fazer paralisação nacional porque já tentamos de tudo, passamos um ano negociando com a ANS”, diz Tibiriçá, do CFM. Procurada pela ISTOÉ, a ANS diz que não vai se pronunciar até o dia da manifestação.

As entidades organizadoras da greve vão esperar os resultados do dia 7 para decidir o próximo passo. Uma das possibilidades é o descredenciamento coletivo dos planos de saúde. “O abandono dos convênios é uma tendência, muitos profissionais já cortaram os que pagam os piores valores”, diz Meinão. “No entanto, é uma utopia achar que dá para viver sem depender dos convênios. Afinal, quantos brasileiros podem se dar ao luxo de bancar sua própria saúde? Vamos ter que chegar a um bom acordo”, finaliza.

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JUÍZES MARCAM PARALISAÇÃO
Os juízes também prometem cruzar os braços. A paralisação está marcada para o dia 27 de abril e tem como objetivo obter um reajuste de 14,79% para os salários dos magistrados, que tem efeito cascata no restante do Judiciário. Se for aprovado, o salário dos juízes passaria de R$ 26.723 para R$ 30.675. Detalhe: eles também reivindicam o benefício de auxílio-moradia. Além do protesto nacional, a Associação dos Juízes Federais (Ajufe) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo o reconhecimento da omissão do Congresso Nacional em não aprovar o pedido. Isso porque diversos deputados já deixaram claro que o pleito dos juízes é “fora de propósito” e não é prioridade na Câmara. Como no caso dos médicos, a Ajufe garante que todos os atendimentos urgentes serão atendidos no dia 27.